Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
LXX

Enquanto espero que outros resolvam problemas que eu não sei resolver, e como no Espaço Guimarães não há livraria que resista à escassez de leitores, entro no Jumbo e dirijo-me à banca da literatura de hipermercado. Depois das capas sexy dos livros que enchem os sonhos de quem não se consegue excitar com Dante Alighieri ou Marguerite Duras, encontro uma fila extensa de livros sobre... Economia. Eu sou do tempo em que a secção de Economia era a primeira parte do jornal a ir para o lixo (e até tinha cor diferente, para facilitar a separação) para que a leitura não pesasse nas mãos com as estéreis preleções dos senhores que nos enforcaram, talvez porque tenhamos  lançado demasiadas páginas para a lixeira da ignorância e do eu quero lá saber das tendências da bolsa. Muitos livros de Economia. E, tirando um de Paul Krugman, tudo de endoutrinação política. Um escaparate de propaganda da mais abjeta sabujice ao poder dos Mercados e da ladroíce. João César das Neves, Camelo, perdão, Camilo Lourenço entre outras valentes bestas. Costumo gostar do cheiro a fresco dos livros, mas mal abri o do Camelo, além de me sentir agredido visualmente pelo péssimo grafismo em folhas envernizadas, veio-me uma náusea física que não se podia imputar exclusivamente ao nojo que tenho desta espécie de molusco acéfalo que, para mal dos meus pecados, ouço logo de manhã no Canal 1. Aquela tinta deve cheirar tão bem quanto os sovacos do autor, não que os tenha cheirado alguma vez, mas não preciso de partir uma perna para saber que dói. Mas, entre os outros autores encontro bestas bem piores que o Camelo, como um tal de Henrique Raposo, autor de explícitos panegíricos à ditadura de Salazar e, por inferência, de todas as ditaduras (desde que fascistas, que as comunistas são sempre más). O belo disto tudo, é a forma como estes interessantes pensadores se gostam de apresentar: como politicamente incorretos, como se ser politicamente incorreto fosse louvável... em política. Era tempo de aprenderem que ser politicamente incorreto está bem para artistas, poetas, filósofos, humoristas... mas políticos? oh meus amigos, não havia nechechidade... os políticos existem para melhorar a vida das pessoas e para as respeitarem, e para isso têm de ser politicamente corretos. Não falo de serem educados, cá para mim, podem dizer os palavrões que quiserem. Vou dar um exemplo prático: se fossem para a puta que vos pariu, o país ficava mais rico. Fui muito politicamente correto, apesar de ter dito palavrões, mas se quiserem, posso ir-vos às trombas, que é uma atitude politicamente incorreta e tão representativa das nobres e tradicionais virtudes do excelente povo português em que o vosso nacionalismo mercantilista grunho e bacoco deposita esperanças para salvar as finanças do estado. Marialva virtude essa, caída em decadência por causa da democracia e do estado social (ah, engano-me: a ditadura é que criou o estado social, diz o Raposo). E eu preocupo-me porquê, Deus meu? Quem se mete na boca do lobo é mesmo para sentir a firmeza dos caninos. Deixem-me ser politicamente incorreto, eu que sou apenas político por razões de cidadania e não de carreira: o povo português merece viver eternamente em ditadura. É a sua condição natural, ser escravizado e, masoquista ou devoto, beijar as mãos de quem o açoita. Obladi obladá...

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publicado por Manuel Anastácio às 22:07
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2 comentários:
De jrd a 3 de Abril de 2013 às 23:57
Nessa galeria de personagens de horror falta o nazi serôdio Alberto Gonçalves.
Gostei do texto, mas vou pôr um colírio porque há nomes que me causam alergia quando os leio e, neste caso, ainda agravei a situação.
De Manuel Anastácio a 4 de Abril de 2013 às 01:07
Para fazer uma galeria de horrores não faltam candidatos a estrelas principais, infelizmente.

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