Quinta-feira, 28 de Março de 2013
LXII

Merkel não é Hitler. Mas não é muito melhor. Os alemães sentem-se injustiçados, coitadinhos, porque alguns povos parecem começar a apontar os dedos cruéis da vingança em direção ao centro da injustiça. Sem dúvida que o projeto europeu estará morto dentro em pouco se nada mudar. Os povos sacrificados, à deriva, assustados, procuram a sombra reconfortante da direita, com as suas certezas da treta e os seus credos económicos com provas dadas na disseminação da miséria. Caídos na armadilha, apercebem-se de que algo está mal, mas, curiosamente, nunca se apercebem da sua própria responsabilidade. Merkel não é Hitler. Hitler conquistou o seu poder com o apoio dos alemães. Merkel está a conquistar um poder ainda maior graças ao apoio, não só dos alemães, mas dos povos que escolhem a sombra de Mordor. A democracia refém dos mercados está a tornar-se num império germânico de extensão e poder que os alemães jamais poderiam imaginar no final da segunda guerra mundial. Os países de história católica reduzem-se, pela sua própria escolha, a meros servos de um germanismo que há muito deixou os deuses enterrar os deuses. O neocolonialismo germânico tem a curiosa caraterística de serem os povos em regime de protetorado a implorarem a intervenção dos colonizadores. Mais curioso, a percepção das pessoas destes países sob o jugo germânico (a que se junta agora o Chipre) é clarividente o suficiente para que saibam que estão a ser governados por uma marrã velha e não por governos que respeitem a sua autodeterminação de povos independentes. Porém, com a subjugação destes povos vencidos e fracos há a demonstração de algo que Hitler sempre desejou e que deve reconfortar-lhe as cinzas envenenadas. Os alemães são, finalmente, a raça de vencedores que esmaga a Europa. Foi preciso o holocausto do orgulho alemão, foi precisa uma derrota épica para abrir caminho a uma vitória admirável conseguida sem movimentações militares. Uma vitória dada de bandeja, com a passividade de cordeirinhos que dão docemente o pescoço ao cutelo. Na Grande Guerra, os judeus eram convocados pelos alemães para a sua morte e a maioria comparecia, dócil e bem mandada. Os alemães só aprenderam que podem fazer agora o mesmo, não com famílias assustadas, mas com nações apavoradas. Admirável. É a palavra que me ocorre sempre que ouço uma ópera de Wagner bem esgalhada. Admirável.

publicado por Manuel Anastácio às 18:52
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2 comentários:
De Paulo a 29 de Março de 2013 às 03:59
Provavelmente não conheces esta história da Helena:

http:/ conversa2.blogspot.pt /2011/01/wagner-em-buchenwald.html

Pelas razões óbvias, lembrei-me dela.
De Manuel Anastácio a 29 de Março de 2013 às 16:04
Não, não conhecia. Obrigado pelo link. Abraço.

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