Quarta-feira, 26 de Julho de 2006
Mexilhões de cebolada


Pois bem. O mexilhão. Molusco de aspecto obscenamente sugestivo, efemeramente imortalizado (passe a antítese) pela música pimba ("mexe, mexe, mexe... Mexe, mexe, ó mexilhão... Tu gostavas tanto, não queiras dizer que não!..." - interessante a alternância entre versos de cinco e de sete sílabas métricas ) e pela grande poesia ("O mar bate na rocha... O mar bate na rocha... O mar bate na rocha... E quem se f*** é o mexilhão"). Coitado do bicho. Não tem culpa do cacofónico nome que tem na língua de Camões nem dos tristes usos de que é alvo. Depois, é petisco que nem sempre é devidamente servido. Quando comprado congelado, sem concha, tem tendência a ficar emborrachado e seco... Quando comprado vivo, tem uma triste aparência, coberto de estruturas calcárias segregadas por estranhos vermes marítimos e cracas-ou-lá-o-que-é, que, com certeza, constituirão belas composições para quem as procura entre a praia do forte e a praia de mil regos, na Ericeira, mas que seriam simplesmente abjectas num prato.

Lembro-me (aqui vem a "madalena" do post de hoje, em sentido próprio) de comer, com a Carla Cristiana, uns deliciosos mexilhões de cebolada, de entrada, no restaurante do Monte da Madalena, em Ponte de Lima. Um restaurante lindo, entre árvores ainda mais bonitas, onde o Alvarinho rimava com carinho, mas que tinha uma sobremesa simplesmente pavorosa com chila, leite creme e passas de uvas, numa mistela absolutamente imperdoável para a conta servida no final. Chamava-se "Delícia Madalena", a pouco deliciosa mistela. Mas os mexilhões ficaram na memória. O Alvarinho não. Ficou apenas a nublar a memória. Era a sua função. A minha irmã bem o sabia quando namorava com o meu cunhado. Sabe-se lá o que as videiras da tia Augusta teriam aprendido em conversa com as garrafas que os dois para lá atiravam. Desculpem-me a piada privada. Privada mesmo, que a minha irmã não deve ler o meu blog, penso eu de que...

Pois bem. O grande problema dos mexilhões é mesmo deixá-los com uma aparência aceitável. Dois quilos de mexilhões é muita concha a raspar (com facas duras, que devem arrancar a bicharada de raiz). É preciso lavá-los insistentemente e ir cortando as suas barbas verdes e fibrosas que, se não saírem, dão, também, mau aspecto.  Depois, vai um copinho de vinho branco para um tacho, com umas três colheres de sopa de azeite, uma pitada de sal e piri-piri. Quando ferver, os pobres dos mexilhões rapidamente descobrirão que o tormento do mar a bater na rocha era apenas o seu paraíso. O que vale é que o sofrimento não dura muito. Enquanto eles agonizam, salpicam-se com pimenta. Há medida que os pobres univalves se vão rendendo à sua sorte, abrem as conchas e são colocados retirados do tacho. Os mexilhões já abertos, antes de entrar no tacho, também já não devem nele entrar. Mexilhão cru, aberto, é mexilhão morto. E mexilhão morto, só se estiver cozido mesmo... Mas não muito, senão fica seco. Depois, colocam-se três cebolas, três tomates e três dentes de alho, tudo em rodelas, no molho deixado pelo último suspiro dos mexilhões. Tapa-se o tacho e deixa-se cozer lentamente... De vez em quando, abana-se o tacho. Enquanto isso, tiramos uma concha a cada um dos mexilhões. Quando a cebolada começar a apurar, prova-se e rectificam-se os temperos. Em geral, é necessário pôr um bocadinho mais de sal (esperemos que não seja necessário um pouco menos) e, talvez, um salpico mínimo de açúcar para dar cabo da forte acidez do tomate. Quando tudo estiver no ponto, pumba com os mexilhões de volta para o tacho, só para ganharem um pouco de vida...

E servem-se, com vinho verde branco gelado, claro. Se for Alvarinho, melhor... Mas a Retoma ainda não bateu à minha porta. É que Alvarinho rima, mesmo, com carinho...
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publicado por Manuel Anastácio às 23:48
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4 comentários:
De Carla Cristiana de Carvalho a 27 de Julho de 2006 às 01:33
Nesse dia de Setembro...
Alvarinho e alianças de comprometidos. Está explicado!
De Artur a 27 de Julho de 2006 às 17:07
Tens consciência de que aqueles que se encontram na zona intertidal são minúsculos, bons apenas para nos magoarem os pés com as suas arestas afiadas? Aqueles que escorregam bem com copinhos de Alvarinho têm de ser apanhados já em alto mar, ou então nas peixeiras de confiança do mercado mais próximo.

O que me lembra que já há um certo tempo que não vou às catacumbas do mercado da ericeira em busca desses tesouros gastronómicos. É capaz de ter alguma coisa a ver com a falta de retoma...
De Ana Ramon a 25 de Outubro de 2006 às 14:57
É uma surpresa enorme apanhar-te aqui nas descrições sempre minuciosas dos teus pratos de culinária. Esqueço a receita para me agarrar ao trabalho elaborado de escrita, com pinceladas de humor. É sempre um grande prazer ler-te. Deixaste de cozinhar? :))))
De Manuel Anastácio a 26 de Outubro de 2006 às 10:30
Não deixei de cozinhar, mas quando o tempo é pouco não posso dedicar mais de meia hora a preparar ingredientes, como na limpeza de mexilhões... :)

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