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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006
Vilar de Perdizes

"O Sabbat das Feiticeiras" de Francisco Goya (1746 – 1828)

Vilar de Perdizes é, talvez, uma das mais conhecidas terreolas portuguesas graças às diligências do Padre António Fontes que, ao fundar aí os Congressos de Medicina Popular, a estabeleceu como um ponto obrigatório na rota dos bruxos, adivinhos, endireitas, astrólogos, umbandistas, homeopatas, curandeiros e todos os outros que praticam as suas artes esotéricas mas que, supostamente, não são charlatões - isto é, aqueles que se servem deliberadamente das crendices e ignorância alheia, conscientes de que estão a defraudar os outros. Porque há aqueles que vivem à custa da crendice mas que, por acreditarem na sua banha da cobra, não podem ser considerados, com toda a propriedade, charlatões. Nesse saco pomos a grande parte dos líderes (de âmbito paroquial ou mais lato) religiosos, mas também políticos, nacionalistas, etc. Todos os que pretendam impor unilateralmente pontos de vista que não sejam solidamente assentes em pressupostos racionais pertencem a este grupo, desde que compartilhem essa convicção com os indivíduos que exploram. O charlatão sabe que o é. Mas ao passar pela meia dúzia de barraquinhas de Vilar de Perdizes, o cheiro a incenso só acentua a impressão de fatuidade e misticismo rasteiro. Frases soltas captadas através dos reposteiros das tarólogas pareciam comprovar de forma cristalina que com uma dose de ambiguidade e psicologia de taberna tudo se adivinha de forma aceitável para as almas desconfortavelmente instaladas na modernidade - ou para quem a curiosidade cor-de-rosa justifica uma sessão de "Tarot de cristais" com a Simara a 34€, mais para ver os efeitos da banda gástrica do que testar os seus dotes de Sibila, creio eu.

Por mim, limitei-me a comprar um vasinho de Verónica (Hebe speciosa), uma bola de carne ainda quente de uma senhora da aldeia e um saco de mica branca que promete acabar com a transpiração excessiva nos pés (vulgo chulé) para o resto da vida (o que não implica que deixe de ser necessário lavar os pés) e aprendi que a tisana de flor de urze (Calluna vulgaris) é indicada para o acne. Às onze da noite, depois de uma belíssima postinha de carne barrosã e uma alheira estaladiça em Montalegre, na "Tasca do Açougue", ao lado do Castelo, voltámos à feira das ilusões. A voz dos congressistas atroava pela feira, mas nada ouvi de gratificante para o espírito. Uma senhora saiu do seu portão e expulsou os membros de uma companhia de Teatro da sua soleira por aí terem especado o seu caldeirão onde ardia aguardente, açúcar e maçã. "Acredito em Deus, não é em bruxas!" - disse. E ficámos sem saber se tal divina indignação fazia também parte da encenação. A beberagem foi depois oferecida a uma multidão ansiosa por provar o sabor do bruxedo - ainda mais sendo grátis - depois de um esconjuro digno do "Macbeth". Tive pena de não ter ouvido a poética composição na íntegra. Apenas apanhei, no ar da noite, referências à língua venenosa de uma mulher casada com homem velho e à barriga inútil de mulher solteira.

Descansado, por fim, por verificar que os fantasmas não existem, segui para casa. Apenas com pena de não ter dado tempo para ver de perto as Olas de Santa Marinha e outros recantos onde apenas ecoa a gratuita magia da Natureza. Valeu ainda a pena olhar para o céu nocturno, depurado de qualquer iluminação eléctrica ou de rastos de vassoura.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 19:07
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2 comentários:
De Artur a 4 de Setembro de 2006 às 22:06
Tens que admitir que os charlatães são muito menos perigosos do que os crentes.
De Manuel Anastácio a 4 de Setembro de 2006 às 23:31
É uma piada muito gira, sim senhor... Mas tudo depende dos charlatães=charlatões (para o caso de quem julgue que alguma das formas gramaticais está errada). Quantos mais crentes potenciais, pior.

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