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Sexta-feira, 21 de Julho de 2006
O Jovem Törless


Fotograma do filme "O Jovem Törless", de Volker Schlöndorff, baseado no romance de Robert Musil

"O Jovem Törless" (Die Verwirrungen des Zöglings Törless), o romance de estreia de  Robert Musil (6 de Novembro de 1880, Klagenfurt, Áustria – 15 de Abril de 1942, Genebra, Suíça), em 1906 tem, essencialmente, a forma de um Bildunsroman, ou seja, um "romance de formação". Este género, nascido com Wilhelm Meisters Lehrjahre ("Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister") e que teve dignos representantes na "Montanha Mágica" de Thomas Mann ou no "Retrato do Artista enquanto Jovem" de James Joyce é constituído, igualmente, por retratos autobiográficos onde os autores reflectem sobre as influências que os formaram no que são ou foram de mais essencial. Estes percursos de aprendizagem e descoberta (ou exposição crua ao mistério) fazem caminho entre afectos, ódios, noções de beleza, religião, ocultismo, metafísica, filosofia e perpectivas políticas e éticas. "O Jovem Törless" centra-se na natureza do que chamamos alma e na ambiguidade das motivações humanas. Claro que tem uma forte carga psicológica e política que reflecte de forma crua e incómoda comportamentos que permeiam a história da humanidade. Mas, estranhamente, toma uma posição de aparente indiferença perante o sadismo humano e quase o justifica como um meio, entre tantos, de atingir a lucidez.

Tudo se passa num afamado colégio interno para rapazes. Aqueles alunos são, à partida, a futura elite política e cultural dos seus países. Um destes, Basini, é apanhado a roubar outro colega. Dois alunos, Beineberg e Reiting decidem tomar à sua conta o infractor. O primeiro tem o cérebro povoado de filosofias orientais mal enjorcadas por influência do seu pai, mas tais pensamentos (bem glosados em vários romances de formação, como nos de Herman Hesse) são decididamente insuficientes para Törless, que procura algo de mais claro e perceptível. As concepções tomadas de empréstimo de Beineberg e Reiting resultam apenas em sevícias físicas e sexuais que terminam em experiências psicológicas sobre Basini, cuja alma se torna apenas num objecto manipulável para defender teorias.

Törless sente em relação a tudo uma confusão que não consegue resolver pelo caminho da reflexão lógica. Procura respostas em Kant (sem as compreender) ou no professor de Matemática, depois de os números imaginários bailarem à sua frente, vindos do nada e do ilógico, mas tão logicamente adaptáveis à realidade. Insatisfeito com essas respostas que faltam, Törless segue um caminho paralelo ao dos seus colegas Beineberg e Reiting que termina num lampejo de sabedoria indiferente. É discutível se Törless é, no fim de tudo, mais humano que Beineberg e Reiting ou mais digno que estes. Mas nenhum percurso é definitivo, nem um romance tem a presunção de ser o Evangelho.

Mas a conclusão última de Törless sobre a Verdade é límpida:

"(...) há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O raciocínio que se move na superfície iluminada, que a qualquer instante pode ser conferido pelo fio da causalidade, não é necessariamente o pensamento vivo. (...) Um pensamento - mesmo que tenha passado pela nossa mente há muito tempo - só viverá no instante em que alguma coisa, que já não é o pensar, que já não é lógica, se acrescenta a ele, de modo que sentimos a sua verdade para além de qualquer justificação, como uma âncora que dilacera a carne viva e ensanguentada... Uma grande compreensão só se realiza pela metade no círculo de luz na nossa mente; a outra metade realiza-se no solo escuro do mais íntimo de nós e é, antes de mais nada, um estado de alma em cuja ponta extrema, como uma flor, pousa o pensamento."

(A citação é da tradução de João Filipe Ferreira)

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publicado por Manuel Anastácio às 16:16
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