Sábado, 3 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: o burro e o cãozinho

De cane et asino, Francis Barlow, 1687

 

Certo dia, a um fazendeiro,

dono de um burro escorreito,

em visita, em que era useiro,

ao jumento, seu eleito,

deu-lhe p’ra levar um cão

de colo junto ao seu peito.

O canito, folgazão,

lambia-lhe, doido, a cara,

pedindo-lhe uma ração

com que o burro não sonhara

em momento algum da vida.

Vendo tal ternura rara,

nunca a ele despendida,

sentiu subir-lhe às entranhas

uma inveja desmedida.

Pensou, pois, em artimanhas

que lhe pudessem valer

do dono graças tamanhas.

Pensou então em fazer

Ao amo o que o cão fazia.

Dispôs-se para o lamber

de igual modo, nesse dia.

Assim pensou, assim fez

o que o ciúme pedia

e foi às duas por três

que lhe quis subir p’ra cima.

E como cabra-montês,

ao proprietário se arrima

com enorme estardalhaço.

Se de início bem se anima

a valente e grosso abraço,

vira o vento, vai de viagem

com pancadas no cachaço

dadas pela criadagem.

Grita o dono, zurra o burro.

Correu mal a homenagem.

Leva no focinho um murro

e fica de cara à banda.

Mesmo que isto cheire a esturro,

a lição não é nefanda

e acontece frequentemente.

O amo quer, pode e manda,

e a lei assim consente.

Quem jumento assim nasceu,

Por muito que se atormente

só o jugo terá, de seu.

 

versão de Manuel Anastácio

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publicado por Manuel Anastácio às 03:07
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