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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
Fugiu um Condenado à Morte, de Bresson

Publicado ontem, no Ócio:

 

 

À noite, no claustro do Paço dos Duques, com a lua e as estrelas a espreitarem através das chaminés, um ecrã de cinema. Já passou Oliveira, Fassbinder e, hoje, um filme de uma das poucas pessoas que conseguiu conferir à palavra austeridade um brilho e calor em todo oposto à aspereza desumana com que o vocábulo tem andado contemporaneamente a infernizar vidas. Robert Bresson, escritor de imagens, inspirado profeta da liberdade interior, descreve minuciosamente cada gesto mínimo de um homem que foge da prisão. Um conceito de cinema feito de tensão e de paciência, de desejo e calculada e dirigida autorrepressão. Um filme de uma beleza extrema e capaz, no seu minimalismo, de prender qualquer pessoa a uma história de nervos que nos dá paz.

 

Podia ainda dizer que o filme é baseado numa história real (isso, ao que parece, vende) mas é mais que isso (sendo também isso).  Filmado no local onde se passou, com os adereços usados pelo próprio fugitivo, André Devigny, resistente francês, enquanto prisioneiro dos nazis. Podia dizer isso, mas isso interessa pouco. Ou nada.

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publicado por Manuel Anastácio às 07:27
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Cosmopolis, a outra face do canil

Publicado no Ócio:
 

Como dizia a PIDE, está tudo ligado. Ontem, vi a excelente peça de Valter Hugo Mãe, Canil, em que alguns revolucionários não comunistas, perdidos na sua impotência enjoada e movida a gelados de má qualidade, tentavam, a contra-relógio, defender a dignidade dos trabalhadores numa revolução em que tudo corre mal à conta dos instintos caninos de desejo e repulsa, de cio e de pânico. Em Cosmopolis, o universo alegórico é o mesmo, ainda que invertido. O senhor do capital vive como um cão, fornica como um cão mas deseja a eternidade como ela existe apenas no coração do ser humano, confusa e feita de insatisfação e fome, como diz a Carla, e de um desejo paradoxal de anulação, como subentendo nas palavras do Pedro. Também a contra-relógio.

 

Não penso, como João Lopes, no discurso de apresentação do filme, que este seja um objeto cinematográfico que se prolongue para lá das fronteiras do universo de Cronenberg. Já em Crash, em Videodrome, em Dead Ringers, havia este universo de insanidade aliada ao fetichismo tecnológico – e a economia capitalista não é mais que tecnologia, ou engenharia, se assim preferirem. A economia anticapitalista também, mas é menos dada aos prazeres sadomasoquistas. Há sempre, no fetichismo, o mal estar de se amar o poder de um objeto que nos é estranho e nos impõe  uma forma de ser nem sempre conforme aos nossos desejos assumíveis. Isso aparece, até, em filmes mais académicos como no recentemente aqui falado, Um Método Perigoso.
 

Não é a obra prima de Cronenberg, mas tem um traço cronenberguiano feroz e capaz de fazer muita menina maluca pelo Vampiro de Twilight abandonar a sala antes do filme acabar, confusa com os diálogos densos. E isso só valoriza o filme e faz subir Robert Pattinson muitos pontos na minha consideração. Cinema à moda subversiva de Cronenberg, como os seus aficionados há muito esperavam voltar a ver. Volto a dizer: não é uma obra prima, mas acompanha bem aqueles outros filmes que deram nome ao realizador.

