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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
Dos livros nos blogues

"Lendo no jardim" de Joaquin Sorolla y Bastida (1863 - 1923)

Compreendo os blogues que se calam durante semanas. Dia após dia, um mesmo título e um mesmo texto permanecem e acabam por se dissolver em silêncio. A mesma frase que nos fez rir, nos assombrou ou acusou acaba por se tornar em silêncio. Em página branca. Página essa que bem pode ser apenas um sinal de que do outro lado se fazem coisas mais interessantes. Que se passeia. Que se namora. Que se preguiça. Ou, no mais banal e necessário dos casos, que se trabalha. Mas, para quem se habitua a visitar determinados blogues, a falta de novidade torna-se em angústia. Em página branca. Está certo que um blogue não deve ser visto como uma obra de arte, mas como um tipo truncado de conversa. Poderia dizer, como o Paulo Hasse Paixão no seu recente post:  "é uma vergonha ficar para aqui calado dias a fio com tanta cena desinteressante e desinteressada que me passa por esta cabeçorra cota, já um bocado afanada no juízo e na memória", para, depois, falar de quem tem lata para falar de livros. Num blogue. De facto, há pouca gente a falar de livros em blogues. Eu vou tocando no assunto, mas arrependo-me a maior parte das vezes. Na altura, parece-me que posso dizer algo de interessante sobre o que li, mas é ilusório. É que não é  Jorge Luís Borges quem quer. Escrever sobre livros sem que seja, depois, pedida a sua leitura (até porque tais livros podem nem sequer existir) é uma tarefa criativa maior. O melhor que a maioria vai conseguindo é, mesmo, dar dicas sobre o que ler. As recensões críticas do Artur, geralmente direccionadas para o fantástico, ficção científica e banda desenhada, são exemplares no seu género: preparam a papinha toda e, se as lermos com atenção, até podemos passar por especialistas instantâneos nessas matérias, ainda que o seu objectivo seja outro - levar-nos a ler a obra.

Falo disto porque gosto especialmente dos blogues nos quais pressinto os livros. Não tendo tanto tempo para ler (livros) como gostaria, tenho um certo prazer em encontrá-los entretecidos nas palavras que se estatelam nesta terra de ninguém entre a "literatura que merece perdurar" e a literatura de ocasião, condenada ao desaparecimento com um simples clique no "eliminar este blog". E não é preciso citá-los, resumi-los ou criticá-los. Basta falarmos sem os negarmos. Deixá-los discorrer subentendidos no estilo ou no conteúdo.

Porque há pessoas que têm prazer em dizer que escrevem e que se orgulham de não ler - para não serem influenciados. Coitados. Não sabem que, assim, limitam-se a percorrer os mesmos caminhos dos autores de todos os Génesis do mundo, refazendo as mitologias apenas com outras palavras e outros nomes, mas, provavelmente, menos eivadas de mistério genesíaco. Porque, coitados, também neles os livros chegaram - através dos outros que lhes falam, das imagens que vêem e dos sons que ouvem. Também a eles os livros influenciam. Mas terão de se valer apenas da sua própria voz entre ecos distorcidos. Enquanto que a voz  de  quem lê traz consigo uma orquestra de acompanhamento. Ao vivo e em directo.
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publicado por Manuel Anastácio às 17:51
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2 comentários:
De Artur a 7 de Setembro de 2006 às 16:10
Obrigado pelo elogio. Mas tem de ser assim - sei que muitos dos meus amigos que vão lendo o blog não são viciados em livros, e muito menos em obras mais obscuras.

Quanto ao falar de livros, qual é o problema? Os nossos blogs espelham-nos. Falamos do que nos vai na alma. E tens razão - é desolador visitar um blog e não encontrar lá nada de novo.
De Jo Lorib a 9 de Setembro de 2006 às 20:56
Que posso dizer senão que concordo plenamente contigo. Páginas em branco são angustiantes, livros sào ótimos e blogues são uma ótima forma de fazer amigos.
Abraço desde São Paulo

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