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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012
A explicação dos abutres

Havia um padre na manifestação de ontem da CGTP, ao lado do povo, solidário com o povo. Os bispos portugueses, por seu lado, mostram bem de que massa fermentada são feitos. "Sentem a importância da explicação, clara e prévia, das medidas que se tomam e das razões que as determinam”. Pode parecer inócua esta frase que, aliás, não é nova e já foi proferida várias vezes por tais abéculas que o povo considera como guias espirituais e portadores de anéis dignos de beijoquice santarrona. Mas não é inócua nem apolítica-apartidária, como muito em má hora está na moda. Dizer-se que as medidas de exploração sádica de um povo empobrecido ao limite têm de ser explicadas tem uma mensagem explícita e imediata para quem os ouve: a mensagem de que estas medidas são justas. Incompreensíveis, mas justas. A Igreja, que tem grande prática em pedir/impor crença em troca de argumentos nulos (chamam-lhe Fé), pede agora resignação aos crentes, e uma dose de reforçada de fé numa coisa que tem explicação, mas que os governantes não têm conseguido explicar. Creio que estes senhores são minimamente inteligentes e sabem bem que a única explicação a dar é a de que este governo, e a direita em geral, só quer uma coisa: rebaixar o pobre à indigência para, assim, se arrogar ao papel sádico do exercício do poder e, simultaneamente, ao papel caridoso e paternalista capaz de aumentar a sua influência na sociedade. À Igreja não interessa, nem nunca interessou, que as pessoas vivam com dignidade, mas que só consigam obter essa dignidade graças aos seus favores, como bem o sabe e pratica a Máfia italiana. Um povo pobre e carente é um povo submisso e fiel cumpridor dos preceitos religiosos. Pode ser um povo alcóolico, minado de vícios: desde que peregrine de joelhos até aos santuários onde se prostitui a ideia de Deus e da santidade, tudo estará bem. A desgraça e a miséria é amiga da religião. Um governo que semeia destruição e desespero é um maná dos céus para as instituições de "solidariedade" social, veículo de vaidades de quem dá com a mão direita fazendo questão de que a esquerda e o resto do mundo o saiba. Não são todos assim, dirão. Pois não, o mecanismo é talvez inconsciente, fruto de uma ação impensada. Haverá, porventura, bondade nesta gente, mas é uma bondade envenenada, alienada, docemente drogada pelo cheiro do incenso e dos rituais; uma bondade nascida de uma maldade profunda, que se compraz nos sentimentos mais dolorosos da alma; uma bondade que se compraz em abraçar leprosos, achando nesse abraço a redenção da sua própria lepra moral; uma bondade que gosta de remediar os males que semeia e que evita a prevenção da tragédia; a bondade de quem lava a cara suja de esterco de quem caiu na latrina aberta por essa mesma vontade. Podia explicar isto melhor? Não, não podia. Nada há a explicar para quem, como Pilatos, lava as mãos e, assim, se embebeda no sangue dos mártires. E há quem prefira viver à espera de explicações que não existem do que em abrir os olhos para os expostos frutos podres da sua caritativa maldade.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:55
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Domingo, 11 de Novembro de 2012
Carta aberta a Ângela Merkel, Nossa Senhora muito amada:

Carta aberta a Angela Merkel:

