Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006
Historinha pouco infantil

Sonho, ilustração de Carla Cristiana de Carvalho para um conto por escrever. Segue-se uma tentativa.


- Sabes que árvore é esta?
- Não.
- E esta?
- Não. - e bocejou.
- Não gostas de árvores?
- Nem por isso, o que é que há para gostar? Árvores são árvores. - olhou para elas como se fossem a chatice petrificada.
- Claro, árvores são árvores. E isso não é pouco...
- Eu sei, eu sei, isso do oxigénio e do aquecimento global. Até vomito quando o meu professor de Ciências começa a falar nisso.
- Pois. São muito importantes por causa disso. Mas não só. Além da sua beleza própria... Repara como são diferentes umas das outras. Esta aqui, um carvalho, é da mesma espécie que aquela ali... As folhas são parecidas, os frutos são da mesma forma e o pólen de uma pode fertilizar a outra. São da mesma espécie. Não fazemos ideia se podem comunicar uma com a outra, mas sabemos que são da mesma espécie porque, ao darem fruto, provavelmente, o fruto de uma é o fruto da outra, sem que a outra o venha a saber alguma vez.
- E as árvores sabem alguma coisa?
- Claro que sabem. Duvidas? Poderá haver algo mais ignorante que uma semente? Mas a semente sabe quando deve germinar. Sabe que deve espreguiçar a raiz para baixo e que as folhas devem abrir apenas quando romperem a terra, em direcção à luz. E, depois, quem somos nós para não crermos que as árvores possam ter memórias?
- Isto é um carvalho? - e estendeu a mão a um ramo, de onde arrancou uma folha, como se fosse a madeixa que tinha pedido no dia anterior à menina da carteira da frente. Hoje saíra com o irmão só para fazer o jeito. Não estava com grande paciência para observar insectos, lagartas, ervas ou outras excentricidades que noutra altura o teriam deliciado. O irmão tinha histórias para cada pedra, para cada nome. Mas hoje acordara apenas com a dor no estômago de quem ainda não recebeu a resposta que espera. Carvalho era o apelido da menina da carteira da frente. Aquela a quem metera um bilhete meloso com meia dúzia de frases de que agora se arrependia - podia ter dito tudo muito melhor, se tivesse pensado um pouco mais. Até a letra lhe tinha saído tremida. Só pensava no ridículo. Estava mesmo a ver-se a chegar à escola no dia a seguir e ela a rir-se à socapa (ou, pior, abertamente - com os colegas a passarem o bilhetinho uns aos outros) com as amiguinhas irritantes.
- Sim, é um carvalho alvarinho. - disse, enquanto colhia uma flor de camomila e logo se arrependia do gesto egoísta.
- Gosto de carvalhos.
- Gostas? Se nem sabias que era um carvalho...
- Hoje passo a gostar.
Sentaram-se num muro sobre estolhos de hera.
- Passas a gostar?... - sorriu. - Estás apaixonado?
O irmão sorriu para os pés.
- Estou... E daí?
- Então, talvez venhas a dar mais valor às árvores do que pensas. As árvores estão geralmente associadas a histórias de amor. Histórias felizes e histórias trágicas. Houve uma Báucis e um Filémon que se tornaram árvores por vontade dos deuses - uma tília e um carvalho nascendo do mesmo tronco. Houve amantes que uniram o seu sangue ao das árvores, como Píramo e Tisbe, por quem as amoras se vestem de luto... E outras... Houve até uma Madame Bovary que julgava amar quando apenas olhava para os ramos hesitantes da floresta...
- Julgava amar?
- Sim... É complicado. É uma história difícil de explicar. - e sorriu envergonhado por ter tocado em algo que não poderia explicar em maior detalhe - Não como as duas primeiras histórias.
- E todas as histórias de amor têm árvores?
- Tenho a impressão que sim.
- Tu e a tua namorada também têm uma árvore?
O irmão corou. Pensou nela, na varanda, a regar as flores.
- Quem te disse que tenho uma namorada? - perguntou, com falsa indignação.
- Ninguém. - respondeu o irmão, voltando a pensar na carteira da frente...
- Não temos... ainda. Mas havemos de ter.
E o irmão assentiu com a cabeça
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publicado por Manuel Anastácio às 01:33
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3 comentários:
De Artur a 22 de Agosto de 2006 às 12:18
E são assim os dilemas da vida. O amor e as dores do crescimento. Bonito conto a acompanhar uma ilustração em busca de palavras.
De Ana Ramon a 26 de Setembro de 2006 às 23:14
Uma história muito bonita. De repente tornei a lembrar-me de Baucis e Filemon, da despedida apressada (e julgo que muito aflitiva) ao verem nascer dos seus corpos ramos de árvore plenos de folhas: "Adeus, meu querido/a!!" E nada mais poderem dizer nem fazer por terem sido cobertos por casca de árvore para sempre. Jupiter bem que podia ter preparado um final mais romântico e menos claustrofóbico.
De Manuel Anastácio a 27 de Setembro de 2006 às 12:32
Interessante - nunca avaliei a história de Báucis e Filémon nesses termos. Claro que concordo que a despedida foi apressada e insuficiente. Mas quando é que uma despedida satisfaz minimamente quando se ama?

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