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Domingo, 27 de Agosto de 2006
Blogues - A Estrada de Santiago

Peregrino, portal menor da Catedral de Santiago de Compostela. Fotografia de Yearofthedragon, em Creative Commons

O conto de pequenas dimensões tem raízes profundas na tradição oral. Se os aedos gregos recitavam grandes poemas épicos (ainda assim recorrendo a esquemas mnemónicos facilmente identificáveis até nas obras homéricas), o vulgo não profissionalizado tinha, obrigatoriamente, que recorrer à anedota, ao provérbio, às romanças, às xácaras, às loas. E, aliado à curta dimensão vem, geralmente, o carácter poético da composição (comum à generalidade  das formas referidas, excepto para a anedota). Isso tanto se deve à já referida função mnemónica da poesia como ao carácter ambíguo da mesma, que permite sugerir tudo o que não é possível dizer. A poesia tem, de facto, um carácter sintético, enquanto que o romance-prosa vive, essencialmente, da análise (então, o romance moderno após Joyce...). A micro-narrativa está, portanto, na fronteira entre a poesia e a prosa. José Eduardo Lopes, que muito me tem honrado com a sua presença por estas bandas, apresenta-se, na Revista Minguante, como alguém que brinca com as palavras como se fossem peças de Lego - ainda assim, com medo de as quebrar. Mas uma das características das peças de Lego não é, exactamente, a sua resistência e indivisibilidade quase atómica? Serão as palavras assim? Na verdade, não. Quem define a palavra como uma unidade linguística não sabe o que diz. A palavra é uma entidade múltipla, não só pelos múltiplos sentidos que permite de forma pacífica (largamente explorados na anedota brejeira), mas pelos sentidos subversivos - aqueles que causam estranheza, ao tornarem a palavra em algo material,

Escrevia para fixar o tecido da existência. Acreditava piamente nisso. As suas palavras eram linhas, pontos, alfinetes. Mas, quando se levantou o vento, o tecido sacudiu-o.

capaz de, efectivamente, se estilhaçar no pó opaco da anedota imediata

Ele achava que a alunagem tinha sido perfeita. Mas a pedido dos pais da aluna, o Conselho Directivo da Escola instaurou-lhe um processo.


ou nos cacos cortantes e resplandescentes da poesia.

Não adianta viver do passado, não há sangue correndo nas estátuas de sal

E se juntarmos pó a partículas de luz ficaremos, pois, frente a uma adequada imagem da Estrada de Santiago - aquela faixa  coloidal que atravessa a escuridão da noite  numa mistura de opacidade com transparência. Assim são os micro-contos de José Eduardo Lopes, ao aliarem a opacidade dos conceitos à acção deliberada das palavras que não são mero objecto passivo de brincadeira, mas a ferramenta, o utensílio transformador com que se cria uma nova realidade.

Viviam nas antípodas um do outro(...) Ainda assim, precisam um do outro, e esperam que os céus se recurvem para se reunirem sobre a linha do Equador.

Os seus contos começam frequentemente com uma acção - com um verbo, uma frase proferida, com um "depois" ou "um quando" - e terminam, explicitamente ou não, com a afirmação de uma urgência, nem sempre possível de satisfazer, mas imanente à condição humana.

    - Parece que estamos em Vila Pery – disse – cheira-me a queimadas e a laranjais carregados…
 Fiquei imóvel como uma estátua, quase sem respirar. Senti a pressão da mão aliviar enquanto ele adormecia de novo. Voltei a correr para dentro de casa, ainda assustado e a pensar no sucedido. A mim, só me cheirava a mijo retardado.

Já tinha prometido ao José um comentário um pouco mais elaborado, já que raramente consigo comentar directamente n' A Estrada. Aqui fica, pois, um pequeno prólogo, onde o melhor, claro, são as citações que tive o descaramento de roubar. Como roubariam os peregrinos, com certeza, alguns frutos ao longo do seu caminho.
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publicado por Manuel Anastácio às 15:20
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2 comentários:
De Artur a 28 de Agosto de 2006 às 19:27
Pelos vistos tenho de ir dar uma leitura. Agora, um conselho gráfico: não utilizes mais do que um tipo de letra num mesmo documento. Usa diferentes corpos ou estilos, mas mantém o mesmo tipo - facilita a leitura.
De Manuel Anastácio a 29 de Agosto de 2006 às 10:05
Obrigado pelo conselho! De facto, tudo se deveu à tristemente célebre prática do copy-paste...

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