Terça-feira, 9 de Julho de 2013
Enciclopédia Íntima: Pátria

Portugal, o país, nasceu de um puro desejo de poder. Não houve nele desígnios divinos ou um papel predestinado na história da Humanidade. Um rapaz quis ser rei, ou chefe de um bando de gente com força suficiente para se demarcar de outros com o mesmo desejo de dominação, e para isso lutou, matou, roubou. Impôs-se com a sua força e teve a sorte de os outros, por razões diversas, não terem conseguido impedi-lo de alcançar uma independência que não era mais que uma divisão entre senhores, em que o povo não foi tido nem achado. Depois, as lendas foram criando um sentimento de unidade. De Conquistador, Afonso Henriques passou a Libertador, coisa que nunca foi a não ser, talvez, de si mesmo, se descontarmos a ajuda que deu à libertação de alguns senhores do Norte, a um bispo e a algumas comunidades monásticas. Os primeiros a morrer nas batalhas que fundaram este país não lutavam por essa idealização tribal que é a Pátria, morreram porque a isso foram coagidos pela força ou porque tentaram a sua sorte. Mais tarde, sob a bandeira de uma propaganda política sustentada em histórias da carochinha, onde não faltaram milagres e aparições, a ideia de Pátria nasceu. Morrer como português, isto é, como cãozinho fiel a um dono imposto pela ordem da força e da mentira disfarçada de religião, passou a ser uma questão de honra, um livre trânsito para o panteão dos trouxas.


Talvez não seja assim tão simples. Nestas questões, os fautores da mentira são os primeiros a acreditar nela. Daí não faltarem nobres paspalhos elevados a heróis de um valor tão alto como as ilusões de glória e grandeza. Mera vaidade. Morte, apenas. Uma Pátria é um monte de ossos. Por respeito a essa vala de enganos e vidas desperdiçadas, em vez de missas, lápides e monumentos de bronze podia, ainda assim florescer a vida, o riso, a beleza compartilhada. Isso seria uma Pátria, e estaria disposto a morrer por ela. Por uma questão de amor.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:52
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6 comentários:
De gláucia lemos a 10 de Julho de 2013 às 00:52
Nunca tinha ouvido ou lido sobre o nascimento do pais chamado Portugal. Ou melhor, em alguma aula de Geografia lembro-me de ter escutado algo como Portugal tivera o nome de Portugália, por ter sido território pertencente a Galia, depois sendo abreviado para Portugal. Não me lembro com exatidão, algo assim... Mas refiro-me a uma narrativa da sua origem, por isso foi completamente novo o q acabei de ler sobre a formação de um Estado como decisão de uma pessoa q se resolveu a ser rei e nisso acabou por se tornar, lutando e vencendo como o mais forte q se impôs. muito mesmo interessante. Principalmente para quem sobre a sua propria pátria tem uma historia romântica de navegadores q encontram um território habitado por pessoas de origem desconhecida e de características físicas diferentes de tudo o q era conhecido até então. Assim são as origens, assim se formam os países, assim é a vida. Grande narrativa, meu caro escritor amigo e talentoso.
De Manuel Anastácio a 10 de Julho de 2013 às 01:03
Gália era na França, Gláucia. ;) Eu falarei do nome de Portugal, então, assim que puder.
De Gláucia Lemos a 10 de Julho de 2013 às 01:13
Sei q Galia é na França, mas tinha uma coisa a ver com Galia, a posse daquele território, só q eu era criança e isso já está confuso na minha cabeça. é só uma lembrança remota de um assunto q nunca mais foi revisto ou tratado. Estou curiosa pela origem do nome Portugal. irei ler assim q o escreva.
De André Koehne a 10 de Julho de 2013 às 03:27
Manuel...
Sem querer ser ufanista, penso diversamente... Portugal foi o primeiro "estado-nacional" da modernidade; a Escola de Sagres "sagrou e singrou" os mares, revelando ao Velho Mundo que havia mais mundo por aí...
Serviu de modelo e foi copiado. Expandiu-se para tão além, vencendo ante de tudo todos os medos ancestrais ao desconhecido, em aventuras mais épicas do que Camões jamais cantaria!
Cá vejo heróis, aos milhares, povoando, semeando - e trazendo bem longe algo que apenas o português soube nomear: saudade...
Mesmo no Japão há lá um toque luso, quando agradecem algo: arigatô - nosso "obrigado", que lá deixamos!
Uma terra tão pequena, mas de alma tão grande!
Sim, altos e baixos temo-los aos montes, desde Trás-os-Montes... Mas, quem não os tem?
A ganância individual jamais teria sucesso não fosse todo este afã por crescimento!
E, mesmo ainda guardando as dimensões de séculos atrás, guarda enorme riqueza...
A começar por minha filha, que atravessou o mar-oceano 'té Lisboa! Portanto, fale bem desta terra, seu moço! heee
Forte abraço.
De Manuel Anastácio a 10 de Julho de 2013 às 18:28
Eu falo bem. Portugal é, ainda assim, a terra que mais amo. Mas não deixa de ser uma criação mítica. Uma ilusão.
De jrd a 14 de Julho de 2013 às 19:55
Portugal: Diz a História que Afonso Henriques era apenas um filho de Egas Moniz e os portugueses, um povo que não se governava nem se deixava governar.
A História é por vezes mentirosa outras não...


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