Domingo, 31 de Março de 2013
LXVII
A vontade de partilhar é um mistério que transcende as inevitabilidades funcionais e materiais da natureza, mas não é fruto do ensino nem da educação. Ninguém, ao ver o famoso vídeo da cadela Lilica, que acompanha estas palavras, passará a partilhar de forma ativa se não tiver já esse desejo. Partilhar de forma ativa é dispor de menos recursos para a própria sobrevivência para ajudar a sobrevivência de outros. A partilha ativa implica pôr em causa a própria qualidade de vida ou, em caso extremo, a própria vida, consistindo, nesse caso, uma forma de heroismo. A partilha passiva ocorre quando a disponibilização de recursos não põe em causa a qualidade de vida, podendo, pelo contrário, aumentá-la. A maior parte dos atos de caridade dos senhores do mundo, as festas de beneficiência, as grandes doações não são formas de partilha, mas formas de conquista de poder. Poder social, de influência sobre aqueles que se sentem em dívida para com a magnanimidade do senhor. Pode haver alguma satisfação emocional no ato que pode ser confundida com bondade real. O poderoso que chora com uma criança que morre de fome ou de doença está deveras emocionado (não necessita de fingir) mas, em princípio, não alterará em nada o esquema funcional que sustenta a sua fortuna, esquema esse que produzirá mais seres humanos em sofrimento, incluindo crianças. A verdadeira vontade de partilhar não é contagiosa. O exemplo não ensina a partilha ativa. Ensina, quando muito, a partilha passiva dos restos ou a partilha estratégica, tendo em mira a posterior exploração daquele que é momentaneamente beneficiado. Mas há casos reais de partilha ativa, seja em relação a um grupo restrito de seres vivos (como a mãe que se sacrifica pelos filhos), seja por um grupo alargado, que se pode estender a outras espécies, como acontece no caso de Lilica. Estes casos de amor e abnegação não são fruto do espírito, mas algo intrínseco aos indivíduos que os protagonizam. Uma sociedade solidária não pode assentar neste tipo de comportamento por uma simples razão: não é justo. Não é justo que aqueles que nascem com uma dose de bondade e dignidade maior que os outros se sacrifique ou, mesmo, ponha em causa a sua vida. É um desperdício de um recurso natural não passível de prospeção. É um disparate.


publicado por Manuel Anastácio às 17:55
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4 comentários:
De Otília Martel a 31 de Março de 2013 às 19:07
... uma grande lição de vida!

O meu Avô costumava dizer que para entender o mundo teríamos que ver a atitude dos animais perante o mundo.
O teu texto está excelente e se me permites vou partilhá-lo no FB e ao vídeo também!

Grata por partilhares.

Um abraço e continuação de feliz Domingo de Páscoa.
De gláucia lemos a 31 de Março de 2013 às 20:38
eu conhecia esta história, mas não tinha visto o vídeo. Acho q a ciência ainda não conhece tudo da capacidade do cérebro dos animais, muto menos dos seus sentimentos. Esta cadela não é guiada só pelos instintos como se diz dos animais, do contrário, tendo satisfeita a sua necessidade de alimento (instinto) iria embora. E um sentimento em relação aos outros animais q convivem no ferro velho, q a preocupa e a leva a carregar a comida q sobra para alimentá-los também. Ela é melhor de q algumas pessoas q cultivam uma egoísta indiferença em relação ao próximo. desconfio de q essa cadelinha tenha um espírito como nós, humanos.
De jrd a 31 de Março de 2013 às 20:44
Os cães são animais como nós, só que mais humanos...
:)
De Manuel Anastácio a 31 de Março de 2013 às 20:48
Há de tudo, cá como lá...

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