Cara Ângela. És um anjo caído do céu, mas não um anjo caído. Resplandeces na tua aura messiânica e apocalíptica e, como sedutor anjo da morte cavalgas os póneis da fomezita, das guerritas civis e das pestinhas. És a Carlota do Werther, mas mais simpática. Levas ao suicídio coletivo os jovens idealistas do seu próprio bolso e fazes crescer a turba fervilhante dos movimentos apartidários contra os políticos, essas sanguessugas que são sempre sanguessugas só porque sobem a um palanque e fazem promessas. Porque fazer promessas num palanque é crime, e os gafanhotos com rabo de escorpião e cara humana dos vermes islandeses mordem sem cessar os culpados da crise - os políticos, claro. Não aqueles que enriqueceram e continuam a enriquecer com dinheiro que inventaram e desviaram para o cálice sem fundo dos offshores implantados no seu peito, não aqueles que controlam a seu modo o pão de cada semana, falsificando-o com a serradura dos corpos secos e decepados de braços daqueles que antes eram trabalhadores e agora são meros desempregados, inúteis, bocas a mais, pulseiras verdes em salas de longas e mortas esperas, não esses que dizem que as radiografias depois de um acidente na escola deve ser pago com audiências vazias nos concertos, não esses que dizem que num país onde alguns jamais voltarão a ser úteis, o único caminho é abrir um negócio - engraxar sapatos, com certeza, para quem ainda tiver sapatos. Não esses. Esses não são criminosos, esses devem ser protegidos como espécie em risco. E são. São uma espécie em risco, mas longe da extinção, curiosa espécie biológica em que um parasita é maior e alimenta-se de múltiplos hospedeiros. Espécie curiosa e apocalíptica, acarinhada pelo povo que acende velas à Senhora de Fátima e agasalha-se sob as amplas asas da fé e da resignação. Esses não, esses não são criminosos. São lemingues suicidas e tu, cara Ângela, és o seu desnorte, és a paixão desvairada dos famintos e dos ignorantes. Porque todos os políticos são culpados da morte, da fome e da peste, dizem os apartidários manhosos que alimentas com as tuas fartas tetas túrgidas de pus e podridão. Cara Ângela, és bem-vinda a Portugal. O povo que detesta os políticos ama-te porque estás acima da política. És o veneno mortal que todos querem ter a correr no sangue quando a dor e a falta de esperança não permite manter em pé as magras pernas desta gente que chora e que merece cada lágrima que tem no rosto pela sua ignorância e pelo atraso mental que os dignifica. Ângela, grande educadora, guia dos necessitados, candeia dos cegos, avé. Nós te amamos, Ângela, nós te adoramos, e continuaremos a beijar os santos pés de Portas, Passos e Seguros, fiéis depositários do teu corpo consubstanciado em cada apartidário, de cada revoltado contra o demónio, o diabo, o porco sujo chamado política. Nós te amamos, nós te adoramos. Nós te rogamos, Ângela, concede-nos a beatitude do teu abraço mortal e torna-nos felizes instrumentos do melhor dos mundos. Bem-vinda sejas hoje e sempre, nesta forma ou noutra que mantenha a mesma substância com que se alimenta o fim do mundo.

Manuel Anastácio

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publicado por Manuel Anastácio às 10:38
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012
LIII

Temos de viver com menos, diz a senhora que lava o rabo, à moda indiana, com água, para não gastar papel. Mamã, mamã, está uma senhora na net a dizer que és salazarenga e que queres que as pessoas passem fome que é para teres mais clientes. Clientes? Olha a pindérica. Uns pés rapaditos, coitadinhos, ali todos enfezados - ai, ai, tanto que eu gosto dos meus pobrezinhos, que hão de rogar por mim lá no céu, onde estarão bem acima de mim, coitadinha de mim... terá de viver com menos no céu mamã? Sim, filho, é o que acontece a quem vive acima das suas possibilidades. Há quem queira atravessar pelo cu de uma agulha com um camelo, mas não é possível, temos de nos resignar aos limites impostos por Deus Nosso Senhor... Não, mamã? O óvulo fecundado de um camelo é já um camelo, é o que diz a minha catequista.

 

A catequista namora o padre que joga na bolsa e é irmão de outro que é cego e come em casa dos paroquianos. Vive da pobreza que impõe a si, sem querer impô-la aos outros. E tu, minha menina, que fazes? Estudo. Estudas o quê? Matemática? Como é que sabe? Por causa da forma como a caneta sobe e desce sobre o papel. Ouço traços curtos mas retos. Se fosse língua materna, ouviria sons mais redondos e contínuos. É uma música diferente. A freira que o acompanha leva-o para a lata velha que, com sorte, não falhará a meio da planície alentejana a caminho da vila onde espera uma criança ferida, por dentro, pelos olhares perfurantes dos outros miúdos. Espera, junto à coleção da Naxos da freira. Ouve Gorecki. A freira e o padre não tiveram sorte, o carro parou a vinte sete quilómetros da aldeia mais próxima.

 

Fome. Sinfonia das canções esfomeadas. Para o Julio Iglesias era o coração, para Freud, os genitais, para Marx, o estômago. Todos judeus. Iglesias é nome judeu? Judeu por parte da mãe. O autor é antissemita porque substituiu Cristo por Julio Iglesias. A mãe da criança que ouve Gorecki é antissemita porque os judeus mataram o Senhor, que era muito bom e que era primo de João Batista que andava com umas  peles de ovelhas e andava atrás das moças, mas dava a vida pelo Julio Iglesias dela, outra louça. Muito além do Marco Paulo. Sempre que brilha o sol, naquela praia, sinto o teu corpo vibrar, dentro de mim... É uma canção gay, como se vê. Dizem que o Reininho é que inaugurou a música gay com o Dunas, que é um camelo, com duas bossas e muito pelo. Tolice. Areias, era o nome do camelo, e quem cantava era a dos queijinhos frescos. Fome. Brucelose. Ana Faria, isso.

publicado por Manuel Anastácio às 00:14
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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a gralha

Harrison Weir, John Tenniel, Ernest Griset, et.al.



