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Terça-feira, 1 de Agosto de 2006
São Longuinhos

Codex Rabbula (Biblioteca Laurenciana, manuscrito siríaco) - Sobre o soldado que trespassa Jesus com uma lança lê-se "Loginus": λ ο γ ι ν ο ς

Estava eu a ler, para um dia destes expor aqui em texto traduzido, o relato da viagem de Miguel de Unamuno pelo Bom Jesus do Monte em Braga, quando me deparo com uma referência à estátua de Longuinhos. Primeiro, pensei que Longuinhos fosse o nome do autor da estátua equestre, feita de uma só pedra. Depois, relacionei vagamente ao nome de uma terrinha por onde se passa quando se vem de Braga para Guimarães - Santa Cristina de Longos. Desde já digo que não sou natural destas paragens, pelo que a ignorância é perfeitamente desculpável. Mas duvido que haja muita gente por aqui que saiba qual a razão de se encontrar uma estátua equestre no Santuário onde tive a honra de me casar. De facto, nem eu, depois de ler sobre o assunto, tenho muitas respostas. Como no final de qualquer pesquisa, apenas troquei uma dúvida por várias.

Ora, Longuinhos é o nome dado à personagem encavalitada. Em princípio, trata-se de um mártir que teria testemunhado a morte de Cristo, sendo identificado com:

a) o soldado que trespassou Jesus com uma lança (João 19:33-34: "E aproximaram-se de Jesus. Vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado atravessou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água".)
b) O oficial do exército que, estando em frente da cruz, viu como Jesus havia expirado, dizendo: "De facto, este homem era mesmo o Filho de Deus" (Marcos 15:39)
c) o chefe dos soldados que montaram guarda ao sepulcro (eventualmente, podemos conciliar esta hipótese com uma das primeiras).

Segundo a Patrologiae Cursus Completus, Series Graeca, teria sido instruído pelos Apóstolos e foi particularmente activo na conversão dos gentios de Cesareia da Capadócia. O primeiro indício de que se trata de uma personagem lendária vem imediatamente do seu nome, derivado, provavelmente, do grego "logche" ("lança"), que o identifica com o episódio da chaga lateral de Cristo, a tal que jorrou sangue e água  e que, ao salpicar o rosto de Longuinhos, lhe curou um problema de visão. O seu martírio é particularmente anedótico e paradoxal. Foi torturado, de modo a abjurar da sua fé. O juiz, que ordenou que lhe cortassem a língua e lhe arrancassem os dentes, ficou, logo a seguir, cego. O engraçado é que Longuinhos, mesmo desdentado e sem língua falou, por graça do Espírito Santo, e pediu a própria morte (julgava que a Igreja era contra a eutanásia...) - já que o juiz só recuperaria a visão assim que o santo estivesse morto. Assim que Longuinhos foi decapitado, o juiz voltou a ver e converteu-se à fé Cristã (provavelmente para ser martirizado pouco depois, por isso, a cura - fisiologicamente falando - de pouco deve ter valido).

A lança com que teria trespassado Jesus tornou-se num mito que, em parte, acompanhou o do Santo Graal, tomando para si a conotação masculina, enquanto o Graal tomou para si uma conotação feminina, como já acontecia num episódio do Perceval de Chrétien de Troyes, muito antes de Dan Brown.

Longuinhos é, ainda, o santo que dirige qualquer busca para algo que se encontre perdido (assim ajude ele quem busca por determinadas coisas no Google e acabam neste Blog), tal como se crê no Brasil e em Espanha. Por exemplo, é corrente, no Brasil, usar a fórmula "São Longuinhos, São Longuinhos, ajuda-me achar [diz-se o que se perdeu] e eu darei três pulinhos". As superstições ligadas a pulinhos e voltinhas são frequentes para este santo, como se verá. Em Portugal, as gentes costumam dirigir-se, contudo, ao Santo António. Enfim, patriotismos.

Voltemos ao Longuinhos do Bom Jesus. É uma estátua equestre e foi feita numa só pedra. Constitui, de facto, um ex-voto de um homenzinho de Braga que não conseguia despachar uma filha que já se fazia velha e não conseguia pretendentes... Dirigiu-se ao Bom Jesus e lá pediu um bom casamento à filha, que não se fez esperar. Em paga da promessa, erigiu a estátua, que lá está, à espera que as moças que não atam nem desatam dêem três voltas em redor do santo que, armado do seu objecto fálico, em breve lhes deve arranjar marido. Um santo casamenteiro, portanto, que em Portugal não conseguiu vencer na rivalidade com Santo António. Como já acontece com os obectos perdidos, como já foi dito.

Ora, qual a razão para tal veneração em Braga? Já sabemos como é isto de religião popular: pega-se num santo bota-de-elástico, como o João Baptista, que devia olhar para uma mulher e murmurar logo, entre dentes, "prostituta!..." e torna-se num santo galhofeiro, brincalhão e namoradeiro. Ora, aqui, o Norte de Portugal, onde as Igrejas ainda enchem ao Domingo (e noutros dias da semana também), é também o local onde, provavelmente, ainda subsistem os vestígios mais arraigados da religião pagã dos povos peninsulares. Entre estes povos não cristianizados contavam-se... Imaginem...  os Longos!!!!... Pois sim, assim designados em honra do seu mítico antepassado "Longo" que teria sido incorporado na mitologia grega pela personagem de "Linceu", um dos Argonautas que foi com Jasão em busca do Tosão de Ouro. Mais: a devoção a Longo era, em geral, reservada a locais altos, como acontece com a situação do Bom Jesus. A veneração a São Longuinho, em Braga, não será, pois, um resto da veneração dos antepassados de um povo que viveu por aqui, entre Douro e Minho, e ainda presente na toponímia (nomes de locais) da região, como na já citada Santa Cristina de Longos? Ao que parece, há também uma coincidência entre o topónimo Lamas e os topónimos relacionados com Longo - em relação com alguns monumentos megalíticos como a Mamoa de Lamas (que tenho de visitar em breve - há quatro anos que digo o mesmo). Monumentos esses tão destruídos ao longo da história de Portugal graças aos efeitos nefastos do livro de São Cipriano, que serviu durante muito tempo aos minhotos como guia para a descoberta de tesouros e que resultou apenas na destruição de muitos...

Quem quiser saber mais, vá até aqui e delicie-se com a erudição deste ensaio de Ilídio Alves de Araújo, publicado na ilustre Revista de Guimarães .  

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 00:53
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4 comentários:
De Jo Lorib a 1 de Agosto de 2006 às 05:27
Ao ler este artigo me lembrei na hora do blog do ''viajante'', com tema semelhante, principalmente os artigos mais antigos.
http :/ toponimialusitana.blogspot.com /
Veja lá. Abraço.
De Jo Lorib a 1 de Agosto de 2006 às 05:31
Um erro de edição provocou todas essas copias, apague se possivel.
Muito grato.
De Artur a 1 de Agosto de 2006 às 19:45
As simbologias são tramadas. Quanto mais se investiga e mais fundo se vai maiores são as ramificações e mais obscuras as ligações.
De Gabriel Gallaico a 26 de Fevereiro de 2008 às 00:38
Eu sou de Santa Cristina de Longos. Ja ha bastante tempo tinha visto a estatua equestre mas so pro estar aborrecido e sem nada para fazer lembrei me de investigar isso. Muito interessante de facto.

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