Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a gralha

Harrison Weir, John Tenniel, Ernest Griset, et.al.



Andava a gralha a cirandar
p’los campos entre rebanhos
quando uma águia, do ar,
caindo sobre um dos anhos,
capturou-o com as garras,
e sem esforços tamanhos
numa ascensão sem amarras,
levou o manso cordeiro
em direção às bocarras
e ao bico carniceiro
das suas crias famintas.
Do alto do seu poleiro,
com vaidade sem meias tintas,
achou-se a gralha capaz
de servir-se das mesmas fintas.
De um borrego põe-se atrás
e agarra-o no cachaço,
fazendo o que águia faz,
sem ao siso dar espaço
para impor a sensatez.
Com os pés num embaraço,
de garras sem robustez
mais e mais se encravava
na lã dos flancos da rês.
O pastor que ali andava
achou graça àquela cena
em que a gralha se humilhava.
Capturou-a, sem ter pena
do bicho desenganado.
Ao cativeiro a condena,
e mal a casa chegado
ouve os filhos perguntar,
do pássaro desgraçado,
como se vinha a chamar.
“Uma gralha, penso eu...
Mas posso estar a errar:
vendo ao que se atreveu,
pensa, com toda a certeza,
ser uma águia do céu!”
Por aí muita esperteza
segue a mesma triste sina
ao julgar que é destreza
a estupidez cabotina.


(versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 00:51
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