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Terça-feira, 13 de Setembro de 2005
Sinédoques e metonímias

                                      Pintura

Passo a citar a citação de outra citação, ao jeito de Paul Auster (ou quiçá, ao jeito de Edgar Allan Poe no Arthur Gordon Pym ou de Cervantes, no Dom Quixote): «A metonímia é simples variante da sinédoque; são denominações essas de distinção tão subtil que autores há que dão como exemplo de metonímia aquilo mesmo que outros subordinam à sinédoque, e tratadistas há que mal mencionam essas denominações de tropos semânticos. [...] Se na sinédoque se emprega o nome de uma coisa em lugar do nome de outra nela compreendida, na metonímia a palavra é empregada em lugar de outra que a sugere, ou seja, em vez de uma palavra emprega-se outra com a qual tenha qualquer relação por dependência de ideia: damasco = tecido de seda com flores ou espécie de abrunho, ambas provenientes de Damasco [...]; louro, por glória, prémio; cãs, por velhice; Fulano é um bom garfo [...].» (aproveito para aplaudir a sobrevivência do Ciberdúvidas, graças à Vodafone e aos CTT).

Folheando, agora, a Praça da Canção de Manuel Alegre, encontro aquele poema em prosa do início - as rosas vermelhas :

"(...) todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura. (...)

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe! (...)

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida? (...)

Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:

- Mãe!

A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.

No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."

Era esta pétala uma metonímia? Podem os objectos tomar o lugar da poesia? Não estou a falar das artes plásticas - mas os objectos do dia a dia... Uma tesoura poderá significar a morte? Um frasco pode significar o corpo? A tinta poderá significar a alma? Claro que sim. Nem tenho dúvidas.

E imagino um poema feito de objectos. Uma mesa sobre a qual os dispomos: um a um, numa ordem cujo significado só NÓS conhecemos. E poderiam existir sonetos, odes, elegias...

Os elefantes, quando descobrem os ossos dos seus entes queridos (sim, porque os elefantes têm entes queridos), pegam neles com a tromba e gritam de desespero. Choram de uma forma que muita gente julga exclusiva da pouca sensibilidade humana. Nesse caso, são os ossos uma sinédoque do amigo falecido. No nosso caso, julgamos os ossos apenas a metonímia da morte. Temos-lhe nojo porque não são parte de quem amámos, mas o sinal asqueroso da dolorosa separação. Não nos torna melhores que os elefantes, esta interpretação dada a tais objectos. Apenas nos torna leitores diferentes de um mesmo texto.

Ignace J. Gelb, em "The History of Writing", conta que no Turquestão oriental uma jovem enviou ao seu amado algumas folhas de chá, uma palha, um morango maduro, um damasco seco, um pedaço de carvão, uma flor, um torrão de açúcar, um seixo, uma pena de falcão e uma noz. É difícil, para nós, ignorantes, perceber tal pansemiose manuelina. Mas, ali, as metonímias misturam-se, contorcem-se...

"A dor já nem me permite engolir o chá, a palidez da palha espalha-se no meu rosto, ainda que o sangue me suba às faces quando penso em ti. Ardo de desejo como um carvão por causa da beleza que desabrocha no teu corpo e na doçura dos teus gestos. É de pedra, o teu coração? Quero voar até ti agora mesmo, eu, que sou como uma noz nas tuas mãos."

Dedico este post à Cristiana, que há dois anos atrás estava também sem dormir a esta hora...

E a única palavra que pode resumir tudo: Amo-te.

Depois penso numa metonímia para tal significado.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 01:06
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1 comentário:
De Cristiana a 13 de Setembro de 2005 às 22:00
E não seriam precisas metonímias nem sinédoques, podias até apagar todas as palavras e ainda assim sobrariam verdades a confirmá-lo, ainda assim eu sabê-lo-ia como se algures dentro do meu peito ou da minha alma o tivessem gravado. Retribuo-te a única palavra que pode resumir tudo. Amo-te.

Dizer de sua justiça

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