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publicado por Manuel Anastácio às 07:22
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Domingo, 27 de Maio de 2012
Tourada, princípios e imagem

Tive a honra de participar como delegado na última Convenção do Bloco de Esquerda, onde se definiriam as orientações políticas do partido. Muita gente, ao saber desta Convenção pelas notícias, regalou-se com as cisões ideológicas entre alas mais "Louçã" (as minhas) e outras alas, simpáticas umas (como a antitotalitária) e a extremista (que, entretanto, debandou para outras freguesias). Para mim, foi o revelar de um partido feito de partidos, feito de opiniões e de gente que não canta a mesma cartilha como se fosse a tabuada na escola. Estava entre gente que pensava por si, entre ovelhas negras, azuis e de todas as cores, não dispostas a seguir o rebanho, mas a decidir em conjunto o caminho a seguir pelo rebanho. À entrada, ativistas dos direitos dos animais pediam para votarmos a favor da inclusão de uma adenda que colocasse o Bloco de Esquerda como defensor implacável dos direitos destes animais nobres e criados na natureza como soberbos na sua herbívora dignidade. Detesto o taticismo político. Sei que o há também no Bloco de Esquerda, como em qualquer partido. Sou por princípios. E o princípio de que tourada na arena é barbárie e na cama é coisa boa, é daquelas coisas que gostaria de ver ser considerada pelos meus camaradas como coisa unânime, fossem eles marxistas, leninistas, maoístas, estalinistas ou que bem lhes apetecer na carola. Não era contra os bifes que se insurgiam os ativistas - e bem podiam. Custa-me admitir, mas é verdade que eu como e gosto de carne, mesmo reconhecendo a violência implícita no ato. Mas há uma diferença entre matar um animal para comer (como acontece, violentamente, na Natureza desde que há animais) e matar para divertimento e prazer estético. Talvez um dia me torne vegetariano, mas essa é outra conversa, embora me custe deixar a posta mirandesa (sinto-me como um canibal com peso na consciência). Não tive dúvidas de que deveria votar a favor de um partido absolutamente antitourada. E foi assim que votei, tal como a maioria dos delegados. Mas dos outros que votaram contra, curiosamente, ninguém era a favor das touradas. E eu não compreendo isso, nem no Bloco nem na Santa Madre Igreja. Princípios são princípios. Vão contra um gosto enraizado de um povo embrutecido, que se diverte a passar coelhos e sapos a ferro na estrada, e a ver sangue a jorrar e vísceras a latejar em corpos de belos animais esventrados. Há gostos para tudo, dizem. Pois há, mas nesse caso também deveríamos legalizar a pedofilia, são gostos, não é assim? Que gostos não se discutem. Parvoíce, extrema, que os gostos são a coisa mais discutível do mundo e por isso mesmo são o melhor tema de conversa entre gente que se conhece há pouco tempo. Nesse dia, o Bloco de Esquerda passou a ser, contra a tradição grunha portuguesa, contra as touradas. E eu fiquei mais orgulhoso do meu partido do que nunca, pela coragem tomada. Há dias, à conta de uma fotografia falsa que anda pela Internet, deparei-me novamente com uma coisa que me incomoda deveras - quando aqueles que estão supostamente do meu lado tentam convencer os outros usando da mentira. Quando Saramago ou Miguel Torga descreveram o sofrimento do animal sob o seu ponto de vista fictício, usaram de uma mentira benigna e nobre. Mas quando se apresentam fotografias de um suposto acontecimento que, se alguma vez ocorreu, não foi fotografado, aí, quem se indigna sou eu. A mentira descarada nunca poderá servir de alicerce à mudança das consciências. Ou a verdade fala por si, ou a luta é contaminada pelos mesmos vícios daqueles que já mandam nos destinos do mundo. A fotografia mostra um toureiro sentado em posição de desânimo, como se tivesse sido atacado por um qualquer achaque físico ou psicológico perante um touro, sangrando no dorso, numa atitude não ofensiva. Descobri que a fotografia foi sendo interpretada e reinterpretada por muitos, a ponto de se identificar o toureiro com o colombiano Álvaro Múnera, que se dedica atualmente à defesa dos direitos dos animais e das pessoas incapacitadas, depois de ter sido colhido quase fatalmente na arena, pouco antes de outro amigo seu, também toureiro, ter morrido em situação semelhante. Na verdade, Múnera confessou numa entrevista que por várias vezes tinha ponderado deixar a arte de matar em público. Depois de matar uma novilha grávida e ver o feto morto, vomitou,mas foi convencido de que nojos desses eram para maricas. Foi preciso que a força torturada de um animal o convencesse. A sua história é mais bela e convincente que uma fotografia falsa. Mas uma imagem, mesmo falsa, vende melhor uma ideia; um texto é sempre difícil e ninguém está para isso. É verdade que uma imagem diz mais que mil palavras. Mas cuidado. Pode dizer também aquilo que nunca foi. E, aí, só as palavras resgatam a imagem daquilo que ela não diz.

