Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012
Deus e Eu

O que me irrita, de forma benigna, nos meus melhores amigos, é que eles não pensam como eu e, pricipalmente, eu não os compreendo de todo. Deus é um deles. Visita-me com frequência. Nunca me convida, aparece quando lhe apetece, e eu não levo a mal, até porque raramente aparece em alturas impróprias. Privilégio de ser Deus. Letra maiúscula por ser nome próprio e não por qualquer reverência. O cabrão, que é assim que o chamo e ele não leva a mal, condenando-me apenas ao Inferno (que ele jura não ter inventado) dá apenas uma gargalhada malévola e deixa a coisa continuar na amena cavaqueira. Há dias, estava eu piúrço com o gajo, chamei-lhe nomes que dava para um múltiplo infinito de Inferno, e amandei-lhe à cara que o Amor não poderia permitir a Morte, que eram coisas incompatíveis e que por isso, São João Evangelista, um gajo a quem pedi amizade no Facebook e até agora não respondeu, estava errado. Toda a gente que não aceita a minha amizade no Facebook está errada, como é óbvio. Não é o caso de Deus que não tem Facebook porque se diverte a ver contas fantasma a usurparem-lhe a divindade sem que o pessoal da Califórnia ligue puto à coisa. A Morte... dizia eu... e ele: sem a Morte não davas um chavo pelo Amor. E eu, que sou um gajo apaixonado para quem as mulheres se resumem a duas, a minha e as outras (Deus ainda me atirou à cara que ninguém possui pessoa alguma mas eu, como fanático que sou, dei um peido pela divina laracha), disse-lhe que só alguém com sérios problemas de Amor (a isso, o gajo fez um ar triste que me comoveu e que me levou a pensar que a vida amorosa é complicada até para quem é Todo Poderoso) é que podia ter inventado a Morte. E ele  disse-me, com a capacidade dada por milénios de conversas como esta, que estava sem palavras. E perguntou onde é que era a casa de banho. Ele foi e ouvi-o a virar o barco. Quando abriu a porta dei-lhe um abraço. Não te compreendo, és mau como as cobras ou pior, mas quem é que não fica avariado dos cornos pelo simples facto de ser Deus?... Ele sorriu, confundido e disse-me que eu não sabia a sorte que tinha. Enquanto ele descia pelo elevador, senti-me grato. Obrigado, Deus. Podes ser um verme execrável, mas deu-me a impressão que nos criaste assim por te sentires infinitamente inferior a alguém que te fez o que nos fazes a nós. 

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publicado por Manuel Anastácio às 22:21
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