Sábado, 22 de Julho de 2006
Campo de centeio sem papoilas

("Eu espero")  "I wait", por Julia Margaret Cameron (1815-1879).

Ainda antes das cinco da manhã. Um galo fazia estremecer-lhe a respiração oprimida como se a manhã gritasse em dores de parto. Daqui a hora e meia, ouviria o despertador do quarto dos pais a repetir a mesma melodia monofónica. Hora e meia. Tão pouco tempo. Tão pouco calor a envolver-lhe o corpo, pequenino como um grão de areia. Tão pequeno. Ainda não tinha dormido nada. Ao lado, um livro da Enid Blyton repousava as páginas já soltas da lombada frágil. Os maus tinham sido presos. A Ana, a Zé, o Júlio, o David e o cão Tim terminavam a história perante um banquete de scones (ignorava o que fosse um scone) com compota de frutos silvestres e manteiga fresca. Se fosse uma daquelas raras tardes em que podia deitar-se a ler à sombra de uma oliveira ou sentado na ladeira do pinhal, interromperia a leitura, esfomeado perante a imagem de tão prosaicas iguarias. Mas eram cinco e dez. Daqui a uma hora e vinte minutos, ouviria o sino electrónico habitado por demónios desgrenhados pela manhã, arrancados dos seus infernais leitos nocturnos. Ao lado, as Pupilas do Senhor Reitor ainda ecoavam xácaras

Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar
Desde que rompia o dia
Até a noite fechar.

As redondilhas corriam em letras brilhantes sobre o fundo negro avermelhado dos olhos fechados e pontuavam o decorrer do tempo que faltava para que o vento arrebatasse Daniel e Margarida defronte do campo de centeio onde o reitor os espreitava. Um vento gélido que levantaria os lençóis quentes da história e lhe exporia as pernas ao frio da manhã às calças frias e coçadas. Andava a pobre cabreira pelos montes. O sol nascia e ele fechava os olhos. Desde que rompia o dia. Até a noite fechar-se abaixo das pálpebras e logo ressurgir com a excruciante melodia do fundo do corredor. Não, hoje ninguém o tirará da cama. Poderá dormir mais um pouco e, ao acordar, voltar a revirar as páginas do Júlio Dinis sem sujá-las com pó de cimento seco. Irá continuar assim, deitado. Ninguém vai pedir-lhe para se levantar já.

Ouve pés e água a correr. Portas abrem-se. Uma porta abre-se. A do seu quarto. A voz magoada da mãe não o acaricia hoje. Antes que mais te custe. Pousa a roupa gélida sobre os cobertores. O abismo da luz que se escoa pela porta engole-lhe a esperança. Levanta-se de repente, antes que mais lhe custe. A roupa fria e áspera não parece roupa, é mais uma casca. Desce. O pequeno almoço, sem scones e sem manteiga fresca, cheira bem, cheira a casa. Cheira bem, e é isso que o desespera. Não deveria cheirar bem. Não está certo cheirar bem. Preferia que do prato de cereais se desprendessem vapores sulfúricos e de metano e que nos recantos da cozinha ardessem fogos-fátuos. Mas não. Esses vêm depois. O pai tem a mota a trabalhar. O som ruidoso de metal a estalar rebenta-lhe os ouvidos. Procura um sinal de vómito no estômago. Mas este recusa-se a devolver o que recebeu. Não faz parte dele tal órgão, tão alheio que é àquilo que sente. Consegue, entretanto, enfiar o Júlio Dinis entre a marmita de feijoada envolvida em papel de jornal e as sandes de queijo e chourição. A mota arranca, faz a curva e a rua afasta-se. Seguem-se estradas envoltas em nevoeiro, ramos de pinho e eucalipto. Seguem-se as margens em declive sobre o rio que vai cheio. Os seus olhos fecham-se contra o vento. A noite volta a querer intrometer-se sob as pálpebras. Abre os olhos à força. Agarra-se melhor. Mas a noite é mais forte. O som da mota grita estridentemente a sua xácara de ódio às manhãs que cantam. A noite embala-se nos minutos que faltam para apear-se no pesadelo de um dia inteiro. O rio distende farrapos da noite sobre a superfíce suja do seu caudal. As árvores sucedem-se e a noite cai. Como o seu corpo pequeno, sob a manhã estridente, se abandonou ao rodopiar do chão em declive até ao rio. Não longe de um campo de centeio, até então sem papoilas.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:40
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1 comentário:
De Iolanda Aldrei a 15 de Agosto de 2008 às 06:10
Que bom chegar a esta casa e conhecer!

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