Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013
Arbeit macht frei

Há dois dias escrevi no Facebook: “Há pessoas que estão fartas de ideias dos políticos. Querem ações. Será que se lhes derem um tiro nas trombas ficam satisfeitos? É uma ação...suponho que não gostem é da IDEIA…” Serviu-me este desabafo para compreender a minha solidão mental.


A ideia de que “é a trabalhar que se vai para a frente” está de tal modo inculcada na mente das pessoas, que qualquer tentativa para lhes abrir os olhos está condenada à partida. O trabalho dignifica o ser humano, se o trabalho for dignificante, perdoem-me a frase que poderia ter sido escrita pelos próprios soldados de La Palisse. Se me derem uma pá para escavar a minha própria sepultura e eu começar a cavar, estarei a trabalhar. Estarei a andar para a frente. Isso é desejável? Duvido. Eventualmente, será inevitável. E, das duas, uma. Ou me recuso a escavar e levo tanta porrada até ficar inconsciente, ou vou escavando devagar para prolongar a minha tortura. Num caso ou noutro, só tenho à frente a minha condição de condenado à morte, à humilhação e ao sofrimento.


Ideia genial foi a dos nazis quando escreveram à entrada dos seus “campos de trabalho” a famosa frase “Arbeit macht frei” - “o trabalho libertar-te-á”. O trabalho não libertaria ninguém que lá entrasse. A acção só apressaria a exterminação do “trabalhador” e daqueles que eram do seu afeto. Isso foi evidente, por exemplo, entre o grupo de judeus encarregados de falsificar a moeda dos aliados a favor do Reich. Atenuaram o seu dilema de colaboracionistas (mesmo que à força) com um constante boicote aos fins do trabalho que lhes foi destinado. Não foram heróis, mas esforçaram-se por não serem filhos da puta.


Hoje, são os próprios condenados a exigirem “trabalho” e “ação”, e menos blá blá por parte dessa coisa asquerosa que são os políticos. Ora, a política é discurso, é ideia (e só é asquerosa e mentirosa se for feita por gente mentirosa e asquerosa). E a ação, se não for comandada por ideias, estará sempre ao serviço de quem tem o poder e não ao serviço de quem trabalha. As coisas poderiam ser invertidas se quem tivesse o poder fossem os trabalhadores. Ora, isto não acontece porque os trabalhadores abdicam desse poder a favor da possibilidade de um dia serem eles os exploradores de outros milhares de almas esfomeadas por poder. Abdicam a favor de uma ideia que de tão mesquinha que é nem sequer é exteriorizada politicamente em discursos "repetivos".


O povo está farto de “ideias”, de “pensamento”, de “discursos repetitivos”, da “cassete dos comunistas”. Então, que trabalhem. Atuem. Quando o buraco estiver suficientemente fundo, os donos da arma de fogo terão muito prazer em satisfazer-lhes a vontade de ação. E o fim virá com uma pancada seca.


E seria muito bem feito. A natureza não se compadece dos fracos. E se o grupo dos “trabalhadores” é fraco, merece bem a morte sumária… Seria assim, mas os poderosos não querem matar ninguém. São demasiado requintados para isso. Preferem manter os espécimes minimamente saudáveis aptos para trabalhar. Crentes que, com o seu trabalho, um dia libertar-se-ão. Quando escravizarem os outros.


É bonito este mundo, não é?

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publicado por Manuel Anastácio às 21:29
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2 comentários:
De jrd a 12 de Outubro de 2013 às 18:08
Este mundo é bonito, quando visto de longe, i. é, do outro mundo...
De Laura a 20 de Novembro de 2013 às 10:51
No outro dia pensei o seguinte: se a nossa civilização desaparecesse da mesma forma que desapareceu a grega e da qual só temos alguns documentos, aqueles que viessem depois de nós, que "(n)os" encontrassem, poderiam pensar 'oh que maravilha seria viver no sítio x, com tantas regras, tão ordenado...'.
Pensamento pueril e utópico, é verdade. E pensamento de quem se está a adaptar a um sítio onde a ditadura económica impera e onde nós vamos fazendo o "nosso trabalhinho", ie, escavando a nossa sepultura.

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