Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
Os Verdes Anos

Indígena Ashaninka Aldeia Apiwtxa/Ashaninka Acre, Brazil © Pedro França/MinC

 

Éramos crianças

e só sabíamos que queríamos, da vida, amar.

Esperámos um pelo outro

e quando nos encontrámos

éramos crianças

ainda.

E finda a passagem aberta pela folhagem aberta pelas tempestades

da nossa inocência,

Encontrámo-nos ainda crianças.

Trocámos alianças,

beijámo-nos,

sem outras esperanças

que amarmos.

Pisámos o chão dos amantes envergonhados

e, apaixonados,

duvidámos que ainda o fôssemos. Crianças.

Éramos crianças ainda,

E duvidámos de o ser.

Iam as laranjeiras desfolhadas

amadurecendo;

Iam os limoeiros solitários

ao peso vergando

dos frutos verdes,

e éramo-lo, ainda: crianças,

trincando o azedo perfume da acidez,

mordendo, à vez,

a erva amarga da limpidez

que tardava, no nevoeiro,

sendo nós inda crianças.

Éramos luz fosca indefinida,

ramagem indevida ao vento vergada,

invernia invertida na nossa peugada,

passos de éguas fecundadas pela arajem.

Dançámos ao som das ladainhas

de pinhas que se abriam sobre nós.

Debruçámo-nos sobre o tormento de sermos sós,

e sobre nós derramou-se um chuviscar resinoso

de desejo de eternidade.

Recusámos até o cálice venenoso de outra verdade

que não fosse a nossa.

Hoje, crianças,

trocámos alianças,

sem outras esperanças

que sermos, do que fomos,

retas perfeitas entre lembranças.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:31
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3 comentários:
De glaucia lemos a 21 de Maio de 2012 às 02:24
Assim é o amor. Dizem q quem muito ama permanece guardando em si certa pureza, ingenuidade de criança. Esta pureza e ingenuidade que inspiram coisas emocionantes como este poema.
De Manuel Anastácio a 21 de Maio de 2012 às 02:33
Obrigado, Gláucia, por estar sempre atenta ao que escrevo. É como um anjo da guarda.
De gláucia lemos a 21 de Maio de 2012 às 04:34
Anjos da guarda humanos não existem, Manuel. Existem pessoas que nos acolhem com as nossas verdades. Obrigada a vc pela sensibilidade que possui .

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