Quarta-feira, 19 de Julho de 2006
O Caminho de Damasco

Michelangelo Merisi (Caravaggio) "A Conversão de São Paulo", Capela Cerasi, Santa Maria del Popolo, Roma, Itália. cerca de 1601.

Já estava perto de Damasco. Saulo sacudiu a cabeça e cairam algumas gotas de suor sobre a poeira amarelada do chão. O jumento estava parado e os companheiros de viagem comentavam algo à sua frente. De facto, estava pouco interessado. O caminho amarelado estendia-se à sua frente, com uma cor um pouco mais clara que os montes salpicados de arbustos ralos e endurecidos pela secura. O caminho. Ondulava como uma serpente. Serpentes. Tinha uma especial aversão a serpentes e a tudo o rojasse a barriga no chão a coberto da protecção dada por escamas. Escamas. Lembrou-se de Estêvão. De aspecto um pouco asqueroso, diga-se de passagem. Por acaso, vira-o apenas uma vez. Mas o aspecto dele era igual a todos os que seguiam o mesmo Caminho. Se não tinham escamas, para lá andavam. À sua frente, os companheiros continuavam a discutir qualquer coisa. Um deles apontava para o céu. Prognósticos de trovoada, provavelmente. Olhou para o chão e notou um minúsculo ponto na poeira fofa e barrenta do chão, um pouco antes do limite da estrada, marcado por uma linha de ervas secas. Um ponto marcado pelo seu suor. Na verdade, o suor descia-lhe pelas faces como se fossem lágrimas. Não estava a chorar. Chorara muito na sua vida, com certeza - quem não chora?... Mas agora não lhe passaria pela cabeça que estivesse a chorar. O ar tinha algo de translúcido, é certo, como se lhe cobrissem os olhos com um véu líquido. Como quando chorava em criança, quando os adultos o deixavam no seu canto, indiferentes aos seus caprichos e desejos. Olhava em redor e via tudo como um fantasma de cores esborratadas. E o efeito era tão lindo que dava vontade de continuar a chorar. Ou a manter as lágrimas como um mar ondulando sobre a vista, antes que engrossassem sob a pálpebra inferior e se transformassem em lágrima propriamente dita, devolvendo a claridade ao olhar. Mas ultimamente, o horizonte deixara de ser uma linha, mas uma faixa. O que lhe distorcia a visão não era propriamente líquido. Era escamoso - ou reticulado, pelo menos. A paisagem, o céu ou o chão, apareciam divididos por um padrão difuso que persistia por mais que esfregasse os olhos. Lembrou-se de lhe terem dito que Estevão estava morto. Ele sorrira. Parecera uma óptima notícia. Ele mesmo procurou os outros. Entrou-lhes pela casa dentro. As mulheres aos berros, gritando por Deus e apelando à misericórdia de um outro Deus, supostamente com o mesmo nome. Ele mesmo ordenou que arrastassem para fora os escondidos sob as enxergas onde crianças tremiam de medo. De um medo feroz que ele bem compreendia. Compartilhava com essas crianças o mesmo medo. E por isso mesmo sabia que era nelas, de corpo frágil e quebradiço, que residia o maior perigo. Não nos corpos escanzelados daqueles velhos, venerados como anciãos, testemunhas de uma verdade confusa, arrastados até à luz do dia para serem entregues às trevas, recebidas como aos braços acolhedores da amada, desejada mas intimidante. Eram aquelas crianças indefesas que tornariam indefeso o seu futuro. Sabia-o bem. Duvidava agora da origem das gotas que lhe caiam pelo queixo. Olhou o céu. Viu apenas braços levantados a apontar um risco branco desfocado. Saulo viu-se repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu.

Caiu por terra.

E não ouviu nada.
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publicado por Manuel Anastácio às 14:30
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3 comentários:
De Maria Helena a 20 de Julho de 2006 às 18:48
Lindo, o texto.

Não ouviu.
Escutou.
De Manuel Anastácio a 20 de Julho de 2006 às 20:35
Subtil, a diferença entre ouvir e escutar. E diferente de ouvinte para ouvinte.
De Sizenando a 31 de Março de 2008 às 01:15
Ola

Muito boa esta narrativa da imprevista queda de Saulo,
Melhor ainda a narrativa de Paulo que se levanta um
Novo Homem o Grande Apóstolo Paulo que de perseguidor
Tornou-se um perseguido do Evangelho.

Tenham uma boa nova vida

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