Terça-feira, 11 de Julho de 2006
Onde está a Arte?

Multidão perante a Mona Lisa - foto por Totya, em GFDL e Creative Commons

A arte anda à solta na rede, diz o Artur. A rede. O que é a rede? Por que só na rede? E fora da rede? E quem não tem rede, não tem arte? E quem não saiba que existe uma coisa chamada arte sobre a qual se teoriza? Esses criam também arte. Fazem um risco no chão e esse risco torna-se intemporal - não o risco em si, mas o acto de riscar e, depois de ser contemplado. É isso que é viciante - riscar vez após vez, à procura do risco perfeito. Comparar com outros. Pensar no risco. Riscar o risco que não nos risca nada na tábua lisa das emoções tranquilas. Teorizar sobre o risco também pode ser arte porque faz parte da fruição da própria arte, mas não a deveria substituir. Porque é que me sinto atraído por este risco? Por que razão tenho vontade de chorar só de o contemplar?

Porque é que ninguém vem ver o meu risco? Porque é que o mostrei ao meu amigo e ele nada disse e seguiu em frente? Ou riu-se na minha cara, porque a minha decepção é mais interessante que o meu risco?...

Essas questões inquietam-me.

As minhas reflexões não são arte.

Não pretendem ser.

Nem filosofia, sequer. São apenas reflexões.

Diz o Artur: será a Arte a  tentativa de capturar o fugaz e o efémero, tentando imortalizar um momento no tempo?



Não sei Artur. Não sei se é. Nunca tive a presunção de o saber. Sei apenas que uma fotografia impressionista captada num momento em que a luz, o vento e a maré baixa se conjugam só foi possível porque tinhas uma máquina fotográfica na mão e um olhar treinado para distinguir o belo no acaso. E aqueles que não têm máquina fotográfica porque só têm um pau com que riscar o chão? E aqueles que verão o belo noutros padrões que não esses, porque associarão esses apenas ao momento em que põem os pés na água para mais um dia de trabalho extenuante? E aqueles que querem imortalizar momentos (vã presunção para todos - seja o tipo do risco, seja o Picasso) esquecem-se que não é o momento que é perpetuado. Só uma coisa se perpetua: o olhar, enquanto houver olhos. Olhares sempre diferentes e emoções sempre diferentes - em intensidade e em qualidade. Não há intemporalidade alguma numa fotografia nem no objecto fotografado. Está na rede, sim, claro. Na rua, com certeza. Mas, acima de tudo, no íntimo de quem contempla.

E, Artur, não me interessam, ao contrário do que depreendo no teu artigo, os significados mais profundos da arte. Não sou linguista. Nem espeleólogo.

Não me interessam quaisquer  ínfimas variações sobre o  relativismo das opiniões sobre sensações. Aliás, não sei sequer ao que te referes. O que eu procuro e que me inquieta é apenas compreender o que sente o Outro quando se emociona com o Júlio Iglésias mas adormece de tédio a ouvir o Réquiem de Mozart. Não me interessa o relativismo, ao contrário do que dizes, mas o Absoluto - o que nos une perante tamanha diferença... Mas andamos tão anestesiados pelas filosofias orientais que cremos que temos tudo no Eu e que o Outro é apenas um acidente na paisagem sensível. Por isso, para quê pensar no Outro, se tenho tudo em mim?

Quanto aos imponderáveis ocultos... Estão sempre presentes. E, por vezes, conseguimos vê-los, fugazes, num risco no chão. Ou na superfície trémula da maré baixa. Constantes de equilíbro que nunca entenderemos. Constantes - tal como o nome indica. Intemporais, porque independentes de quem os experimenta. Mas infinitamente efémeros porque existem apenas na mente do mais efémero dos seres - o ser humano, porque está consciente da sua condição a prazo. E que, assim, tenta eternizar na pedra, no papel ou em unidades de informação aquilo que também morrerá mais cedo ou mais tarde.

Infelizmente, a Arte é tão mortal quanto nós. A Arte está em nós. Só a experimentamos de formas diferentes, fazendo, usufruindo, teorizando - só acredito que, abaixo das diferenças, há um tronco comum. E que conhecer esse tronco é meio caminho para encontrarmos as raízes que nos tornam humanos. É voltarmos a casa, depois de julgarmos que nos tínhamos perdido no caminho.

Nota: a segunda foto é, claro, da autoria de Artur Coelho, que gentilmente a cede porque, e bem, não gosta de arte engavetada.
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publicado por Manuel Anastácio às 18:31
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5 comentários:
De Artur a 11 de Julho de 2006 às 21:31
Acertaste num conceito fundamental - o de treino, treino do olhar, treino da sensibilidade. E o treino só se consegue com pesquisa contínua e mente aberta.

(esta discussão está a ficar mesmo muito interessante!)
De Manuel Anastácio a 11 de Julho de 2006 às 21:43
Talvez porque seja uma discussão... intemporal.
De Artur a 12 de Julho de 2006 às 13:53
e vero e bene trovato se não me falha o latim...
De Jo Loribh a 13 de Julho de 2006 às 04:51
Olá, tive uns problemas técnicos e não pude vir aqui antes. Mas não ficou ocioso não. São ótimas as colocações que fez, Manuel. Mas minha idéia original era literal: são coisas de iniciados.
Se eu afirmasse que um grupo de pintores torce pelo Benfica, terias que verificar suas pinceladas vermelhas com outros olhos, não é?
Mudando para literatura, mas falando da mesma coisa, faz pouco tempo o Paulo da Bacia das Almas publicou um texto do Borges que por sua vez era uma tradução de um texto do século 19 sobre samurais que ficam sem mestre (Ronin). Pudemos comparar o texto original do diplomata inglês, existe no projeto Gutemberg, com Borges e percebemos as inserções que este fez, a meu entender, digamos assim, porque ele torcia pelo Benfica. Eu te sugiro que releias um conto como p.ex. ‘O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam’ (talvez tenha outro nome ai para vocês, mas acho que dá para identificar) tendo isso em conta e depois me digas se concordas comigo ou não.
Concordo com sua distinção entre o produzir e o usufruir a arte. Foi o grande defeito dos citados concretistas Pignatari e os irmãos Campos, e outros como Erza Pound e Joyce, que se preocupavam com o fazer e dane-se quem se meter a ler aquilo. É um pouco o que ocorre com a musica experimental. E o inverso das músicas e novelas populares, feitas para um consumo rápido. A verdade deve estar ai pelo meio.
Abraços desde São Paulo.
De Artur a 13 de Julho de 2006 às 09:51
Cá deste lado europeu do lago dos atlantes também é O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam.

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