Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006
Por que pinta

Pormenor de "As Tentações de Santo Antão" de Hieronymus Bosch (1450 – 1516) - Museu Nacional de Arte Antiga

Por que pinta?

Não sei. Para ir onde?

Como assim?

Come como entender, não tenho nada a ver  com isso.

Ah, está a brincar.

Talvez. A respeito do quê? Das pintas, ou do modo como come?

A respeito das duas coisas.

Nesse caso não estou a brincar.

A respeito do quê?

A respeito da sua liberdade individual. Segue pela pinta que quiser, come como entender.

Entendo. É por isso que pinta?

Não. Essa é uma pergunta totalmente diferente. Para a qual não tenho resposta.

E para a outra, tinha?

Qual outra tinha?

Não é justo. Retirou a vírgula.

Não é o que fazemos todos?

Fazemos?

Sim. Acho que me deu a resposta.

Dei?

Deu.

Como?

Isso é consigo. Há ali uma pastelaria que vende uns jesuítas fantásticos.

Não gosto de jesuítas.

Hum... Piada fácil: agora perguntava...

E da companhia de Jesus?

Sim. O burro e a vaca.

Como?

Muitas dúvidas tem você quanto à fome que tem.

Está a repetir-se.

Eis outra razão por que pinto.

Porque se repete?

Acha que eu me repito?

Eu não perguntei isso.

Não?

Teria perguntado, se tivesse dito: por que se repete?

Não teria perguntado nada.

Mas há pouco, perguntou.

Foi você mesmo que disse que a pergunta não tinha sido essa.

Ainda assim... É incrível como o compreendo.

Compreende por que pinto?

Não. Compreendo o que diz.

E quando pinto, acha que não digo nada?

Não sei. Nunca o ouvi a pintar.

Pois não. Mas olhe que pinto como digo.

Estou a olhar, mas não vejo pinto algum. Muito menos como diz.

Pois não. E pinta?

Não. Você é que pinta.

Acha-me com cara de pinta?

Era uma afirmação, não uma pergunta.

Pois era: é como as vírgulas.

As que se retiram?

Sim, se for na altura certa.

Como agora?

Come quando lhe apetecer.

Ai o catano...

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publicado por Manuel Anastácio às 22:21
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2 comentários:
De Artur a 21 de Novembro de 2006 às 18:31
Porque pinta? Porque tem de ser, claro como o ar que respira. Porque escreve?
De Manuel Anastácio a 22 de Novembro de 2006 às 00:53
Hum... Tenho as minhas dúvidas quanto a esse paralelismo entre respirar e o acto criativo. Fica agendado para próximas elocubrações sobre a arte.

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