Sábado, 10 de Setembro de 2005
França

Rio Sabor, na Serra de Montesinho

Nasce o rio Sabor (dizem por lá Sá-bôr), na Serra de Montesinho, no silêncio impressionista da folhagem dos freixos e no espelho da água que corre a conta gotas, num ano em que o céu foi avaro. Chega-se lá por um caminho de terra batida, sinuosa e esburacada. A última vez que trataram do caminho foi quando um ministro de incógnita memória lá passou umas férias regaladas, a convidar aos piqueniques sobre a relva e aos pés em água fria... Pouco mais à frente, existe uma aldeia chamada França. Conta-se que muitos passadores de emigrantes ilegais, na época em que a União Europeia ainda não tinha cá chegado à província, eram para ali trazidos e ali deixados, julgando estar mesmo no país para lá dos Pirenéus.

A placa atestava indubitavelmente a chegada à terra prometida. Imagino as pessoas a descerem de um camião de aspecto duvidoso, olhando em volta o aspecto tosco e selvagem da serra. O cheiro da noite, o uivo de algum lobo ao longe... Talvez parecesse um bom augúrio o nome do país aparecer escrito em tão bom português e não existir guardas de alfândega... As promessas de uma vida melhor encontravam-se onde? Atrás daquela colina? Afinal, pensariam para si mesmos, enquanto seguiam em silêncio pelo caminho estreito, sobre o rio e as bétulas, talvez o desterro não seja muito penoso... A água corre com o mesmo som que na aldeia de onde vinham. O chão é parecido: terra lousinha (xisto, para os eruditos)... A urze, as silvas, as plantas com picos parecem as mesmas...

O cantar do galo é igual e o céu descobre-se lentamente com as mesmas matizes de Portugal... Até as casinhas que se perfilam ao fundo com os telhados de ardósia escura parecem emitir a mesma luz de candeia de quem madruga para o trabalho do campo... Custará, depois, admitir o engano, quando se cruzarem com aquele aldeão que chama as vacas na mesma língua em que vão a pensar? Como custará nessa altura ouvir as palavras ouvidas no berço?...

E descobrirão, com certeza, que não há maior desterro que aquele que se encontra em solo pátrio.

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publicado por Manuel Anastácio às 21:57
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