Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006
Trôpego de pernas

"Ecce Homo" - "Eis o Homem", numa das capelas da via Sacra do Bom Jesus, Braga

O blogue da Sociedade Martins Sarmento, A Pedra Formosa, tem vindo a publicar, praticamente na íntegra, dia por dia, as "Efemérides Vimaranenses", coligidas por João Lopes de Faria - um dos calhamaços obrigatórios para compreender as pedras e os fantasmas de Guimarães. Já há algum tempo que alguém me lançou o repto para escrever com maior pormenor a história da minha cidade de adopção na Wikipédia - e ter online esta obra facilitará o trabalho se alguma vez o tiver em mão (o artigo actual já não é dos piores). Mas, mais que dados históricos de relevo, o que ressalta destas efemérides é, exactamente, o sabor chão das histórias esquecidas ou obscurecidas ''por causa da má caligrafia e má tinta''. Mais me serviriam estas efemérides para escrever um romance onde pegasse, por exemplo, em Custódio Domingues Torres, que em 1822 matou a sogra e que demorou três dias a chegar, de cavalo, à cadeia da Relação do Porto por estar "trôpego de pernas".

O envenenamento foi no caldo ao jantar, a sogra comeu-o todo, o sogro comeu pouco e deixou-o por estar quente; a mulher entrou em aflições e ansias, fugiu pela casa fora, em que tinha reserva e estavam todos, para uma fronteira em que dormia e o marido, já quase sem sentidos e moribunda, e faleceu às horas da tarde; o marido teve menos aflições e vómitos por ter comido pouco caldo e em antes laranja com pão. A sogra e sogro cozinhavam na casa da filha e genro, em que tinham reserva, como acima fica dito, mas em separado, e dormiam num quarto alugado fora em casa fronteira, por causa das continuas questões de há 5 meses e dizer o genro publicamente e muitas vezes que os havia de matar, com uma faca ou com veneno, que 5 reis ou 10 reis faziam a festa.

Claro que não temos para esta história o manancial de pormenores que podemos encontrar nos documentos coligidos por Michel Foucault em "Eu, Pierre Rivière, que Degolei a Minha Mãe, a Minha Irmã e o Meu Irmão" (publicado em Portugal pela Terramar). De facto, enquanto que o caso de Rivière se tornou num caso arquetípico com implicações a nível científico, ético e jurídico, a história criminal portuguesa (creio eu que por escrever) está apenas povoada de farrapos sem consistência. Muito me interessaria saber como é que os nossos médicos, polícias e juristas encaravam os criminosos, além da descrição sumária e factual dos periódicos superficiais da época que, na verdade, pouco diferem dos jornalecos que a grunhice nacional continua a consumir hoje em dia.
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publicado por Manuel Anastácio às 20:38
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8 comentários:
De Artur a 9 de Setembro de 2006 às 17:54
Uau! Pulp fiction com sabor a antiguidade!
De Cornelius Fudge a 9 de Setembro de 2006 às 21:53
Olá!
Se gostas de Harry Potter e queres estar a par de todas as últimas novidades, visita, por favor, o blog "Harry Potter News" - http://harrypotternews.blogs.sapo.pt

Com os meus cumprimentos,
Cornelius Fudge - Webmaster do Harry Potter News
De Menina_marota a 12 de Setembro de 2006 às 15:34
Os maus instintos de assassinar familiares e afins não é de agora... já vem da histórisa de todos os tempos... só que presentemente se dá mais publicidade aos factos...e é muito mais fácil descobrir os assassinos...
Brincadeira à parte, gostei de ler... ,)
De Filipe a 20 de Setembro de 2006 às 18:19
Hão-de existir arquivos nos tribunais, aí sim acho que haverá muitas histórias escondidas e por contar.

Estive a pesquisar mirtáceas na Wikipedia e encontrei várias coisas, já é trabalho teu?
De Manuel Anastácio a 20 de Setembro de 2006 às 20:07
Vai sendo. O artigo principal ainda precisa de cantaria nova e os artigos para cada género nem sequer têm, ainda, as listas das espécies... Mas, em compensação, desenvolvi o artigo "banana". :)
De Manuel Anastácio a 20 de Setembro de 2006 às 20:08
... Que não é o fruto de uma mirtácea...
De Ana Ramon a 20 de Setembro de 2006 às 23:56
Olá Manuel! Por estranhar a sua ausência, procurei-o aqui e acabei por viajar sobre a sua escrita, num permanente acordar de memórias esquecidas. Passarei a ser uma leitora assídua. Espero que o seu silêncio tenha a ver com umas férias merecidas. Um abraço
De Ana Ramon a 21 de Setembro de 2006 às 00:01
Afinal estava aqui e eu nem tinha reparado
:)))))))))

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