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Segunda-feira, 10 de Julho de 2006
Intemporalidade

Alegoria do tempo governado pela prudência (1565), de Ticiano

A grande arte é intemporal, dizem os entusiastas. Eu discordo, se estivermos a falar do objecto artístico: a escultura, a construção, a peça musical na partitura ou mesmo concretizada em ondas sonoras, a pintura, as imagens de um filme - nada há de intemporal no objecto em si ou na forma como está constituído. Mas concordo se estiver a falar da forma como o objecto é fruído. Desculpem-me se me pareço repetir. Mas essa distinção é, para mim, fundamental. A arte (e a sua suposta intemporalidade) reside em quem a frui. Não reside, sequer, no artista, ainda que este tenha o privilégio de ser o primeiro a sentir ou a pressentir o efeito que a sua obra terá no público. Assim, é absurdo acreditarmos que um extra-terrestre inteligente e sensível se sentirá comovido com a audição da nona sinfonia de Beethoven. Provavelmente, os seus órgãos receptores e decodificadores de ondas sonoras experimentariam apenas a estranheza que os nossos ouvidos e cérebros experimentam perante os fragmentos de música da Grécia Antiga. E tenho a certeza que os gregos, que compunham tão belas peças de teatro também saberiam, com certeza, o que estavam a fazer com os sons.

O que quero dizer é: a única intemporalidade, na arte, reside na forma como a ela reagimos. Repare-se na palavra: intemporalidade. É a negação do tempo. Não se trata de presumir que a arte durará, mas de que encerra em si uma porta para o Divino intocado pela corrupção do Tempo. É, portanto, a presunção de um estado sagrado. O que vem apoiar a ideia da Grande Arte como um sistema iniciático que, com a "democratização" da cultura se tornou, paradoxalmente, mais fechado a quem ele quer aceder, de modo a manter uma elite de iluminados que, frente à luz, a furtam aos olhares de quem passa por um museu de Arte Moderna como quem passa por um sonho desconexo que se esbate ao acordar. Ou, então, como disse o  Paulo Osrevni  em comentário ao artigo anterior, encerra-se o meio artístico numa arte composta com vistas não à arte, tampouco ao público, menos ainda ao artista, mas ao crítico. A arte dita contemporânea encerrou-se na auto-referencialidade1 - a ideia de arte pela arte transformou-se na arte pela desconstrução da arte, a metalinguagem pela metalinguagem. E, por mais que este processo nos esclareça, ficamos com o amargo de boca porque a arte se recusa a dar-nos uma gota de Belo querendo saturar-nos de Verdade. Não estou a dizer que devemos voltar as costas para a Arte Contemporânea, que a devemos repudiar, mas que não devemos esquecer que a arte assenta numa premissa essencial e que tacitamente foi aceite durante séculos: a Arte é uma mentira, uma ilusão que pretende desvelar a Verdade do íntimo de cada um. Quando nos servem apenas a mentira, recusando-nos o consolo da ilusão (e a ilusão existe apenas nos sentidos de quem frui, não no objecto em si), a arte torna-se apenas auto-punição, reduzindo-se ao objecto, e, aí, desculpem, nada resta de intemporalidade.

1 Obrigado ao José Lopes pelo simpático e imerecido comentário no seu blog. Abraço grande.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:34
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2 comentários:
De Artur a 11 de Julho de 2006 às 00:11
A arte verdadeiramente contemporânea não está encerrada nos museus e nas universidades; antes, anda aí à solta pela rede, em eternas remixagens... mais interessante do que teorizar, é simplesmente fazer. Tão mais viciante e interessante.

(blogs do sapo. Grr! Mal configurados, excessivamente pesados, e irritantes. Grrrr!)
De Manuel Anastácio a 11 de Julho de 2006 às 15:51
Quanto ao sapo... Pode ser... Mas é tão fácil de editar...

Mas quanto ao resto que dizes, concordo em absoluto. E, aliás, vai de encontro ao que defendo no artigo: a intemporalidade está na fruição - e, com certeza, a grande maravilha da arte contemporânea está na democratização da autoria da obra, através de remixagens e através da intrusão do público na própria obra, já não um objecto intocável. Mas os museus e as universidades, ainda assim, continuam a ser os fiéis depositários das principais referências sem as quais os relativismos, a que te referias noutro comentário, se imporiam aniquilando qualquer coerência na noção do que é Arte.

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