Andava a gralha a cirandar
p’los campos entre rebanhos
quando uma águia, do ar,
caindo sobre um dos anhos,
capturou-o com as garras,
e sem esforços tamanhos
numa ascensão sem amarras,
levou o manso cordeiro
em direção às bocarras
e ao bico carniceiro
das suas crias famintas.
Do alto do seu poleiro,
com vaidade sem meias tintas,
achou-se a gralha capaz
de servir-se das mesmas fintas.
De um borrego põe-se atrás
e agarra-o no cachaço,
fazendo o que águia faz,
sem ao siso dar espaço
para impor a sensatez.
Com os pés num embaraço,
de garras sem robustez
mais e mais se encravava
na lã dos flancos da rês.
O pastor que ali andava
achou graça àquela cena
em que a gralha se humilhava.
Capturou-a, sem ter pena
do bicho desenganado.
Ao cativeiro a condena,
e mal a casa chegado
ouve os filhos perguntar,
do pássaro desgraçado,
como se vinha a chamar.
“Uma gralha, penso eu...
Mas posso estar a errar:
vendo ao que se atreveu,
pensa, com toda a certeza,
ser uma águia do céu!”
Por aí muita esperteza
segue a mesma triste sina
ao julgar que é destreza
a estupidez cabotina.


(versão de Manuel Anastácio)

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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: a águia e a raposa

Harrison Weir, 1867



A águia, de alto semblante,
de uma raposa vizinha,
acordo desconcertante
de paz, com ela mantinha.
Debaixo de uma giesta
vivia a inocentinha,
que ao olhar da águia presta
a sua novel ninhada.
E atento era o olhar desta.
Mal a ocasião foi dada,
atirou-se às pobres crias,
devoradas à bicada
num festim de carnes frias
p´ra seus esfomeados filhos.
A raposa, nestes dias,
pisando os doridos trilhos
do luto, rezou a Deus
angustiados estribilhos
pela vingança dos seus.
Mas de Deus só a ausência
no abismo do adeus.
Movida pela urgência
de satisfazer o ódio
e a sua impaciência,
juntou lenha entorno ao pódio,
alta árvore inacessível,
onde fora o episódio
de crueza inconcebível
que a levara à loucura.
Acendeu o combustível
com as chamas da agrura
e esperou sem piedade
que os objetos de ternura,
tornados em crueldade,
ali tombassem assados.
E assim foi, na verdade.
Mais pela dor devorados
que pela fome da pobre.
Senhores de altos costados
de seleta casta nobre,
que julgais tudo poder,
o posto que vos encobre
pode-se bem abater.


(versão de Manuel Anastácio)

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Sábado, 3 de Novembro de 2012
Fábulas de Esopo: o burro e o cãozinho

De cane et asino, Francis Barlow, 1687

 

Certo dia, a um fazendeiro,

dono de um burro escorreito,

em visita, em que era useiro,

ao jumento, seu eleito,

deu-lhe p’ra levar um cão

de colo junto ao seu peito.

O canito, folgazão,

lambia-lhe, doido, a cara,

pedindo-lhe uma ração

com que o burro não sonhara

em momento algum da vida.

Vendo tal ternura rara,

nunca a ele despendida,

sentiu subir-lhe às entranhas

uma inveja desmedida.

Pensou, pois, em artimanhas

que lhe pudessem valer

do dono graças tamanhas.

Pensou então em fazer

Ao amo o que o cão fazia.

Dispôs-se para o lamber

de igual modo, nesse dia.

Assim pensou, assim fez

o que o ciúme pedia

e foi às duas por três

que lhe quis subir p’ra cima.

E como cabra-montês,

ao proprietário se arrima

com enorme estardalhaço.

Se de início bem se anima

a valente e grosso abraço,

vira o vento, vai de viagem

com pancadas no cachaço

dadas pela criadagem.

Grita o dono, zurra o burro.

Correu mal a homenagem.

Leva no focinho um murro

e fica de cara à banda.

Mesmo que isto cheire a esturro,

a lição não é nefanda

e acontece frequentemente.

O amo quer, pode e manda,

e a lei assim consente.

