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Domingo, 9 de Julho de 2006
Arte e iniciação

Universo - Hildegardis-Codex, 1165

Disse o Artur, em comentário ao meu último post e em sequência do comentátio do Jo, que "os ritmos complexos do jazz, da clássica ou da contemporânea despertam na nossa mente a consciência de espaços n-dimensionais povoados por formas que se intersectam." - seria, então, aqui, que a música enquanto arte se distinguiria da música como simples entretenimento. Ora, esta frase, sendo bonita, que significa de facto? É apenas uma tentativa de explicar, subjectivamente, a experiência sentida por quem ouve arte em forma de sons. Mas é de um subjectivismo que não posso aceitar na minha reflexão sobre a natureza da arte dos sons porque se socorre de conceitos que dependem apenas de quem tem a experiência da fruição musical. " A distinção está na qualidade do espaço", diz de novo o Artur - isso faz-me relacionar, de novo este problema com o problema da arte em geral. O conceito de qualidade não é, de forma alguma aceitável se quisermos fazer qualquer distinção entre duas categorias da actividade humana. É-o apenas se nos dispusermos, na nossa vaidade de apreciadores de arte, a considerarmo-nos na esfera da "alta cultura", o que pressupõe, portanto, uma cultura de qualidade inferior. Que a cultura superior leva à abertura da mente para outras dimensões é também polémico. Que dimensões? Não falamos de nada de físico, é certo, mas de algo que se refere apenas à experiência pessoal. Mas por que razão devemos inferir que a abertura da mente para essas dimensões é algo mais próximo do Belo? Por uma simples razão - devido à tendência, no nosso contexto cultural (noutro contexto, outras considerações seriam feitas)  para relacionar o Belo com a Verdade e pela crença arraigada entre os humanistas de que a Verdade última e irredutível não pode ser experimentada pelos sentidos - o que torna o conhecimento científico algo de fatalmente superficial - mas através, unicamente, de alguns estados alterados de consciência. O êxtase místico, o orgasmo e as alucinações, provocadas quimicamente ou não - tudo concorre para receber a devida vénia como porta para o que não é alcançável pelos sentidos, quando não são mais que produtos desses mesmos sentidos, levados aos extremos, dando a ilusão de outros espaços exponenciados a outras dimensões.

Mas não estou, desta forma, a desprezar a arte. Longe de mim. Eu descreveria a minha experiência de fruição musical exactamente com as mesmas palavras do Artur ou com outras muito semelhantes. Acontece, apenas, que sei perfeitamente que a qualidade da música não é algo intrínseco à própria música. As emoções quase místicas de experiência ilusoriamente ultra-sensorial que atinjo hoje com algumas passagens do Parsifal correspondem, ainda que sob outra forma (ilusoriamente mais profunda), às emoções que uma certa ária da
Cavalleria Rusticana me proporcionavam há alguns anos atrás. Claro que agora tenho tendência para olhar com alguma comiseração para esse meu gosto mais básico, que considero agora "de menor qualidade"... Mas a fruição anterior, não era, de modo algum, de menor qualidade. Há que distinguir entre gosto e fruição. Um é a predisposição para - outro é a experiência do próprio acto. É simples presunção acreditar que quem chora a ouvir o Tony Carreira está a ter uma experiência mais pobre do que quem está a ouvir Ligeti com um ar sisudo  - acontece, apenas, que o segundo sente que está a ser iniciado em algo superior. Sente que está a ser admitido num nível acima do seu percurso individual em direcção ao Sol, apenas porque utiliza outras formas rítmicas, outras conjunções de timbres, outras dinâmicas, outras modulações. Eu gosto de pertencer a este grupo. Não compartilho da linguagem técnica que me permitiria discutir uma peça complexa com um teórico musical. Mas acredito que se mantiver o meu espírito aberto para novas experiências estéticas (musicais ou não) conseguirei uma outra qualidade de fruição que alguém que se prende apenas ao entretenimento não atingirá. Mas isso não deixa de ser uma crença. Além de que essa suposta qualidade só poderá ser avaliada por quem usufrui de algo, no contexto de um determinado gosto. Manter essa crença é manter o espírito do eterno iniciado - hoje em dia, com a variedade louca de propostas musicais, o verdadeiro ouvinte de música enquanto arte é aquele que aceita esse carácter de iniciação ao longo da vida. Alguém que pára em Wagner estará, em termos de evolução estética, tão inadaptado quanto as adolescentes histéricas perante uma Boys Band. A arte moderna, e a música também, ao apelar para o inconformismo e para a reflexão sobre o próprio fenómeno na fruição artística, num processo metalinguístico, exige-nos a obediência subserviente de quem se submete a um ritual iniciático em que a arte é a sua própria recompensa. Mas só nos submetemos a esse ritual porque temos motivos (baseados na nossa própria experiência) para acreditar que deles sairemos mais felizes, mais maduros - melhores.
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publicado por Manuel Anastácio às 23:02
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3 comentários:
De Artur a 10 de Julho de 2006 às 15:00
Cuidado com os relativismos - qualquer risco não é necessáriamente uma obra de arte. Mas tens razão - a beleza está nos olhos, ou nos ouvidos, de quem a vê. Definir arte será sempre subjectivo e passível de imensas interpretações, mas no fundo sentir arte resume-se ao ultrapassar, ao ir mais além - e essa não é uma sensação intelectual, é plenamente física. Como se escrevia antigamente, sente-se nas entranhas.
De Artur a 10 de Julho de 2006 às 15:05
E já que estou a comentar - a "grande" arte tem outro carácter que a distingue das formas mais populares - a intemporalidade. Os padrões estéticos de uma época são transientes, mas as boas obras são sempre frescas. E isso a culturas mais pop não tem - é tão transiente como a época em que se insere.

Quem é que hoje ainda veste calças de boca de sino e adora incondicionalmente os, digamos, Stones?
De Paulo Osrevni a 10 de Julho de 2006 às 21:53
Por outro lado, um fenômeno ao meu ver nocivo que floresceu em meados do século XX e que vez por outra ainda assoma é a arte composta com vistas não à arte, tampouco ao público, menos ainda ao artista, mas ao crítico. Estive estudando esse assunto quando realizei um pequeno trabalho sobre a poesia concreta brasileira (H. de Campos, A. de Campos, Décio Pignatari etc.); o resultado é uma arte cujo efeito se dá em teses e artigos, não na fruição. Eis um dos motivos do afastamento do público, que se entrega à produção mercadológica e escapista.

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