Sábado, 5 de Agosto de 2006
A Schwarzkopf

Lágrimas (1933) - de Man Ray

Morreu Elisabeth Schwarzkopf. E o que é que isso interessa? Não estava ela a apurar as cordas vocais enquanto o partido de que fazia parte assassinava milhões de judeus, ciganos e tudo o que considerasse uma nódoa na sua sociedade linda e loira? E quem sou eu para lhe estar agora a apontar o dedo? Os judeus dos Estados Unidos da América, alguns dos que agora se acham no direito de fazerem os seus próprios genocídios - com a crescente simpatia da comunidade internacional - não a boicotaram anos seguidos, como fizeram com Karajan?

E por que falo eu disto, se considero A Schwarzkopf simplesmente uma das mais belas vozes do século XX? Um dia, perguntaram-lhe que discos levaria ela para uma ilha deserta (partindo do princípio que os poderia ouvir lá). E a maioria dos discos, imaginem, eram dela. Vaidade? Sinceridade, apenas? Não - a justificação d' A Schwarzkopf foi, simplesmente, que, ao ouvi-los, estava a ouvir também todas as pessoas que a tinham acompanhado na produção de cada um desses discos, o que seria simplesmente reconfortante na solidão de uma ilha. É belo. É em nós mesmos que poderemos encontrar os outros. Não dizemos: "os outros que de nós fazem parte"? Os outros que são, sempre, em nós, memórias.

Schwarzkopf era nobre no que fazia. Não foi uma nazi, apesar de filiada no partido. Não foi nobre (como lhe recomendava Maria Ivogün, a sua professora de canto) ao ponto de se fazer sacrificar por outros. Pecou tanto quanto nós que vamos de férias enquanto os genocídios continuam, apenas com outros assassinos a comandar. Com a diferença de que para estes não existirá qualquer julgamento em Nuremberga.
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publicado por Manuel Anastácio às 00:24
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1 comentário:
De Artur a 5 de Agosto de 2006 às 09:47
Podes ouvir aqui uma cantanta de bach na sua voz: Anablog (http://www.analogartsensemble.net/2006/08/rip-schwarzkopf.html)

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