Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006
Cristo no Monte das Oliveiras II, de "As Quimeras" de Gérard de Nerval


"Cristo no Monte das Oliveiras" - Paul Delaroche (1797-1856)

II

Recomeçou: “Fui pela láctea estrada

E tudo encontrei morto p´los seus mundos

Longe como a vida, em veios fecundos,

Ouro em pó indo em onda prateada.

 

Tudo é secura de ondas ladeada,

Confuso vórtice em oceanos fundos,

Um suspiro move astros vagabundos,

Porém, não há Espírito nesta morada.

 

Em vez do olhar de Deus, uma só órbita:

Vasta negrura onde a noite habita,

Escura dispersão que, adensando, assombra.

 

Em torno, um arco-íris em compasso

Devorando em espiral o tempo e o espaço

Para o velho Caos de que o Nada é sombra.”


(Versão de Manuel Anastácio)

Nota: Quando me lembo de alguns defensores do ocultismo obscuro de autores tão anódinos como
Helena Petrovna Blavatsky, que supostamente teria "antevisto" fenómenos que a Ciência só posteriormente viria a descrever, mais esta parte do poema de Cristo no Monte das Oliveiras me parece investido de verdadeira profecia. Porque, ao contrário de Blavatsky, Nerval faz algo mais que descrever cosmogonias ou escatologias, mas, a partir do vazio, cria o mundo no seu todo. Incluindo buracos negros.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:49
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1 comentário:
De Maria Helena a 3 de Agosto de 2006 às 20:08
Subscrevo o seu comentário, Manuel Anastácio.

Noite, crise, Juan de Yépes vêm-me à memória quando leio Nerval.

Os signos estão em todo o lado.
Há que estar atento.

Dizer de sua justiça

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