Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006
Católicos

Rosácea da Igreja Matriz de Barcelos

Depois do post sobre a Cruz, Paixão e Morte de Conceição Sapateiro, disse a Ana, a certo passo de um mail que me enviou:

"A minha mãe embora não frequentando a igreja, fazia-lhe confusão eu não dar educação religiosa às crianças.  E um dia resolveu levar o meu filho a uma igreja para lhe mostrar a Casa de Deus. O rapazito ao entrar fixou-se logo nos santos, uns espetados com flechas e de olhar esbugalhado, outros sem cabeça, outros crucificados, bem, todas aquelas cenas comuns na pose dos santos. O miúdo cada vez mais enfiado, apontou para uns quantos e perguntou à minha mãe " Que bonecos são aqueles?" E ela vaidosa por dar a informação, respondeu "São santinhos, filho!" E a criança deu-lhe a mão e disse baixinho "Então vamos embora porque eles são muito maus!..."

Certa vez, ainda não sabia eu que um dia moraria para estas bandas, entrando com o meu sobrinho no Bom Jesus de Braga (sem saber que uma dia me casaria lá), comecei por explicar-lhe exactamente o porquê de tantos corpos estropiados. Ele ficou particularmente impressionado com os punhais cravando o peito da Nossa Senhora das Dores (creio eu que é essa - ele há tantas Nossas Senhoras...) - e lá expliquei que era por causa da aflição que lhe fazia a morte e paixão de seu filho1. E lá tinha de vir a explicação do porquê de um Deus oferecido em sacrifício (a si mesmo?).

Estou certo de que estas confusões nas cabeças das crianças não são resolvidas na catequese. Creio que as catequistas limitam-se a dizer que Jesus é amigo, nosso pai e que morreu por nós. Mas não explicam mais nada, simplesmente porque não sabem mais nada. São católicas porque assim nasceram. Receberam o carimbo à nascença, pretendem passá-lo às gerações seguintes. De facto, não há religião com crentes mais crentes que o catolicismo. Crêem mesmo sem saber no que que crêem. Os muçulmanos ainda se flagelam a decorar e a comentar o Alcorão. O católico pega supersticiosmanete na Bíblia e crê que é pecado lê-la. O importante é acreditar. A fé. Mas haverá fé sem conhecimento do seu objecto? Há fé no abstracto? Se há, é uma fé em absoluto, uma fé que desresponsabiliza e tranquiliza porque se pode sempre alegar ignorância.

As igrejas católicas, ricas em imagens, não informam - antes, obscurecem. Os vitrais, os santos, a decoração é uma panóplia com tantos simbolismos estranhos que, ainda que me agrade, por vezes, a nível estético, em nada ajudam a explicar os fundamentos da fé ou as narrativas míticas a ela relacionadas. Daí as interpretações sincréticas e pagãs do imaginário cristão. Os santos passam a assumir a função dos deuses da fertilidade e afins.

Estou a queixar-me? Nem por isso. Essa diversidade religiosa, a nível individual gera manifestações populares interessantíssimas, reflectidas nos costumes, nos rituais, na arte... O que me entristece é a intolerância dos católicos menos esclarecidos em relação às outras manifestações religiosas que não arvoram o carimbo papal, como quando clamam o seu ódio excessivo em relação às "seitas", quando, no fundo, são donos da sua seita privada.

1. De facto, os sete punhais representam as sete angústias marianas:
a) A notícia , dada por
Simeão, de que uma espada de dor transpassaria sua alma.
b)  A agonia na fuga para o Egito
c)  Quando perdeu Jesus, encontrando-se este no Templo com os sábios;
d) Quando viu Cristo com a Cruz;
e) Quando viu Jesus crucificado entre dois malfeitores;
f) Quando recebeu o corpo morto de Jesus, depois de despregado da cruz;
g) O sentimento de solidão que a apoderou, sabendo da ressurreição, mas sem o consolo da sua presença física.
... e acho estranho não entrar a angústia que deve ter tido quando ouviu o filho a renegá-la como sua mãe... mas essa é uma passagem incómoda que não convém lembrar por parte dos católicos marianos convictos...



