Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012
Vitral

Detalhe de vitral em Herringswell


Se digo, Amor, que me afogo nos teus braços

E que na tua boca bebo o vinho amargo do tempo que escapa,

É porque em ti morrendo, devolvem-se-me os dias.

No dia em que a tua voz, Amor,

Se fez algemas,

Morreram as estações e os poemas.

Cobriram-se de véus e de pudor.

Escrevi-te palavras de apaixonado, murmúrios ternos,

Sugestões obscenas,

E foram tão pequenas, essas palavras.

A poesia do tempo que passa morreu naquele dia de fevereiro

Em que a tua voz dizia a poesia que jamais eu poderia escrever.

E no teu corpo de mulher, Amor,

Há mais que corpo, que desejo e que abraços,

Há os espinhos e a memória dos embaraços

Da minha pequenez de poeta aflito,

Querendo não ser poeta. Querendo eu, apenas, o grito

De que me amas como eu te amo.

Por causa da minha pequenez de poeta maldito,

O sol correu as cortinas do Zodíaco,

Virando em direção ao nada a ampulheta em que reflito.

Amor, que diferença pode fazer ser quase outono,

Quando o verão ainda não vai a meio?

A natureza dorme desperta na sua nuvem minúscula de grandeza ameaçada.

Trazes nos braços e na voz a mítica presença de uma fada,

Como artifício de sereia que não me chama, mas se afasta.

Como esfinge que pergunta em cada resposta dada,

Não quero o grito de que me amas como te amo a ti.

Quero mais,

Quero a finitude do teu espaço.

Quero um abraço sem braços.

 

Não. Na verdade não quero nada.

O que há para querer quando temos alguém em quem morrer?

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publicado por Manuel Anastácio às 15:37
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