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Sábado, 5 de Agosto de 2006
Buscas pedidas - "sobre as rainhas dos seculos passados com nome de conceiçao"

Bartolomé Esteban Perez Murillo (1619 - 1682), Imaculada Conceição

Algumas das buscas frustadas no google são-no porque o que se procura é simplesmente inconcebível na Internet. Inconcebível - digo bem, porque a busca que hoje me faz perorar está relacionada com a Imaculada Conceição de Maria. Alguém procurou pela seguinte e poética conjução de palavras: "sobre as rainhas dos seculos passados com nome de conceiçao". Ora, não posso ajudar muito nesta questão. Teria de ter a lista dos nomes completos das Rainhas de todos os países católicos ou cujos reis tenham casado com meninas católicas, para ver se alguma se chamava de Conceição, porque parto do princípio que tal nome se refira directamente ao dogma da Imaculada Conceição de Maria. Se assim é, é provável que tal nome tenha tido maior uso a partir de 8 de Dezembro de 1854, data em que passou a ser parte incontestável da doutrina católica. Antes disso, era apenas um theolegoumenon ou seja, uma opinião teológica - um pouco de insólita liberdade de pensamento no seio da Igreja Católica. Todos os católicos aceitavam que Maria era sem pecado. Restava saber a partir de quando. A Imaculada Conceição veio a impor que Maria nasceu já preservada do pecado original, ainda que tenha nascido por meios puramente biológicos (ao contrário da interpretação de muito bom católico que por aí anda e que julga que Santa Ana e São Joaquim eram castos). Interessante também notar que assim como Tomás de Aquino e Bernardo de Claraval consideravam altamente improvável que Maria tivesse uma concepção imaculada, entre os autores que mais contribuíram para firmar o dogma estão, além de Escoto e São Boaventura, imagine-se, o próprio Diabo! O chifrudo, tal e qual! É que Pio IX, o mesmo que proclamou o dogma, tinha lido, em 1923, um soneto composto pelo Demónio. É verdade. O Diabo é poeta. Não é grande coisa - diga-se de passagem - pelo menos, as rimas são muito pobrezinhas (filho-mãe-filho-mãe), mas, ainda assim é um poeta, além de teólogo - talvez o primeiro dos teólogos. Não direi o primeiro dos poetas, porque nessa parte teve, com certeza, de se ver com "A Palavra" ou "O Verbo" original. Ora, o soneto foi supostamente ditado pela boca de um rapazinho de 12 anos, analfabeto, supostamente possesso por Satanás. Os padres Bassiti e Pignataro, os exorcistas, decidiram, então, humilhar o demónio obrigando-o a demonstrar a veracidade da Imaculada Conceição. Repare-se que não era ainda dogma - portanto, os padres estavam a habilitar-se à heresia: afinal, quem eram eles para afirmarem a veracidade de algo ainda não atestado pelo papa? Ai, ai... O Demónio aceitou fazer um soneto que terá emocionado Pio IX até às lágrimas:

"Sou verdadeira mãe de um Deus que é filho,
E sou sua filha, ainda ao ser-lhe mãe;
Ele de eterno existe e é meu filho,
E eu nasci no tempo e sou sua mãe.

Ele é meu Criador e é meu filho,
E eu sou sua criatura e sua mãe;
Foi divinal prodígio ser meu filho
Um Deus eterno e ter a mim por mãe.

O ser da mãe é quase o ser do filho,
Visto que o filho deu o ser à mãe
E foi a mãe que deu o ser ao filho;

Se, pois, do filho teve o ser a mãe,
Ou há de se dizer manchado o filho
Ou se dirá Imaculada a mãe."

Portanto, eis um dogma católico cuja veracidade foi atestada pelo Diabo. Coisa linda. Quando a Bernardete de Lourdes perguntou o nome à sua aparição, a linda senhora da gruta terá respondido num belo lance teatral "Eu sou a Imaculada Conceição". É bonito ver o Paraíso e o Inferno em tão grande harmonia ideológica.

Mas, seja como for, há que concordar que o nome Conceição fez carreira. Primeiro entre as freiras que se arrepelavam para serem Sorores da Imaculada Conceição, depois, ao povo em geral, incluindo, provavelmente, as rainhas, que também dele fazem parte, creio eu. O problema é que o nome das rainhas e dos reis e outros produtos nascidos da consaguinidade real são de tal forma extensos que é impossível, nas obras de referência normais, encontrá-los completos. Eu não conheço nenhuma rainha Conceição, tirando aquela designada correntemente como rainha de Portugal, se for vero o satânico dogma... Alguém conhece?
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publicado por Manuel Anastácio às 19:06
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2 comentários:
De Artur a 7 de Agosto de 2006 às 12:02
Uma linhagem real de conceições - eis uma ideia inconcebível.
De Maria Helena a 8 de Agosto de 2006 às 09:04
Assim como não há linhagem real para Maria da Anunciação...

Creio que são nomes que encobrem um esóterico ancestral e cujo significado ultrapassa o atribuído pela Igreja Católica.

Não deixam de ser metáforas lindissimas, a meu ver...

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