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publicado por Manuel Anastácio às 13:48
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Melancolia

Melancolia, de Albrecht Dürer


A melancolia não é um estado depressivo. Pode ser ou não. Não é isso que a define. A melancolia é o estado de alma que nos aproxima do peso e do número das coisas. É o estado necessário para a compreensão íntima da música. Uma pessoa que afaste a melancolia nunca será - notam a aliteração? - um melómano, porque não apreende intuitivamente os números e as grandezas - e a música não é mais que grandezas puras em diálogo, onde apenas o timbre se insinua como elemento concreto a contaminar de realidade material um objeto feito de vibrações e de tempo. Enquanto que os estados despreocupados e luminosos nos conduzem à unidade do real, a melancolia conduz à multiplicidade definida de cada instante, como acontecerá a um cego que se orienta, no mundo, guiado pelas dimensões exatas e relações espaciais definidas e de preferência não alteráveis. O melancólico vê em cada acidente do real a excepção, sem desejar sistematizar o mundo em regras mais ou menos constantes e, por isso, evita a ação por lhe faltarem os instrumentos com que poderia redistribuir o real. Para o melancólico, o número é a quantidade contemplável mas alheia a qualquer manipulação ou operação.

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publicado por Manuel Anastácio às 10:59
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Sábado, 26 de Maio de 2012
A better life, a wider public…

O que é que se devia dizer a quem diz que não vai ao cinema, ao teatro, a concertos e outras coisas que tais porque são caros, depois de encontrar as salas de espetáculos gratuitos vazias ou perto disso? Aconteceu ontem no São Mamede. E o filme não era propriamente um produto para intelectuais e outra fauna alternativa. Não. “A Better Life” é um filme que faria chorar as pedras da calçada há uns anos atrás, mesmo não sendo um dramalhão tipo “Love Story”. Hoje, dão-me mais pena as cadeiras vazias que a história que nos é derramada olhos adentro.

 

Quando foi para ver o “Amor de Perdição” de Manoel de Oliveira, com presença do próprio, contavam-se pelos dedos os corajosos que se predispunham a avançar na loucura de quatro horas de filme, e isso é quase compreensível. Mas num filme destes, acessível a qualquer médio consumidor de cinema, a custo zero, é questão para perguntar o que é que se passa de errado. Será, como se diz sempre a falta de divulgação? Tenho as minhas dúvidas.

 

Passem um filme que diga Angelina Jolie, algures e vagamente, na ficha técnica e façam apenas o mínimo essencial de publicidade e vejam a sala a encher-se de comedores de barulhentos rebuçados, à falta de pipocas (sem juízos de valor, que também as como quando as há). E depois digam-me que o Star System é coisa dos anos 40.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:28
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
A Better Life, de Chris Weitz


 

Alexandre Desplat, que tem composto a banda sonora original de filmes de Polanski (como é o caso de Carnage), do último Harry Potter e da saga Twilight , de “Extremamente alto, incrivelmente perto”, de “A Árvore da Vida” de Malick, entre outros filmes bem conhecidos, até de quem não se dedica à cinefilia, vai ter direito, em Guimarães, a um ciclo de filmes mais difíceis de encontrar. O primeiro será este “A Better Life”, sem direito a título em português porque ainda não teve distribuição comercial por estas bandas. No São Mamede, com entrada livre, dia 25, sexta feira, às 21 e 30.