Vitrais da Rosácea da Igreja Matriz de Barcelos
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publicado por Manuel Anastácio às 01:27
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10 comentários:
De Artur a 16 de Outubro de 2006 às 09:50
Agora podem obscurecer, mas as iconografias religiosas formam todo um alfabeto visual que nos velhos tempos antes das agruras da alfabetização transmitiam eficientemente a mensagem mítica da igreja e das vidas dos santos. O nosso pendor pelo alfabetismo fez-nos perder a compreensão pelas mensagens visuais inscritas na própria arquitectura das igrejas. O que hoje só os historiadores de arte mais ferrenhos conseguem decifrar era há séculos perfeitamente compreendido por camponeses analfabetos.
De Manuel Anastácio a 16 de Outubro de 2006 às 20:45
Isso faz-me lembrar as "Bíblias dos pobres" que eram compostas por imagens, supostamente porque os pobres não sabiam ler... Mas, de facto, quem posssuía tais Bíblias dificilmente se poderia chamar... pobre...
De Artur a 16 de Outubro de 2006 às 22:29
Nada disso. Não se trata de condescedência - trata-se da transmissão dos mitos através de códigos iconográficos bem definidos. Há um livro fabuloso sobre o assunto - signs and symbols in christian art, se não me falha a memória.
De Filipe a 16 de Outubro de 2006 às 10:16
Devo dizer em primeiro lugar que sou católico, e em segundo lugar que o quer que eu consiga dizer num comentário dum post, de certeza que não exprime os sentimentos associados à questão de fundo.
No post que citas, fiz um comentário acerca da alegria, após a paixão, essa alegria que acho que um católico deve sentir pela ressurreição, e reconheço que muitos católicos fixam residência na Sexta feira santa, não chegam ao Domingo de Páscoa.
A visão da Igreja de hoje, que já passou pelas cruzadas e pela inquisição, continua a ser uma Igreja em crescimento. A Igreja continua a ser feita por homens, homens com qualidades e com defeitos, intrínsecos à qualidade humana.
Mesmo hoje existem várias vivências dentro da Igreja, sugiro –te duas, de fácil acesso, Frei Bento Domingues que escreve no publico aos Domingo e também nesse dia Anselmo Borges no Diário de Notícia. São exemplos, que vão além do aspecto ritualista em que muitos católicos vivem, e que dás exemplo neste post
De Manuel Anastácio a 16 de Outubro de 2006 às 20:47
Já conheço o Frei Bento Domingues e concordo contigo. De modo algum o meu post se refere aos católicos em geral, mas a uma (infelizmente) boa parte deles.
De Maria Helena a 16 de Outubro de 2006 às 11:37
Gosto tanto do post como dos comentários :)

Todavia, acrescento-lhe que sou católica e que nas inúmeras "razões" que encontro na minha devoção a Maria também está a "cumplicidade" de Ela conhecer a ingratidão de um filho...
De Manuel Anastácio a 16 de Outubro de 2006 às 20:48
Mistérios da fé... :)
De D'Noronha a 16 de Outubro de 2006 às 16:25
Um amigo jornalista, ao questionar o arcebispo daqui da região sobre o porquê de tantas imagens na religião católica, ouviu a seguinte resposta:
"O povo não tem capacidade de abstração. É necessário criar imagens tanto de deus quanto de santos para que se acredite em algo invisível."
De Manuel Anastácio a 16 de Outubro de 2006 às 20:50
E os muçulmanos? Está certo que também procuram e criam outras imagens abstractas... Mas é motivo para reflectir na natureza das religiões iconoclastas.
De Artur a 16 de Outubro de 2006 às 22:31
E, claro, os protestantes com a sua ética do trabalho e notória prosperidade erigiam igrejas e catedrais despojadas de elementos decorativos, e alfabetizaram-se para ler a bíblia.

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