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Domingo, 8 de Outubro de 2006
Pormenores: o Barbadão (Solar dos Pinheiros - Barcelos)

Imagem esculpida entre os despojos de antigas remodelações da Igreja Matriz de Barcelos, actualmente no museu de arqueologia da mesma cidade.

Dizem os roteiros turísticos que na fachada sul do "Solar dos Pinheiros", mandado construír por Pedro Esteves, em 1448, em Barcelos, junto à Igreja Matriz, se pode ver a imagem esculpida de um homem de grandes barbas, chamado de "Barbadão". Confesso que me foi difícil descobri-lo, logo abaixo da cornija do telhado. No fundo, é apenas uma cara, com uma barba não propriamente descomunal, que é cofiada (ou agarrada como quem a quer arrancar, como depreende o povo) pelo braço direito. Vários relatos populares tentam explicar a simbologia da pequena escultura. Em termos gerais, é identificado com Tristão Gomes Pinheiro, fidalgo que mantinha más relações de vizinhança com os senhores do Paço dos Duques de Bragança, um pouquinho mais acima. As razões da inimizade dever-se-iam, talvez, ao facto de D. Afonso de Bragança não lhe permitir a construção do solar como pretendia, com torres mais altas, que facilmente devassariam o interior do Paço, ou, como prefere a maioria da população, refere-se a um protesto do mesmo fidalgo contra um Cavaleiro da estirpe dos Braganças, que teria desonrado a sua filha. Outras fontes referem que a figura representa não mais que o avô materno do primeiro duque de Bragança - o que não confere com a versão de Damião de Góis, segundo o qual seria Mem da Guarda, judeu converso de Castela que se teria fixado na Guarda, onde exercera o ofício de sapateiro, sendo conhecido, pelas gerações futuras dos Pinheiros, como "Borboleta" (em jeito depreciativo, como é típico das famílias que se envergonham dos seus antepassados plebeus) e que, para aumentar a confusão, é considerado o pai de uma tal de Inês Peres, Inês Fernandes ou Inês Pires Esteves (variantes que correspondem a outras tantas filiações) que, depois de andar enrolada com o Mestre de Aviz terá dado à luz o primeiro Duque de Bragança, D. Afonso. Se alguém conseguir desenvencilhar estas obscuras raízes de famílias que tanto as prezam, agradeço qualquer comentário.

Contudo, ao passear entre as ruínas dos Paços Ducais, transformadas hoje em dia em museu arqueológico ao ar livre, encontrei, entre velhos despojos da Igreja Matriz, outro Barbadão, tal e qual. Muito espantado estou por não encontrar qualquer referência, em lado algum, a esta personagem duplicada que é, provavelmente, irmã gémea da outra ou, pelo menos, irmã mais velha. O Barbadão do Solar dos Pinheiros  resultou, quanto a mim, apenas da apropriação privada dos materiais rejeitados numa qualquer remodelação da Igreja Matriz, coisa que é, de facto, muito comum em Portugal. Os solares portugueses são, quase sempre, edificados com os despojos dos conventos, igrejas e palácios que a nossa proverbial burrice permitia cair em abandono. A cobiça da arte é mais frequente entre a lusa fidalguia do que o gosto pela mesma... Nem vou falar do que os nossos republicanozinhos da primeira república também fizeram com os conventos que mandaram fechar, na sua sanha anticlerical, para imediatamente sangrar para as suas bacias de barbeiro transmudadas em elmos de  Mambrino. O mal é pátrio, e não de classe. E não se trata de gosto Kitsch nem Camp... Trata-se apenas de roubalheira por unhas abençoadas de quem nasceu com o rabo virado para a lua.
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publicado por Manuel Anastácio às 20:11
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5 comentários:
De Artur a 10 de Outubro de 2006 às 22:33
Terá sido o mesmo escultor a mostrar a sua mestria repetindo um dos seus sucessos escultóricos?
De Manuel Anastácio a 11 de Outubro de 2006 às 11:20
Bem, estas esculturas eram feitas por mestres anónimos e é provável que fossem feitos por várias pessoas e não por uma só. A minha tese é que a de cima (do museu) é mais antiga e foi vista pelo(s) mestre(s) que se inspiraram para fazer o barbadão da cornija do solar. O estilo da primeira é claramente muito mais rude - ainda que a prefira em relação à segunda, mais conhecida.
De Manuel Anastácio a 11 de Outubro de 2006 às 11:22
Isto é, mudei de opinião a esse respeito desde que escrevi o post...
De João Lemos a 7 de Novembro de 2016 às 22:42
Não será esta escultura do barbadão no museu os resto de alguma sepultura de um Pinheiro das que foram retiradas da igreja Matriz de Barcelos?
De Gonçalo Pinheiro de Melo Sousa Eusébio a 26 de Julho de 2010 às 16:36
Caro Manuel
buscando na net por uma "estória" que diz respeito aos meus antepassados, e por não ter a certeza do signficado, passo aqui a descrever-lhe aquilo que foi contado por minha avó, nora de Bernardo Pinheiro de Melo. 1º Conde de Arnoso
O Barbadão, ou a estatua do barbadão no solar dos Pinheiros em Barcelos foi colocada como um sinal de desafio á casa da Bragança que se encontra em frente, pelo facto de um dos Braganças ter desonrado uma filha do Solar dos Pinheiros ( Não sei os nomes nem as épocas). Como tal, o pai da filhar desonrada jurou que iria construir um solar maior que o dos Branganças, nem que para isso tivesse que empenhar as barbas de forma a limpar a honra da sua filha.
Isto era a "estória" que contava a minha avó.
Aquando da construção da sua casa em Cascais, o conde de Arnoso recebeu de S.A Rei D. Carlos I, a modo de graça, um Barbadão que colocou na esquina da casa a apontar para o Palacio da Cidadela onde o Rei e seu amigo passava os Verões. É uma versão mais actualizada do existente no Solar dos Pinheiros.

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