Domingo, 1 de Outubro de 2006
Buscas pedidas: "histórias infantis sobre o outono"

Outono em Akiyamago, foto de Kropsoq (em GFDL e Creative Commons Atribuição - Compartilhamento pela mesma licença 2.1 - Japão)

Houve uma, primeira, a espreitar o sol da Primavera, espreguiçando-se no seu botão apertado. Nessa altura, olhava com tristeza para os ramos desolados da árvore onde nascera, invejando os ramos verdes dos pinheiros que via ao longe. Demorou um dia até que outras se espreguiçassem e, enrugadas, a olhassem, invejando a sua cor verde escura e o seu colar de orvalho. Eram todas muito invejosas. Não falavam entre si, cada uma a lutar por um raio de sol mais a jeito, sobrepondo-se umas às outras, sem se importarem com as dos ramos mais baixos, que murmuravam contra a escuridão a que estavam condenadas. Na sua ignorância, invejavam tudo. Ficavam até furiosas quando viam que os pulgões preferiam consumir até à última gota a folha do lado, julgando que a escolha se devia à falta de doçura da sua própria seiva e olhavam para o outro lado, despeitadas. Olhavam com inveja para a melada com que os pequenos insectos pretos cobriam as irmãs, salpicadas com as cascas que estes iam despindo e abandonando, à medida que cresciam e se reproduziam à conta do trabalho das suas frágeis manitas. Estas, cada vez mais fracas, invejavam o corpo liberto das irmãs saudáveis, julgando que o seu silêncio era apenas sinal de vaidade. Assim, deixavam-se morrer lentamente, sem nada esclarecer, em silêncio. Quando o vento as abanava, contudo, parecia que as invejas se dissolviam no ramalhar conjunto dos ramos. Sem que cada uma deixasse de ser quem era, só a árvore passava a ser verdadeiramente. Só a árvore, maior que elas, lhes perdoava a sua pequenez, enquanto abanava os ramos. Porque elas julgavam, nessa altura, que era a árvore que estava zangada. E que lhes ralhava:

- Entendam que são iguais!... Entendam que a doçura que em vós nasce é partilhada por todas, para que, de vós, nasçam frutos e sementes!...

...Era um ralhar doce. Enquanto oscilavam em conjunto, esqueciam as suas pequenas diferenças. As suas diferentes moradas em diferentes ramos tornavam-se uma só morada, um só ramo, numa só folha. E faziam música com o seu próprio silêncio. E entendiam. Até que o vento amainava e cada uma voltava ao seu lugar e à quietude do seu ramo. Olhavam, então, à volta. E esqueciam-se. Olhavam para o corpo esburacado da folha de baixo, onde uma lagarta verde a devorava sem piedade. Invejavam, então, o rendilhado do verme, enquanto a folha esburacada invejava a linha perfeita e inteira das outras. Os frutos, entretanto, amadureciam.

Com o tempo, chegou a moda dos amarelos e castanhos. Algumas, invejosas, perdiam o verde de inveja e coravam-se de dourados brilhantes ou de vermelha vaidade, ainda que lhes doesse a transformação. Consumiam-se nesta corrida. Sentiam o seu pé a fraquejar, junto ao ramo, mas não desistiam. Sentiam-se doentes e inúteis - a seiva parara de correr do seu corpo em direcção aos frutos, já maduros e cheirosos - mas a sua vaidade nunca fora tão acesa.

Até que os ventos voltaram a acariciar os ramos. E começaram a cair uma após outra. Enquanto se afastavam do seu ramo e rodavam, no ar, em conjunto com outras folhas, de outros ramos ou doutras árvores, ainda tentavam pedir perdão pela sua arrogância. Mas, neste tempo todo, não tinham aprendido, sequer, a falar. Nem a ouvir o mesmo grito no silêncio da queda das outras.

Nota: Não sei se é uma história infantil (o que será uma história infantil?), mas foi o que consegui fazer, a pensar num leitor que, talvez, não volte aqui...
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publicado por Manuel Anastácio às 13:59
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4 comentários:
De T. a 2 de Outubro de 2006 às 00:59
Olá, boa noite!
Aqui vim parar à procura do seu conto infantil (infantil? também fiquei na dúvida...)
Sim, é uma história muito bonita, mas evidencia algumas características más que eu nunca observei nas árvores! Pelo menos entre aquelas que eu conheci...
E olha que conheci muitas e, todas, talvez devido à muita idade, eram muito sábias e serenas. Só as vi perder a cabeça, isto é, os ramos, em noites de muito vento...
Têm muito bom senso e sabem escutar os nossos problemas. Por isso, as escolhi como as minhas confidentes e estão entre as minhas melhores amigas.
Tenho uma relação muito forte com a Ginkgo Biloba, uma árvore que conheci em Weimar na terra do amigo de que falas num post mais abaixo ...
:)
De Manuel Anastácio a 2 de Outubro de 2006 às 08:21
Características más? Não... A árvore, em si, nada tem de mau neste conto. Mas tomei a liberdade de transformar as folhas numas pequenas megeras apenas por conveniência poética. Não pretendo desprestigiar as árvores. Antes pelo contrário... :)
De T. a 2 de Outubro de 2006 às 09:57
Falei em características más porque assinalas muito as «invejinhas» delas. Só por isso! Eu percebo, que por trás das árvores estás a ver as pessoas...
De T. a 2 de Outubro de 2006 às 09:52
Já permiti o acesso a qualquer pessoa, embora mantenha a moderação dos comentários. Sabes, eu própria defini aquela inibição, porque odeio comentários anónimos. E há sempre quem goste de deixar o seu lixo no espaço dos outros...
Bom dia para ti.

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