Quem jumento assim nasceu,

Por muito que se atormente

só o jugo terá, de seu.

 

versão de Manuel Anastácio

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012
Dia de Todos os Santos

Não haverá hoje muitos miúdos a sair de casa, cedo, em Carvalhal, para gritar “Bolinhos, bolinhos” de porta em porta. Há sítios onde se pede “pão, por Deus”. Em Carvalhal apela-se aos mortos que cada vivo carrega nas suas dores. “Bolinhos, bolinhos, em redor de seus santinhos”. Podia ser “Bolinhos, bolinhos, em redor dos seus santinhos”, em Constância dizem “bolinhos, bolinhos à porta dos seus santinhos”, mas era a primeira versão, com um certo matiz brasileiro na construção frásica, que era utilizada para pedir coisas boas junto das portas que conseguíssemos percorrer com um saco de pano para os secos, um de plástico para os tremoços e uma bolsa para dinheiro. O trânsito de canalhada a sair pelos quintais e varandas era acompanhado de informações relevantes. Ali dão-se tremoços, e dispensávamos tal porta, que de tremoços estávamos fartos. Ali não se dá nada. Não em casa pobre - nessas havia sempre um figo seco, um rebuçado melado ou um beijinho meio desfeito - mas em casas repenicadas, com jardins à Versalhes e paredes imaculadas. E gritávamos para os donos, trancados com portas de ferrolhos dourados: “Arrebolão, arrebolão, caia esta casa no meio do chão!”. Ali, dá-se dinheiro, e corríamos, ávidos, às moedas de dois e quinhentos ou, em casa mais farta, de dez escudos, brilhantes, acabadas de vir do Banco, em rolinhos de papel. Ali dão-se broas dos santos, bolos lêvedos com cheiro a erva-doce, cobertos do vidrado castanho escuro e brilhante de pinceladas de gema de ovo, riscadas com os dentes de um garfo. Ali, só fatias, ali broas inteiras, pequeninas, por vezes grandes. Uma vez recebi uma broa de honrosa dimensão das mãos de uma velhota simpática que se limitara a dar um punhado de castanhas aos meus companheiros. Não entendi logo a razão do tratamento diferenciado, mas agradeci. O mistério revelou-se  mais tarde. Um dia, ajudara-a com o pesado cesto de erva para o gado que as mulheres costumavam, nessa altura, levar na cabeça, das fazendas, nos vales, aos currais, nos cabeços, por caminhos de cabras de sísifa extensão. Ali, romãs, fruto perfeito, com jóias de sangue esbugalhadas ainda antes de voltar a casa, enquanto as nossas mãos avaras de crianças contava o dinheiro arrebanhado e comparávamos contabilidades. E o sino tocava para a missa, junto aos muros do Cerro, ao lado das vinhas que ondulavam em direção à igreja. As portas voltavam a fechar-se.

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publicado por Manuel Anastácio às 09:45
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LII

Tens mãos de pianista. Disse ela. Mas eu tenho olhos na cara. E dedos grossos, ossudos, como se as falanges fossem is maiúsculos com serifa. São isto mãos de pianista? Mãos que ainda guardam as memórias gratas do enxadão, a cavar no Estreitinho, como quem vai a caminho de Sobral Basto pela Serafina, e que guardam ainda a mais áspera memória dos baldes de argamassa e tábuas sujas de cimento em prédios que hoje devem estar podres de salitre e solidão. Tens mãos de pianista. E eu, que julgava que tinha mãos de servente ou de cavador à jorna, julguei que as minhas mãos, na altura suavizadas pelo papel das bibliotecas, excepto na junção da falanginha com a falangeta do anelar direito, onde a caneta ainda me marca com uma doce deformação, passavam doravante a serem anexos nobres de um corpo vulgar. Hoje sei que as mãos do servente e do cavador são tão nobres e belas como as do pianista, embora as primeiras sejam anónimas e não provoquem arroubos de transcendência a quem não é por elas afagadas com a volúpia do desejo partilhado. Tens mãos de pianista. Estas mãos são mudas. O giz continua a esculpir aquilo que o indicador económico da época do Cavaco não chegou a fazer completamente ao seu relevo de queratina acumulada em depósitos secos. São mudas, como é mudo o bloco de mármore ou o papel. As minhas mãos tocaram as mais belas coisas do mundo e, mudas, já disseram "não te largo" e "estou aqui". Ásperas. Duras. Nobres. Tocaram as coisas mais belas do mundo. Talvez sim. Talvez sejam de pianista.

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