Quinta-feira, 20 de Julho de 2006
Da varanda II


Da varanda espreitam-se outras varandas. Não sei quem são os vizinhos da bicicleta. Mas gosto deste detalhe e da mistura geometricamente coerente dos materiais. Na parede lateral, dois tipos de pastilha de vidro, material caduco que melhor cumpriria a sua função a revestir o fundo de uma piscina, quiçá formando desenhos de inspiração litoral ou submarina. Mas enquanto não fica a parede desdentada, a verticalidade cortada pelo lambril delimita o que vem debaixo do que de cima cai, como numa Tábua de Esmeralda monolítica nascida de um sonho de Arthur C. Clarke. Uma brancura porosa, prometendo escuridão pelas juntas já não serviria para um anúncio de detergente, mas espera receber o caruncho com dignidade. As pedras lisas do topo do muro recortam em ângulo recto, tornado agudo pelo meu olhar,  a popa de um barco parado sobre um caminho de cascalho a disfarçar a ribeira que desce os flancos da Universidade, desaparece sob uma rotunda e irrompe no jardim ao lado. Um passadiço de madeira, a relva rala, salpicada de trevo e o campo de jogos do condomínio expressam numa brincadeira de recortes uma superfície de relevos. Num detalhe parece resumir-se o conjunto. Como Carlos Argentino Daneri, o medíocre poeta que tinha o mundo condensado num ponto da cave, talvez neste recanto se resuma sem confusão o resto da paisagem, mas apenas porque este recanto promete outro olhar e tudo se condensa na promessa. É outro o olhar de um Ficus pumila (creio eu que é esse o nome da plantinha verde e amarela) que espreita também sobre a varanda. Apenas não se perde em descrições estéreis do que vê. Limita-se a ajeitar o seu olhar de acordo com o percurso do sol desde o meio da manhã até que este se esconde, algures na direcção da seta onde habita.
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publicado por Manuel Anastácio às 17:26
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2 comentários:
De Artur a 21 de Julho de 2006 às 13:37
Isso de espreitar janelas alheias soa um pouco a voyeurismo... ao menos a vizinha é jeitosa?
De Manuel Anastácio a 21 de Julho de 2006 às 15:48
Voyeurismo implica observar as pessoas. Eu limito-me a observar o Ficus pumila e a bicicleta. Nem faço a ideia se lá mora uma vizinha... Tal como disse, não conheço esses vizinhos... Mas, sim, há sempre algo de varanda indiscreta em cada varanda. Quem o negar, mente.

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