Segunda-feira, 17 de Julho de 2006
Domine, quo vadis?

"Domine, quo vadis?" ("Senhor, onde vais?"), de  Annibale Carracci (1560 - 1609)

Um dia, pensei que cada partícula mínima do Universo  era apenas uma, viajando através do tempo, unindo numa urdidura tetra-ou-penta-ou-mais-dimensional cada ponto do  espaço-tempo. Assim, tudo se resumiria a um único leptão percorrendo caminhos predefinidos. A ponta dos meus dedos neste momento em que escrevo poderia, assim, ligar directamente à narina de um dinossauro pronto a atacar uma presa, que estaria por seu lado ligada a um átomo de carvão em um qualquer lugar do nosso ou doutro planeta, ligando por sua vez a outro átomo em fusão no núcleo de uma estrela, ligando, por sua vez, como em atalhos incógnitos, a uma flutuação do vazio. No vácuo, o nada está constantemente a desdobrar-se em pares de partículas materiais que logo se anulam - é isso que chamamos de flutuações do vazio. Creio que não é inverosímil a possibilidade de tais partículas efémeras, constituintes do nada,  serem intersecções entre tempos e espaços diferentes. Claro que a complexidade de tal urdidura seria simplesmente incomportável para o intelecto humano - mas imaginemos que conseguíamos interceptar ou desviar a partícula do seu percurso. Creio que, sem o sabermos, poderíamos até anular a nossa acção desviante, modificando por completo o passado e o futuro, ao alterarmos toda a urdidura do Universo. Poderíamos criar um mundo melhor, pior ou simplesmente diferente. O interessante dessa nossa acção é que o mundo anterior (passado e futuro juntos) deixaria por completo de existir, como um mecanismo em que a mudança de uma peça alterasse todo o conjunto. O cientista, ao obrigar a partícula a seguir outro caminho que não o predefinido pela sua vontade (a vontade da partícula poderia ser identificada como Deus-ele-mesmo) poderia, simplesmente, criar automaticamente um Universo sem Ciência e sem cientistas - incluindo ele mesmo. Mas tudo sem hecatombes e sem catástrofes. Tudo se passaria simultaneamente - aliás, restando apenas a partícula e o seu caminho  de lagarta, tudo seria simultâneo porque tudo estaria unido por uma uma partícula em trânsito a uma velocidade infinita, através de todas as dimensões que nos interessam e onde se desenrola o nosso campo de acção ou contemplação. Não seria concebível o universo como um jardim de caminhos que se bifurcam porque uma decisão, nossa, coagindo a partícula a seguir outro caminho, ou da própria partícula, decidindo seguir por outro, teria apenas como resultado imediato um outro conjunto, uma outra consciência, sem qualquer registo das realidades anteriores. O Todo seria apenas um bloco coerente desenhado por uma única linha onde até as descontinuidades do seu traço seriam apenas aparentes, afundando num vazio para emergir noutro. Dotemos a partícula de vontade própria, contorcendo-se à procura do Universo ideal, com vida mas sem sofrimento, ou com sofrimento apenas na conta certa... Pelo menos, desculparíamos a Deus o facto de ainda estar a aprender qual o caminho a seguir.
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publicado por Manuel Anastácio às 13:21
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10 comentários:
De Filipe a 17 de Julho de 2006 às 21:56
Complexo, belo...
Mas continuas a olhar fixo num referencial, o teu. Para o tempo ser relativo têm de existir pelo menos dois referenciais em conjunção.
E até hoje só ainda conseguimos ver o do nosso presente que será futuro, que será passado.
Muitas vezes penso que a vontade de conhecer o futuro e viajar ao passado advém do facto de vivermos o presente, ou... de não o vivermos.
Deus criou uma partícula, dotou-a de vontade própria e deixou-a livre de decidir o caminho, l-i-v-r-e para decidir. Até rezam certas crónicas que lhe criou um paraíso num planeta chamado Terra. Mas juntaram-se muitas dessas partículas, chocaram entre si, partiram e partem ainda muito do que está à sua volta, e elegeram uma variável importante para gerir o seu percurso, a entropia, e assim a ordem tenderá a demorar a estabelecer.
De Manuel Anastácio a 17 de Julho de 2006 às 23:04
Pois, mas a minha visão, nesta hipótese, pelo menos, não é relativística. É absoluta. Sem outro referencial que não o meu, julgando eu que o movimento da partícula, pelo menos agora, não é decidido senão pela minha consciência... Mas, ainda assim, com uma certa necessidade de algumas correcções... :)
De Manuel Anastácio a 17 de Julho de 2006 às 23:08
Mas há uma frase intrigante no teu comentário: "será passado"... Como é que o passado se conjuga no futuro - já pensaste nisso?
De Artur a 18 de Julho de 2006 às 15:17
É uma ideia fascinante, especialmente se factorizarmos a aplicação das velocidades translumínicas às partículas. Quem sabe, as barreiras entre o tempo se dissolveriam.
De Manuel Anastácio a 18 de Julho de 2006 às 15:53
Talvez porque o tempo, como algo em trânsito, deixaria de existir tal como o concebemos. Mas repara que esta minha fantasia não permitiria, por exemplo, uma viagem no tempo, assim como não é permitida a migração de um átomo de uma região de um diamante para outra região sem comprometer a integridade desse diamante. Nesta concepção, o Universo, incluindo passado e futuro não seria mais que uma infinita possibilidade de caminhos predefinidos, mas que nunca poderiam coexistir - o que se tem de aceitar, de certa forma, ao concebermos viagens no tempo tal como nos são servidas pela ficção científica corrente.
De Artur a 19 de Julho de 2006 às 12:04
Ah, já me esquecia: uma ideia algo semelhante, mas mais high tech, pode ser lida no Picoverso</i> de Robert Metzger, um daqueles cientistas que também se dedica a escrever (boa) FC nas horas vagas. (http://intergalacticrobot.blogspot.com/2005/12/picoverso_26.html)
De Manuel Anastácio a 19 de Julho de 2006 às 14:21
Pelo que pude depreender das recensões e sinopses, incluindo a tua, existem pontos de contacto, mas o fundamento é diferente. De facto, a minha proposta é absolutamente anti-narrativa - os universos suceder-se-iam excluindo-se uns aos outros consoante a "vontade" da "partícula", mas sem qualquer tipo de relação causa-efeito entre um universo e o seguinte. Só se imaginássemos a partícula com memória e consciência é que se poderia esboçar um romance - mas creio que, ainda assim, seria um tanto ao quanto abstracto...
De Manuel Anastácio a 19 de Julho de 2006 às 14:22
Demasiado abstracto, para dizer a verdade...
De Filipe a 18 de Julho de 2006 às 20:53
Se aceitares a viagem no tempo, como defines presente?
Vais viver o passado como presente ou como passado? E o futuro? A viagem ao passado dar-te-ia uma vivência nova, ou seja em termos de concepção de tempo que temos, se viajasses ao passado, poderias dizer que o teu passado era o futuro do teu presente (no ponto anterior à viagem).
Existe um principio em Física interessante, chama-se princípio da conservação e penso que as viagens no tempo que a ficção científica nos vende não o têm muito em conta.
De Manuel Anastácio a 18 de Julho de 2006 às 20:58
Com certeza. A minha fantasia sobre o tempo não permite, de facto, qualquer viagem no tempo (ou até permitiria, expandindo-a a outras dimensões, mas apenas nessa condição). Além de que não explica o que seria, então, a consciência do presente. Creio que a noção de presente é algo que está mais relacionado com a consciência individual do que com o próprio Tempo.

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