Sábado, 19 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "Ribeira da Brunheta II"


O caminho revela então aquilo que já me tinham prometido: rastos de incêndio. A estrada de terra batida serve de fronteira entre um último reduto de pinhal verde e uma longa mancha de eucaliptal queimado.



A estrada segue por um vale que se manteve verde graças a qualquer sopro divino. As chamas parecem ter saltado o pequeno córrego escondido entre ervas e pequenos grupos de árvores isoladas. O calor da tarde quase que me obriga a meter-me pela erva adentro e escavar o fundo em busca de água. A palavra oásis assenta perfeitamente ao vale. Infelizmente.


Está certo que o fogo não mata, de facto, a maioria dos eucaliptos. Antes pelo contrário. Dispersa-os. Faz parte do seu ciclo natural. As suas sementes necessitam de passar pelo fogo para germinarem. Seria uma bela imagem, se não fosse a menos adequada para as outras árvores que, esforçando-se num último grito de vida, estendem ramos verdes sobre os tocos queimados. Como estes amieiros. Tão belos quanto um corpo com cicatrizes.


 Do lado direito, onde, antes, íamos às pinhas, restam apenas fetos e promessas de pequenos pinheiros bravos. Toda esta zona já pertenceu à maior mancha de pinheiro bravo da Europa. Agora não.



A Ribeira da Brunheta aproxima-se. Sento-me na berma ladeada de cardos, erva de serrã-pastor, colhões-de-galo (não conheço outro nome para tais ervinhas - e duvido da designação "corações-de-galo" com que alguns pudicos conterrâneos a baptizaram) e marcela. A marcela é uma erva profundamente aromática. Desconheço o seu nome científico e se tem outra designação no resto do país (não creio que seja o mesmo que macela) e era colhida pela altura das festas dos santos populares para ser queimada, juntamente com rosmaninho, em fogueiras dispostas ao longo da rua que se enchia de fumo branco com a suposta capacidade de curar a rabugem até ao ano seguinte. Era, de facto, este o principal motivo que me levava até à Ribeira da Brunheta, onde esta erva crescia com particular efusão pelas encostas dos campos de lavoura abandonados... Bem, os pêssegos que nasciam no pomar ao lado destas ervinhas comprovavam, também, todos os anos, que a fruta roubada tem um outro sabor... Hoje, nem sequer um pessegueiro se vê entre a erva seca. Só memórias e um tanque seco. Levanto-me. A Ribeira da Brunheta, na minha geografia mental, começa depois daquela curva.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:55
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