Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a raposa

Harrison Weir, 1867



A águia, de alto semblante,
de uma raposa vizinha,
acordo desconcertante
de paz, com ela mantinha.
Debaixo de uma giesta
vivia a inocentinha,
que ao olhar da águia presta
a sua novel ninhada.
E atento era o olhar desta.
Mal a ocasião foi dada,
atirou-se às pobres crias,
devoradas à bicada
num festim de carnes frias
p´ra seus esfomeados filhos.
A raposa, nestes dias,
pisando os doridos trilhos
do luto, rezou a Deus
angustiados estribilhos
pela vingança dos seus.
Mas de Deus só a ausência
no abismo do adeus.
Movida pela urgência
de satisfazer o ódio
e a sua impaciência,
juntou lenha entorno ao pódio,
alta árvore inacessível,
onde fora o episódio
de crueza inconcebível
que a levara à loucura.
Acendeu o combustível
com as chamas da agrura
e esperou sem piedade
que os objetos de ternura,
tornados em crueldade,
ali tombassem assados.
E assim foi, na verdade.
Mais pela dor devorados
que pela fome da pobre.
Senhores de altos costados
de seleta casta nobre,
que julgais tudo poder,
o posto que vos encobre
pode-se bem abater.


(versão de Manuel Anastácio)

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publicado por Manuel Anastácio às 01:28
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