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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2006
Abre antes

Vista do Castelo de Abrantes, a partir da Igreja de São Vicente.

Em comentário ao artigo sobre São Longuinhos, o Jo remeteu-me logo para o Blog da Toponímia Galego-Portuguesa e Brasileira, de José Cunha-Oliveira onde encontrei motivos suficientes para me alongar nas minhas diletantes cogitações sobre a origem dos topónimos. O último post (em desenvolvimento) deste Blog trata de "minas, minerais e mineração". Logo me acorreu ao pensamento o nome da cidade sede do Concelho onde nasci: Abrantes. A historieta que se conta entre os populares, e registada por Fernanda Frazão nas suas "Lendas Portuguesas" (Ed. Multilar. Lisboa: 1988) conta que existiria, por altura da conquista da cidade por D. Afonso Henriques, um alcaide de nome Abraão Zaid, pai de uma bela moura, chamada Zara. A menina andaria de amores por Samuel, filho de uma cativa cristã, e que era, sem que os dois soubessem, seu meio-irmão. Andava Abraão preocupado com o caso quando Afonso Henriques pôs cerco ao castelo, acompanhado de nobres e monges, entre os quais se contava um frade beneditino do Mosteiro do Lorvão e um cavaleiro de nome "Machado". Depois de tomada a cidade, estando Samuel a ferros, Machado consegue arrancar Zara das mãos de um soldado bêbedo que a pretenderia violar. Machado fica particularmente impressionado com a beleza da jovem, que lhe faz lembrar a imagem de uma Nossa Senhora dos Aflitos que lhe fora oferecida pela mãe, ao morrer. Acontecia, também, que há algum tempo se repetia um sonho no qual, durante a tomada do castelo, salvava uma donzela com quem se casaria. Pedro Afonso, bastardo de Afonso Henriques, tornado senhor da cidade conquistada, nomeou Machado de alcaide-mor. Entretanto, Zara era devolvida à custódia de seu pai e o monge beneditino tomou o cargo de "guardião das almas". Machado logo começou a fazer-lhe a corte, com os bons modos prescritos pela lei da cavalaria. Contudo tais aproximações aborreciam Zara profundamente, que continuava fiel a Samuel que, igualmente, começava simplesmente a detestar o cavaleiro e a agir de forma destrambelhada perante a simples ideia de perder a sua amada. O monge, por sua vez, apercebia-se aos poucos, através do comportamento de Abraão, que algo de estranho se passava. Certa vez, estando Zara com Samuel e o pai, perguntou o que deveria fazer se, estando um dia em casa, sozinha, lhe viesse o cavaleiro bater à porta. Deveria fingir que não estava em casa, para não pôr em perigo a sua honra? A resposta quase óbvia, para aqueles tempos, seria dizer "não abras a porta", contudo, o velho estava preocupado com as relações com o novo alacaide, além de torcer, obviamente por tal união como forma honrosa de evitar o incesto. Por isso respondeu que não temia nem pela virtude da filha nem do nobre cavaleiro. Terminou dizendo "Abre antes". Samuel, louco com as palavras que pareciam abrir caminho ao rival, saiu correndo pelas ruelas da cidade repetindo "Abre antes!", "Abre antes!"... Pouco depois, desfalecia de cansaço e febre. Quando recuperou, Abraão decidiu revelar a sua paternidade, explicando que era seu filho e de uma cativa que julgava para sempre perdido o seu noivo, João Gonçalves. E, como é frequente nestas histórias, o frade revela que é esse mesmo João Gonçalves que, movido pelo remorso de ter abandonado a rapariga, se fez frade. Através da sua influência, Samuel é posto ao seriço do rei, Zara casa-se com Machado e toda a gente fica feliz. Felizmente, para eles, as tragédias românticas ao género d' "Os Maias" ou da "Rosa do Adro" ainda não estavam na moda.

Ora, segundo a crença popular, a palavra Abrantes derivaria da loucura temporária do jovem Samuel. Mas, ainda assim, nem um pouco de unanimidade existe entre os habitantes. Lembro-me perfeitamente de uma senhora - a ti Mari' Zé de Berto - que morava numa casinhota, agora devorada pelas silvas, que me contava que seria por indecisão do senhor que mandava no castelo que não sabia se havia ou não de abrir as portas aos invasores cristãos e, por fim, decide-se dizendo "Abre antes". Pouco interessa. A verdade não está nestas histórias, que tal como explica o José Cunha-Oliveira no seu blog, "ao contrário das verdadeiras lendas, não têm qualquer fundo de verdade, nem são desafios ao Saber".

Perante o tema "minas, minerais e mineração" lembrei-me, então, de uma versão um pouco mais erudita para o nome de Abrantes: derivaria de "Aurantes", nome que teria sido dado à localidade pelos Visigodos (portanto, antes do episódio "lendário" do "Abre antes") e que se referia à existência de ouro nas areias do Tejo, a seus pés. A cidade, fundada pelos Túrdulos em 990 a.C. ou pelos Galo-celtas a 308 a.C recebeu ainda os nomes de Tubucci pelos Romanos e de Líbia pelos árabes. Segundo alguns linguistas, como me referiu o José, o nome Aurantes derivaria para "Ourantes" ou "Orantes", como o caso de "Ourense" na Galiza e Ourentã (Bairrada) pelo que teríamos de procurar a origem do nome e línguas anteriores ao latim. Quanto a mim, creio perfeitamente na teoria de Aurantes e do ouro (de que hoje não há vestígio, é certo). Até porque as regras de derivação fonética que, no resto do país fizeram aparecer "ouro" de "aurum" dificilmente se podem aplicar num local onde a tendência é abreviar os ditogos em vez de os prolongar como é costume tanto a sul quanto a norte (em Abrantes diz-se "Igrêja" e não "Igreija", como mero exemplo). Mas isto é só uma opinião. Talvez um dia se venha a confirmar... Mas duvido... Nesta Ciência, arqueologia de palavras ditas ao vento, creio que tudo permanece envolto em obscuridade. E por isso mesmo, tudo parece muito mais poético do que, de facto, alguma vez terá sido.
Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 22:44
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3 comentários:
De Artur a 4 de Agosto de 2006 às 14:57
As lendas locais por vezes escondem acontecimentos esquecidos pelas memórias. Toda a confusão à volta da afeição de Zara não será metafórica da afeição que o ouro nos toma - o ouro nunca se apaixona por quem mais o quer?
De Manuel Anastácio a 4 de Agosto de 2006 às 17:26
Hum... Não me parece que haja grande relação entre uma coisa e outra... Mas é uma ideia.
De Jo Lorib a 5 de Agosto de 2006 às 19:15
Realmente o blog do Viajante, como ele se intitula, é ótimo, fico feliz que tenha gostado da indicação. Abraço desde São Paulo.

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