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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006
Álbum de família: Bissorã

Guerra colonial portuguesa na Guiné - Bissorã, 27 de Outubro de 1968  (o meu pai em primeiro plano).

Mata do Caré, Bissorã. Não sei, sequer, se é assim que se escreve. Seis anos ainda viriam sem que a luz me fechasse os olhos. O meu pai escreve no verso da fotografia "esta foto significa..."

Porque cada imagem significava algo. Não tanto o que mostrava, mas o que pretendia mostrar.

É verdade que a explicação no verso da fotografia nada diz. "(...) quando vou progredindo sobre o capim (...)". Claro que o meu pai não tinha aprendido na sua quarta classe nada sobre as subtilezas que se escondem nas palavras que sobre as palavras falam. Significar, dizer, representar - tudo o mesmo. Claro que existia uma certa vaidade literária e poeticamente obscura em algumas das passagens que chegavam em postais às mãos da minha mãe. "Se teu coração me esquecer, teus olhos me vejam" é uma das frases que mais me chocam na sua crua ameaça e terno desespero (na verdade, palavras escritas numa fotografia de minha mãe, para lá enviada). Na verdade, não entendo a frase - mas quem entende, de facto, a poesia das palavras que não significam aquilo que a gramática pode desvendar? Talvez digam que os campos da Guiné não eram propriamente uma Arcádia bucólica. Talvez estes arremedos de literatura de cordel se tornassem
em dolorosas confissões eróticas, não fossem os postais lidos por olhos alheios antes de voarem para casa.

Prometi ao meu pai escrever, um dia, um romance baseado nas suas memórias que ninguém se deu ao trabalho de ouvir como quem vê. Sempre que olho estas fotografias compreendo como estou longe de o compreender, como estou longe de perceber o que aconteceu sob aquele céu estranho onde, um dia, um oficial, debaixo de fogo, o queria obrigar a sair de um buraco seguro, dizendo que não podia morrer, porque tinha filhos. O meu pai não saiu. Respondeu que não tinha filhos. Mas haveria de ter.

Nota: O oficial também se safou, para descanso dos leitores mais susceptíveis.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 21:54
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2 comentários:
De Artur a 3 de Outubro de 2006 às 21:47
Estou muito curioso sobre essas histórias que ninguém se deu ao trabalho de ouvir.
De Manuel Anastácio a 3 de Outubro de 2006 às 22:28
Ouvir como quem vê...

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