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Domingo, 13 de Maio de 2012
Vou te contar, meu camarada, de Gláucia Lemos

Se há coisa que me atormenta, é a responsabilidade de estar vivo entre outros vivos. Se pensar que a minha vida é independente da dos outros, ou que a minha ação não terá qualquer resultado porque há no mundo uma resistência ou maldade maior às minhas capacidades de luta ou de verdadeiro altruísmo, estarei a aceitar a minha condição de morto no meio dos mortos. Disse Jesus que não há maior amor do que dar a vida por quem se ama. Dar a vida significa o quê, ao certo? Há várias formas de interpretar tal dádiva, mas todas têm em comum a ideia de perder o medo. Vêm estas considerações preambulares a propósito do tema de dois livros de Gláucia Lemos que, num gesto de puro amor, mos ofereceu, com outros de que já aqui falei, dando-me, através deles, a sua vida - sem medo das minhas palavras, sem medo da minha leitura. como faz cada pessoa que, através da escrita se expõe aos olhos dos outros. Estes dois livros, que ainda não comentei, constituem, a meu ver, um par temático sobre a cobardia. O tema predominante nas obras de Gláucia Lemos a que já tive acesso é o tema da espera, como se um certo complexo de Penélope identificasse uma certa forma de ser mulher, algo resignada, mas não menos lutadora e corajosa. A mulher que espera tem, na obra de Gláucia, os dedos calejados pelo mourejar. É uma atitude complexa que vacila entre o trabalho, ativo, e a atitude passiva da espera - como Penélope fazendo e desfazendo o seu trabalho no tear. Note-se, contudo, que há, nessa resistência pelo trabalho, o esforço de manter a porta aberta para o regresso de Ulisses, mantendo-a fechada aos apelos de traição do amor ausente. É uma situação difícil que em nada revela absoluta resignação e cuja passividade é apenas aparente. Mas falei de cobardia... e, curiosamente, ou não, o tema apresenta-se nestes dois livros, "Vou te contar, meu camarada" e "As aventuras do Marujo Verde" através do elemento masculino. Logo na capa de "Vou te contar, meu camarada" vê-se uma mulher em silhueta, junto ao mar, enquanto um rapaz, o protagonista e narrador, se retrai numa atitude de desejo reprimido perante o "território" marcado de outro homem. Mais curiosamente, a esta impotência declarada do narrador, o homem rejeitado ou que se autoexclui, não tem qualquer contraponto de coragem em Zé, o macho viril que possui o seu objeto de desejo, Marialva. Pelo contrário, à cobardia de um corresponde um género diverso de cobardia por parte do outro, em moldes que não posso ou devo revelar, a não ser no seu óbvio desânimo supersticioso que nos é oferecido nas primeiras páginas, quando Zé contamina o seu barco, e o seu destino, com a presença sacrílega de Marialva no seu barco "Vendaval". Este livro está inserido dentro da produção "infanto-juvenil" da autora, o que poderá espantar quem leu este texto até aqui. Não me espanta a mim, já que perante a crueza das paixões e dos medos relatados (o livro é um constante e áspero suceder de medos e indecisões), a candura da linguagem popular e a sua oralidade confessional, já expressa no título, acaba por permitir o olhar dos leitores mais jovens para a câmara indiscretamente aberta por um narrador que confia as suas fraquezas a um camarada ouvinte. Há, como em "Bichos de Conchas" (que levaria a outros voos de ousadia a coragem da mulher em contraponto à impotência masculina), a sugestão anímica do vento que ensombra de forma expressionista o final desta obra prima da autora e que aqui se insinua, já, como símbolo de separação e tragédia. Como aconteceria, aliás, de forma ainda mais óbvia, mas não com menos força, em "À espera do tornado". Todos os livros, quando escritos com alguma nudez de alma (que os há em que a alma está bem enterrada em atavios de vergonha) nos podem dar algo de inspirador para que nos sintamos vivos entre os vivos, de forma não resignada, calejando os dedos no trabalho e na espera dos dias em que tudo será explicado. Este é um livro de uma rude austeridade que não esperava em Gláucia Lemos, para mais numa obra destinada a um público jovem, mas é isso que a torna particularmente interessante e ousada, seguindo o caminho de outras ousadias de uma escritora que, qual experimentalista, raramente se apega a um estilo e se afirma enquanto autora, mais dentro de um determinado universo psicológico que numa forma de escrever. "Vou te contar, meu camarada" é um livro austero, por vezes rude, e de uma simplicidade desarmante no seu enredo quase policial mas que se revela como uma história de gente simples caída no vazio e na angústia da falta de uma orientação que dê sentido à vida. Gláucia já muitas vezes disse que a filosofia existencialista, e Camus em particular, são elementos fundamentais para a compreendermos como pessoa. E se o absurdo já poderia aparecer no onirismo de "Luaral", é no duro realismo de "Vou te contar, meu camarada" que os dilemas existenciais se encontram mais vincados, ainda que de forma subentendida, como na passagem em que, defronte a uma decisão difícil, o narrador confessa: "os atalhos da vida são tão escuros que eu acho que um homem nunca vai ser um homem completo, no sentido de resolver as estradas da sua vida com sabedoria". É, de fato, no largo espaço luminoso do mar que Gláucia decidiu oferecer-nos uma história de escuros atalhos, dúvidas e medo. Medo da autoridade, medo de os outros nunca reconhecerem as nossas pequenas verdades e medo de um destino onde não há chão palpável nem certezas. E, para esse medo, Gláucia dá-nos uma prova de coragem, ao aceitar como caminháveis os mais espinhosos caminhos.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 20:19
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2 comentários:
De gláucia lemos a 13 de Maio de 2012 às 23:16
Meu caro Manuel, à esta altura a resenha de um dos meus livros - q a editora encaixou como juvenil, enquanto eu o acredito sem idade definida, mostra-me, no seu autor, um crítico plenamente conhecedor da minha obra. Através de uns 6 ou 7 títulos, o crítico ingressa em profundidade no universo criador desta autora.Eu mesma nunca tinha tomado consciência da presença do vento como elemento fortemente marcante na minha criação. E assim outras particularidades que o inconsciente vai jogando nas histórias, e acabam reveladoras da personalidade de quem delas nem se apercebera, no entanto a agudeza do crítico, sim.
Quase sinto-me inclinada a, da próxima vez q um estudante de Literatura escolher meu trabalho como tema de dissertação, aconselhá-lo a ir a Guimarães entrevistar o escritor prof.Manuel Anastácio, por ser quem melhor disserta sobre as coisas que, fugindo à minha covardia (da qual tenho plena consciência),eu tenho a ousadia de botar no papel, e ainda por cima, aceitar q delas se ocupe este resenhista, com o seu admirável talento e a sua terna generosidade(brincadeira). Obrigada, meu camarada, a você a minha afetuosa gratidão. :))))
De Manuel Anastácio a 13 de Maio de 2012 às 23:33
Salvé, amiga e camarada.:)

Cá estarei para enfadar de morte ou de riso quem vier até mim. Beijão.

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