Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012
LII

Tens mãos de pianista. Disse ela. Mas eu tenho olhos na cara. E dedos grossos, ossudos, como se as falanges fossem is maiúsculos com serifa. São isto mãos de pianista? Mãos que ainda guardam as memórias gratas do enxadão, a cavar no Estreitinho, como quem vai a caminho de Sobral Basto pela Serafina, e que guardam ainda a mais áspera memória dos baldes de argamassa e tábuas sujas de cimento em prédios que hoje devem estar podres de salitre e solidão. Tens mãos de pianista. E eu, que julgava que tinha mãos de servente ou de cavador à jorna, julguei que as minhas mãos, na altura suavizadas pelo papel das bibliotecas, excepto na junção da falanginha com a falangeta do anelar direito, onde a caneta ainda me marca com uma doce deformação, passavam doravante a serem anexos nobres de um corpo vulgar. Hoje sei que as mãos do servente e do cavador são tão nobres e belas como as do pianista, embora as primeiras sejam anónimas e não provoquem arroubos de transcendência a quem não é por elas afagadas com a volúpia do desejo partilhado. Tens mãos de pianista. Estas mãos são mudas. O giz continua a esculpir aquilo que o indicador económico da época do Cavaco não chegou a fazer completamente ao seu relevo de queratina acumulada em depósitos secos. São mudas, como é mudo o bloco de mármore ou o papel. As minhas mãos tocaram as mais belas coisas do mundo e, mudas, já disseram "não te largo" e "estou aqui". Ásperas. Duras. Nobres. Tocaram as coisas mais belas do mundo. Talvez sim. Talvez sejam de pianista.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:26
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