Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012
LIII

Temos de viver com menos, diz a senhora que lava o rabo, à moda indiana, com água, para não gastar papel. Mamã, mamã, está uma senhora na net a dizer que és salazarenga e que queres que as pessoas passem fome que é para teres mais clientes. Clientes? Olha a pindérica. Uns pés rapaditos, coitadinhos, ali todos enfezados - ai, ai, tanto que eu gosto dos meus pobrezinhos, que hão de rogar por mim lá no céu, onde estarão bem acima de mim, coitadinha de mim... terá de viver com menos no céu mamã? Sim, filho, é o que acontece a quem vive acima das suas possibilidades. Há quem queira atravessar pelo cu de uma agulha com um camelo, mas não é possível, temos de nos resignar aos limites impostos por Deus Nosso Senhor... Não, mamã? O óvulo fecundado de um camelo é já um camelo, é o que diz a minha catequista.

 

A catequista namora o padre que joga na bolsa e é irmão de outro que é cego e come em casa dos paroquianos. Vive da pobreza que impõe a si, sem querer impô-la aos outros. E tu, minha menina, que fazes? Estudo. Estudas o quê? Matemática? Como é que sabe? Por causa da forma como a caneta sobe e desce sobre o papel. Ouço traços curtos mas retos. Se fosse língua materna, ouviria sons mais redondos e contínuos. É uma música diferente. A freira que o acompanha leva-o para a lata velha que, com sorte, não falhará a meio da planície alentejana a caminho da vila onde espera uma criança ferida, por dentro, pelos olhares perfurantes dos outros miúdos. Espera, junto à coleção da Naxos da freira. Ouve Gorecki. A freira e o padre não tiveram sorte, o carro parou a vinte sete quilómetros da aldeia mais próxima.

 

Fome. Sinfonia das canções esfomeadas. Para o Julio Iglesias era o coração, para Freud, os genitais, para Marx, o estômago. Todos judeus. Iglesias é nome judeu? Judeu por parte da mãe. O autor é antissemita porque substituiu Cristo por Julio Iglesias. A mãe da criança que ouve Gorecki é antissemita porque os judeus mataram o Senhor, que era muito bom e que era primo de João Batista que andava com umas  peles de ovelhas e andava atrás das moças, mas dava a vida pelo Julio Iglesias dela, outra louça. Muito além do Marco Paulo. Sempre que brilha o sol, naquela praia, sinto o teu corpo vibrar, dentro de mim... É uma canção gay, como se vê. Dizem que o Reininho é que inaugurou a música gay com o Dunas, que é um camelo, com duas bossas e muito pelo. Tolice. Areias, era o nome do camelo, e quem cantava era a dos queijinhos frescos. Fome. Brucelose. Ana Faria, isso.

publicado por Manuel Anastácio às 00:14
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3 comentários:
De glaucia lemos a 9 de Novembro de 2012 às 02:06
Este é um dos seus textos mais bonitos e atraentes literariamente. A espontaneidade com que o texto desponta em 3 tópicos que se correlacionam pelo estilo do autor, reúne-os descomprometidamente . Tem alguma coisa do estilo à Clarice Lispector , às vezes. Sem favor, agradou bastante a meu gosto por estas coisas muito espontâneas, ao sabor da inspiração do momento.
De Menina Marota a 9 de Novembro de 2012 às 12:04
Li e reli o texto e a ironia nele subjacente fez-me rir!
Grata por ele.
Um abraço
De Manuel Anastácio a 9 de Novembro de 2012 às 12:30
Confesso que não esperava uma recepção tão entusiasta de um texto escrito em estilo tão caótico. Pensei começar um romance assim, mas pensei que os leitores se cansariam facilmente. talvez me engane.

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