Terça-feira, 26 de Setembro de 2006
Moradas do Castelo Interior

Êxtase de santa Cecília, de Bernardo Cavallino (1645)

Sentou-se num dos lugares ao fundo. O silêncio era aterrador. Os passageiros, envoltos na sua bolha de privacidade, fixavam um ponto no infinito, a cinco centímetros do nariz, como nos elevadores. Uns levantavam e baixavam rápida e ritmadamente a cabeça, como antigos gifs animados ou imagens  de um remoto cinetoscópio cíclico. Estes eram, em geral, jovens com acne. A ciência podida ter inventado a música incorporada geneticamente ao aparelho auditivo, mas a acne tornara-se, idubitavelmente, um efeito secundário da tecnologia fisiológica e da produção alimentar. A velhota ao lado, por sua vez, balançava a cabeça em movimentos amplos e irregulares, evoluindo entre o vagaroso e o rápido. Ouvia, com certeza, música erudita. E pensou porque é que, praticamente, só os velhotes ouviam música erudita... Será que, desaparecendo as borbulhas, desenvolvia-se o gosto musical para paragens mais complexas e exigentes?... Na... A velhota devia estar a ouvir pela décima milésima vez o Nessum Dorma...

Ele bem que podia ser o único a ser surdo a nível informático. Os seus tímpanos tinham uma deformação qualquer que não permitiam a decodificação da música a nível interno, como quase toda a gente. Era uma ave rara. Só ouvia música graças a uns aparelhecos de museu que um tio conseguiu pôr a funcionar sabe-se lá como... Mas, ao menos, era o único a compreender, na sua classe de literatura antiga, aquela longa passagem de "A Montanha Mágica", onde Hans Castorp se deixa anestesiar pela audição de uma ou duas passagens da Carmen de Bizet. Quando a música enlatada ainda trazia peso e alteridade. Agora, a música estava em cada um. Ninguém compartilhava, nem criticava, nem deitava a baixo. Só espaço e silêncio. O barulho refugiara-se em cada um. Mas não era mau. A música tornara-se, finalmente, íntima e pessoal. E, ao fim e ao cabo, não era assim tão mau o silêncio.

Foi o único a fechar um livro antes de transpor a linha amarela, ao chegar ao seu destino
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publicado por Manuel Anastácio às 01:22
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2 comentários:
De Artur a 26 de Setembro de 2006 às 19:10
Lembras-te do Até ao fim do mundo de Wenders, em que estávamos todos fascinados pelas maquinetas que nos permitiam visualizar os nossos sonhos?
De Manuel Anastácio a 26 de Setembro de 2006 às 20:42
E, como sempre, há um pesadelo atrás dos sonhos.

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