Quinta-feira, 5 de Outubro de 2006
Kitsch I

Negativo de foto do lago do Bom Jesus, inspirado nas fotos "kitsch" da Helena

Sendo uma das palavras mais difíceis de definir e, mais ainda, de traduzir aproximadamente, o que é "kitsch", ao certo? Pedro Almodóvar é Kitsch. O Galo de Barcelos é Kitsch. Os restaurantes chineses (incluindo os que não fecharam depois das inspecções sanitárias) são Kitsch. O Bom Jesus de Braga é Kitsch. O seu lago, cheio de turistas a remar em barquinhos como se fossem carrinhos de choque é extremamente Kitsch, com as suas cercas de betão a imitar pequenos troncos de árvores. Uma foto de um local Kitsch não é, contudo, logicamente Kitsch. Desde que haja um pouco de presunção artística, o Kitsch torna-se Arte. Nisso, sou irredutível. Sem presunção, não há Arte. Mas há quem defina o Kitsch, exactamente, como um produto do mau gosto. Eu não concordo, em absoluto. O Kitsch é, antes, a interpretação colectiva que o grosso da sociedade faz da noção de beleza. É a estética das multidões, directamente influenciada pelo gosto das elites, do qual são apropriadas as características consideradas, de facto, belas. O operário que trabalha na construção de um palácio compreende como ninguém a estrutura banal do ambiente luxuoso; o espectador do São Carlos que espreita como pode os espectáculos de trás da coroa que cobre o grande brasão no fundo da sala, vê que, por detrás da talha dourada e  pormenores finamente esculpidos, há apenas toscos travejamentos de madeira (pelo menos é o que conta o Saramago nos seus Cadernos). Estes dois exemplos, que remetem para os sepulcros caiados - não serão os cemitérios o cúmulo de todo o Kitsch? - demonstram que, se formos a ver, pouco haverá no mundo que não seja Kitsch. A palavra Kitsch foi inventada pelas classes altas e adoptada por alguns artistas que necessitam dessas mesmas classes como de pão para a boca para designar toda a tentativa frustada (pelo menos a seus olhos) de fazer arte ou de praticar o "bom gosto", por parte das classes inferiores - ou seja, por parte das massas, de onde emergem os "novos ricos". Mas aqui, deparo com um dos problemas mais espinhosos: os novos ricos gostam do que é falsamente luxuoso (mármores fingidos, por exemplo)? Não! Antes pelo contrário! São os primeiros a exigir torneiras de ouro. Como sabem o que se esconde nos bastidores das salas de luxo, porque neles trabalharam, exigem, ao máximo, a integridade dos materiais (desde que essa integridade seja, de alguma forma, explícita - de nada vale ter torneiras de ouro, se os visitantes pensarem que é cromado amarelo). A não ser que, sabendo dos artifícios praticados desde  sempre pelos Grandes Senhores, prefiram facilitar as coisas...

O Kitsch não é mais, a meu ver, que a interface estética do fosso entre ricos e pobres. Posso estar enganado. Mas voltarei ao assunto.
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publicado por Manuel Anastácio às 15:23
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4 comentários:
De Artur a 6 de Outubro de 2006 às 01:04
Não confundas kitsch com camp. Um exemplo: o galo de barcelos é tradicional. Um galo de barcelos produzido em massa algures em zhongguang de cores garridas para decorar recordações turísticas é kitsch. O mesmo objecto duchampianamente retirado do seu contexto e colocado sob luzes culturais é camp - e sim, o camp traduz o popularucho para consumo das elites culturais, que assim podem gostar da pimbalhada sem que a reputação se lhes vá por àgua abaixo...
De dnoronha a 8 de Outubro de 2006 às 01:19
O mesmo Duchamp que Artur se referiu já disse:
'A má arte também é arte, assim como os maus sentimentos também são sentimentos' .
De Manuel Anastácio a 8 de Outubro de 2006 às 20:35
De acordo. Estou a reflectir no assunto. Em breve responderei aos vossos interessantes comentários.
De Artur a 9 de Outubro de 2006 às 00:30
Mas a ideia de kitsch enquanto interface estético é brilhante.

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