 

Kirk Honeycutt, crítico do Hollywood Reporter, viu nele semelhanças ao “Ladrões de Bicicletas” mas, ao que parece, com menos compromissos políticos e com uma mensagem de esperança. Talvez uma boa dica para o nosso primeiro ministro e a sua teoria das oportunidades que as adversidades trazem consigo. Não sei até que ponto é que esta “esperança” é ou não “realista” tendo em conta as descrições elogiosas ao verossímil trabalho dos atores e da atmosfera social retratada pouco dada a auroras cor-de-rosa, ou vermelhas, mesmo.

 

Melodramático, mas não meloso, dizem, este filme de Chris Weitz (o realizador dos primeiros “American Pie”! – não sei será bom cartão de visita; eu até nem desgosto…) , o filme deu algum protagonismo a Demián Bichir (que entra na série “Erva”), tendo-lhe valido uma nomeação para o Óscar de melhor ator.

 

 

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publicado por Manuel Anastácio às 13:40
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Carnage:O Deus da Carnificina, de Roman Polanski

Definir o cinema de Polanski com os fantasmas que o habitam é um lugar comum. E os lugares comuns são, como o nome diz, espaços partilhados. Há sempre, num filme de Polanski, o olhar daquele realizador que não compreendia a sobreteorização a que eram sujeitos os seus filmes, transformados pelo ócio dos espetadores que se querem sentir espertos, em símbolos freudianos e em elementos sígnicos de semiótica. Polanski sempre quis, apenas, contar histórias, divertir, assustar, preencher o vazio.

Se há algo de insano já nos seus primeiros filmes, a insanidade parental contemporânea parece ser um bom tema de partida. Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly prometem um filme centrado no trabalho dos atores e que explora a riqueza violenta das relações humanas quando o verniz social da polidez estala e ressaltam as paixões pelos pormenores. Que as coisas são assim porque somos na maior parte do tempo aquilo que não somos, pode ser a moral que se adivinha. Mas Polanski sempre foi avesso a morais, pelo que, não conhecendo eu a peça de Yasmina Reza, que dá origem ao filme, posso esperar, do que conheço do resto da obra desta dramaturga, uma crítica bem-humorada dos maus humores que nos tomam sempre que tocam naquilo que julgamos amar. Uma “dramédia” sem grandes preocupações metafísicas.

Amanhã, no São Mamede, às 21 e 30. Sessão do Cineclube, julgo eu… que já não sei destrinçar o que é da responsabilidade do Cineclube e o que é da CEC… mas isso agora não interessa nada.

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publicado por Manuel Anastácio às 01:02
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Terça-feira, 22 de Maio de 2012
O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte

Vencedor da Palma de Ouro em 1962  (tendo vencido a filmes de Antonioni, Satyajit Ray, Bresson entre outros, com um júri presidido por Truffaut!) e nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “O Pagador de Promessas” é um filme de forte conteúdo político, baseado numa peça de Dias Gomes, autor confesso de esquerda, mas que não deixava de ser crítico em relação à apropriação dos sonhos dos simples pelos que se julgam salvadores do (seu) mundo, incluindo, também, os camaradas da reforma agrária.  A fé de Zé do Burro, sincrética e confusa, como qualquer fé, incluindo a dos Santos, segue em direção à Terra de todos eles, em paga da cura do seu melhor amigo (e quem seria ele?) por Iansã, Santa Bárbara, ou como que lhe queiram chamar, para encontrar apenas o caminho do sacrifício.

 

Exemplo magnífico de uma cinematografia tão mal conhecida em Portugal, mas para a qual estamos tão receptivos, como se tem visto ultimamente, pode ser visto amanhã no Cineclube de Guimarães – no São Mamede, ainda na onda quente de Salvador da Bahia, na mesma sala onde ainda há pouco mais de um mês víamos a antestreia de “Capitães da Areia”. Uma oportunidade a não perder, oxente! Entrai no terreiro de alma aberta. Ah, e aproveitem para se fazerem sócios do mais antigo Cineclube de Portugal, já agora.

