Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

"Gato sobre arraiolos inacabado" - Tânia Carvalho (1996 - ) , na onda dos gatos do Artur

O novo álbum de Caetano Veloso, Cê, tem sido muito comentado em Portugal graças à faixa 10, "Porquê?" cuja letra se resume ao repisar de um muito inverosímel orgasmo dito em português de Portugal e com sotaque igualmente luso:

Estou me a vir
e tu como é que te tens por dentro?
por que não te vens também?

(de facto, a letra original tem escrito "porquê não te vens também"...)

Mas só me apeteceu fazer este post por causa da primeira canção: "Outro". Os efeitos acústicos fazem lembrar um qualquer baile da paróquia, mas o ritmo e os sobressaltos que tento em vão transpor na letra que apresento a seguir fazem a perfeita interpretação poética dos sentimentos melosos que, com certeza, já nos assaltaram em algum momento da nossa vida - como aquele momento em que uma qualquer canção apimbalhada até parecia reflectir com clara nitidez e verdade a dor de um amor que talvez nem tenha tido início ou que só foi bom (ou nem por isso) enquanto durou. Até a chamada má música (não estou assim a classificar Caetano, entenda-se) consegue perturbar o lodo das emoções e da inércia das nossas resoluções. Esta canção, não sendo música de fruste acabamento, transpira essa força que existe na música popularucha, que muitas vezes nos impele em dada direcção mas que, por orgulho intelectual ou social, renegamos. Até nos podemos espantar quando, mais sóbrios, reflectimos nas decisões que tomámos movidos por aquela que não é a nossa música - talvez porque, não sendo a nossa música, obriga-nos a agir, a reagir - a caminho da vingança ou do desdém, enxugando as lágrimas depois de uma maldosa resolução. A nossa música é a que nos faz voltar a casa - a outra é a que nos faz bater a porta com força. A diferença entre uma e outra reside na relação entre permanência e intensidade: amor ou paixão, respectivamente.

Você nem vai me reconhecer
Quando eu passar por você...
de cara alegre e cruel
feliz e mau como um pau... duro
acendendo-se no escuro...
Cascavel,
Eriçada na moita,
Concentrada e afoita...
Eu... já chorei muito por você,
Também já fiz você chorar
Agora olhe pra lá porque
eu fui me embora...
Você nem vai me reconhecer
quando eu passar por você.
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publicado por Manuel Anastácio às 22:22
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1 comentário:
De Artur a 18 de Outubro de 2006 às 14:52
diga-se em abono da verdade que os meus gatos são convidados eternos, que vivem tranquilamente a vida à sua vontade e não ligam muito a tapetes de arraiolos.

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