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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006
Jasão

Mista sobre tela - Setembro 2006, de D'Noronha - 120 x 60 - Ars Longa

Um gesto sem alento

Nascido em Si sustenido.

Enfim,

Um barulho consentido pelo vento.

Foi num negro momento perto do fim.

Ali,

Como quem vai a descontento contra si mesmo.

Ali mesmo.

Ao pé da negra mesa composta de teias e poeira.

Foi ali mesmo que pela primeira vez o ouvi

– ao simétrico sibilar do afastamento –

Ao lado do bolor

(bolôr? bolór?),

Que em jeito de massapão cobria o banquete intocado

Onde tinha, aliás, pousado, o cálice de vinho envenenado,

Que, aliás, não bebi...

Às escuras, até parece que ainda reluz.

Mas não. O veneno não ilumina.

É pus à procura da gangrena que o produz.

Não o bebi. Olhei apenas.

Sobre a poeira, uma cruz difusa de rubra projecção.

O caldo infuso de uma semente

Com parecenças a dente-de-leão.

Nessa mesma mesa, veladamente nupcial, onde me deste a salvação

Embrulhada na gaze imarcescente da traição,

Encontrei-te, pois, junto do fim,

No reflexo vermelho

Do primeiro encontro.

Não julgues que, quando viste as velas ao longe,

Era eu a governar o barco.

Não o julgues.

Estava aqui, abaixo do nível das águas

Que,

Por salgadas,

Julgávamos lágrimas quando,

Também,

Julgávamos que éramos nós quem provocava as ondas.

Estava aqui.

A povoar o chão de salitre.

Estava aqui.

Quando era ao teu lado que eu devia ter ficado.

Ao teu lado.

Tocável e oferecido, nem que fosse como essas sementes

Que me salvaram –

– com  parecenças de dente-de-leão:

Não porque voassem,

Mas porque exigissem a carne pútrida de quem as comesse para germinar –

Essas sementes que os teus gestos de bruxedo

Arrancaram do corpo em fruto do mesmo galho em que nasceste.

Essas sementes de repulsa que nasceram do desejo

E da fatalidade fratricida

E infanticida

Em que, por ilusão, me apareceste.



Nota: Agradeço ao amigo D'Noronha a permissão para utilizar as suas telas no meu blogue. Prometido fica, também, um post sobre as quatro maravilhas adormecidas que me  chegaram a casa, depois de colhidas pelas suas mãos de artista. Obrigado.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:05
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
|
7 comentários:
De Ana Ramon a 22 de Novembro de 2006 às 11:53
É só para te dizer que é sempre um enorme prazer ler-te: o que escreves, como escreves, o que seleccionas, como seleccionas, o que te comove, o que te irrita, esse respeito por vezes humilde pelo trabalho dos outros nesta tua permanente exposição aos olhares blogosféricos . Um abraço
De L.R.S. a 23 de Novembro de 2006 às 15:04
Passo sempre por aqui e ainda não tinha comentado vez alguma. Belíssimo texto, a cadência, as palavras, os gestos implícitos... e a tela igualmente bela.
Já agora, parabéns pelo blog.
De Manuel Anastácio a 23 de Novembro de 2006 às 16:19
Obrigado pelas palavras simpáticas que me escreveram. É sempre bom saber que as palavras que alinho tocam, de alguma forma, outras pessoas.
De Jo Lorib a 24 de Novembro de 2006 às 03:38
Belo poema, Manuel, e que bela obra de arte de nosso querido D'Noronha, que ao que parece também está virando disseminador de sementes, só não pedi as minhas por absoluta falta de um quintal. Abraços.
De Manuel Anastácio a 25 de Novembro de 2006 às 00:02
Abraço.
De aríssimoD'Noronha a 24 de Novembro de 2006 às 12:36
Caríssimo Manuel,
É uma grande honra de ter uma tela minha ilustrando tão belo poema. Fiquei sem palavras.

Um grande abraço ao amigo.
De Manuel Anastácio a 25 de Novembro de 2006 às 00:04
Bondade sua, decerto. Abraço grande de quem muito o admira.

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