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publicado por Manuel Anastácio às 00:50
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Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
Alunos I

 

Tristão e Isolda, de Hughes Merle.

 

No primeiro ano em que dei aulas, estava a entregar um teste de matemática a um aluno, do Ensino Especial, e este começou a chorar convulsivamente. Quando corrijo testes nunca reparo no cabeçalho, avalio pelo que é escrito, não por quem o faz ( e tento, sempre que possível, que o Ensino Especial seja o menos especial possível - é discutível, mas ainda ninguém me convenceu a pensar de outra maneira). O aluno chorava, e eu disse-lhe que da próxima faria melhor. Até que uma colega dele disse-me, "Não, stor, é que ele nunca teve um 'Excelente'". Nada sei desse aluno, hoje.

 

Nunca chorei numa última aula, excepto num caso. Uma turma "não excelente", pouco dada a estudar, com problemas de todo o género, mas que se maravilhavam ao descobrir o jogo cama-de-gato, pegando eu, da mão de um aluno distraído, um fio sem destino na vida, estabelecendo-se na sala uma feliz desorganização de miúdos irrequietos, endiabrados e felizes. Um dia, de improviso, pus no quadro, antes do dia dos namorados: "vamos descobrir o par amoroso de... Tristão... Romeu... Abelardo... Adão... Inês... Marie Curie... Heathcliff... Humphrey Bogart... Rick..." - quase todos homens, menos no par Pedro e Inês e Marie e Pierre porque Pedros há muitos, e era vê-los a procurar na net e nas enciclopédias como doidos e descobrindo o nome de Isolda como se lhes caísse o Graal nas mãos. Ninguém descobriu quem era o par do Rick. Lembro-me de um aluno dessa turma, o T***, muito rebelde e indisciplinado (filho de "família" complicada). Pu-lo ao lado da melhor aluna da turma, a C***, muito certinha mas assertiva e que o punha na linha com um olhar apenas. Um dia, descobri escrito no parapeito da janela, onde ele se sentava: "C***, sei que não sou homem para ti, mas és a mulher da minha vida". Ri-me e, a seguir, chorei ao ler aquilo. E chorei e ri, ao deixá-los na última aula, àquelas maravilhas de humanidade, sem vergonha das lágrimas enquanto todos me rodeavam batendo palmas num gesto de amor como há poucos. A única vez em que fiz isso. Nada sei deles agora. Seria tão bom que descobrisse que T*** e C*** eram, hoje, como Humphrey Bogart e Lauren Bacall - o único casal feliz da minha lista. Quem me dera que se sentissem, hoje, como eu.

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publicado por Manuel Anastácio às 20:10
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Obscenidade pedagógica

É um assunto pouco debatido, o do lugar da obscenidade na sala de aula. Seja enquanto situação ofensiva de caráter disciplinar, seja enquanto objeto pedagógico. Uma atividade proposta por um grupo de trabalho do Programa Regional de Educação Sexual em Saúde Escolar propunha que os alunos fizessem uma lista de palavrões. E os professores, escandalizados, ergueram as mãos aos céus. E com alguma razão. Bem podiam chover-lhe processos judiciais em cima à conta disso. Mas o palavrão só é obsceno porque as pessoas o proíbem. A obscenidade é a direta consequência da proibição.

 

Como professor de Ciências, há dias, os alunos tiveram de recolher saliva para estudarem o seu efeito sobre o amido. Os alunos, entre o nojo e o choque da exposição de um ato simples, feito em plenas condições de higiene, assumindo-o como obsceno, rapidamente se libertaram do efeito inicial e aos risos escarninhos rapidamente se sucedeu a indiferença profissional de quem escreve objetivamente sobre um mero fenómeno da Natureza.

 

Fica a nota para que conste. Se alguém me lesse (tirando as 4 ou 5 pessoas do costume), poderia ser útil.

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publicado por Manuel Anastácio às 02:11
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