Terça-feira, 25 de Julho de 2006
Arroz-doce


Cem gramas de arroz carolino. Não pode ser agulha, nem vaporizado, nem Basmati nem outra modernice do género. Quando era pequenino, na minha terra, os casamentos não eram festejados em restaurantes nem em quintas (muito menos em solares, palácios ou outras extravagâncias que a Retoma Financeira permite a quem nela acredita). Era tudo muito caseiro. E não se resumia a um dia, mas a uma semana. As mulheres reuniam-se para fazer o inventário das louças, copos e talheres. Por alguma razão todos os serviços de louça da terra tinham pequenas marcas de tinta no fundo, para que, no final, cada um voltasse a casa com os seus próprios pratos, frequentemente lascados nas bordas devido ao tilintar dos beijos pedidos - para os noivos, para os pais dos noivos, para os avós, para os padrinhos, para tudo o que fosse casal (menos para casais de namorados porque as raparigas solteiras não se sentavam durante todas as refeições - eram elas que carregavam a sopa, o primeiro e o segundo prato, os petiscos finais, como a mistela de sangue e fressura a que se chamava "verde", sem que o fosse, e, claro, as sobremesas). Os homens tratavam de armar uma tenda de grandes dimensões, com telhado de rama de eucalipto, chão de junco e postes enfeitados com hera. Ao longo da tenda, mesas corridas, feitas sobre estacas levantadas do chão, ladeadas por bancos compridos. A comida era feita por um conjunto de "cozinheiras" designadas na primeira reunião das mulheres. Os doces eram feitos na semana antes do casamento, proporcionando ocasião para vários jantares comunitários enquanto ainda houvesse preparativos pendentes. O arroz-doce era branco, não levava praticamente nem leite nem ovos e era toscamente bordado com canela por mulheres apressadas que se limitavam a fazer losangos e arabescos esborratados sobre uma superfície que, chegado o dia do casamento, apresentava rasgos como a terra em tempo de seca. Eu, diga-se de passagem, nunca fui grande apreciador do arroz-doce da minha terra, ainda que agradeça o gesto das vizinhas que ainda vão levando um pratinho dele a casa dos meus pais quando por lá paro. Claro que prefiro quando trazem pão caseiro ou as broas das festas, quentinhas, acabadas de sair do forno a lenha. Mas gosto do meu arroz doce, desenraizado, mas com laivos de leite-creme. Não o leite creme daqui do Minho, que parece papa de farinha Maizena... mas o leite creme fica para depois. Gosto do meu arroz doce. Feito com cem gramas de arroz carolino. Ponho o arroz com uma colher de sopa de manteiga, um pau de canela e uma casca de limão (cortada sem a parte branca do limão) a ferver em água medida pelo triplo do volume do arroz. Quando tenho certeza de que o arroz está cozido, junto meio litro de leite quente, devagarinho. Faz espuma a cada adição, e vai-se formando um creme esbranquiçado a envolver os grãos. A cozinha começa a cheirar a canela e a limão - se não tiverem limão, usem erva-cidreira, e verão o efeito que tem... Lembro-me então, da Salammbô, do Gustave Flaubert, e dos cheiros cartagineses, não sei por que razão (de facto, sei, mas não digo). Depois de achar que o creme está a meu gosto, isto é, depois de penar longos minutos a mexer o arroz que demora a absorver o meio litro de leite, junto quatro (ou cinco) gemas de ovos, caseiros claro... Sim, daquelas galinhas que depenicam as suas próprias fezes... não daquelas que se vêm privadas do fruto da sua própria cloaca. Cada animal é como é e a galinha é assim. E os ovos são mais bonitos e amarelinhos se assim forem... E, graças a Deus, já não há notícias de salmonelas há muitos anos. Junto as gemas depois de as misturar com algumas conchas do arroz cozido, para que não coagule logo, claro. Quando sinto a mistura já suficientemente quente - isto é, se não coagulou, também já não coagula, tumba tudo para o tacho e mexe-se. Logo a seguir, 125 gramas (mais coisa menos coisa - se for menos, tudo bem) de açúcar e mexe-se. Põe-se na travessa e mexe-se para ficar tudo niveladinho. Depois, chama-se a Carla para bordar o arroz. Com as suas mãos de anjo (se não tiverem mãos de anjo, também não posso dar a receita) a canela desliza-lhe entre os dedos e reflecte as bordaduras da travessa. O arroz doce deixa então de ser uma sobremesa. Passa a ser uma pequena gravura ovo-láctea de efémero destino. Nenhum arqueólogo lutará pela sua submersão... Ainda bem.
Artigos da mesma série: ,
publicado por Manuel Anastácio às 01:27
link do post | Dizer de sua justiça | Adicionar aos favoritos
8 comentários:
De Artur a 25 de Julho de 2006 às 15:26
Parece delicioso, assim com uns resquícios de sabor a madeleine...
De Artur a 25 de Julho de 2006 às 15:29
Parece delicioso, assim com um cheirinho a madalena que desperta memórias...
De Manuel Anastácio a 25 de Julho de 2006 às 15:36
O prazer da cozinha (e de comer) reside muito nas memórias que desperta. Como na fruição de qualquer arte, aliás.
De Ana Ramon a 24 de Outubro de 2006 às 14:37
Vim aqui só para te dizer que este fim de semana fiz arroz doce seguindo esta tua receita. Ficou divinal, mesmo sem ter as tais mãos de anjo para a canela... As receitas escritas por homens são cheias de pormenores o que facilita muito a vida a quem se inicia nesta arte e por isso estranhei não encontrar aqui nenhum comentário dos sucessos conseguidos por outros amigos. Mas pronto. Fica o meu e a satisfação de ter conseguido um arroz com uma consistência de babar qualquer um. E já agora, para quando o leite-creme prometido?
Ana
De Manuel Anastácio a 25 de Outubro de 2006 às 00:35
Em breve, em breve... ehehe... :)
De Cozinhas por Medida a 16 de Novembro de 2010 às 15:16
Para preparar o arroz recomendo que avalie cozinhas por medida
De Decoração e Interiores a 16 de Novembro de 2010 às 15:18
Para ter novidades sobre o tema, que é bastante interessante, acho que deves continuar...
De Cozinhas por Medida a 16 de Novembro de 2010 às 15:20
Visitre o site cozinhas, por forma a preparar melhor sua comida

Dizer de sua justiça

.pesquisar