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Sábado, 30 de Outubro de 2010
XVII

- Estava a falar com o Sousa e, ao contrário do que podia parecer, ele gosta mesmo é de literatura russa do século XIX: Dostoievki, Tolstoi... e ao contrário do que pode parecer, ele não conseguiu passar das primeiras páginas d' "O Capital"...

- Eu também nunca li "O Capital".

- Nem eu. Aliás, nunca o tive, sequer, entre as mãos....

- Eu também não. Mas gostaria...

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publicado por Manuel Anastácio às 02:06
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Manamanah

Uma gargalhada por dia, nem sabe o bem que lhe fazia...

Mas se forem duas gargalhadas, ainda melhor:

publicado por Manuel Anastácio às 14:19
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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
XVI

- Está, com quem estou a falar?

- Com o ratinho de Massamá.

- Ora bem, ligou e ligou bem aqui para o largo-do-rato-rádio, sabe qual é a frase?...

- Se der uma ajuda...

- É "temos..."

- Temos que...

- Não! "Temos de..."

- Não é a mesma coisa?

- Se fosse coisa e não obrigação, desejo ou dever, seria que... mas é de, porque é um desejo...

- Compartilhado...

- Chiu... estamos no ar....

- Ah, pois, eu agora fazia que não concordava contigo.

- Pois. A frase é, então...

- "Temos de..."

- Acalmar...

- "Temos de acalmar..."

- Os...

- Espera, não digas mais, eu sei, eu sei: os mercados! Temos de acalmar os mercados!

- Isso! (música estridente de fundo) E o que é que quer ouvir?

- A Lady Gaga, em Bad Romance...

- Ora muito bem escolhido, ratito, ou será coelho?...

- Tu és rato...

 

publicado por Manuel Anastácio às 23:58
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Na verdade...

... foi o Sócrates que pagou aos jornalistas para aderirem à greve, para que a greve não seja noticiada!... Mais um exemplo da brutal ingerência deste executivo na independência do serviço público de informação.

publicado por Manuel Anastácio às 23:05
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Viagens ao fundo da escada - Travassos, Póvoa de Lanhoso (2): como ao entrar no museu fui assaltado por vozes demoníacas que me queriam afastar da verdadeira fé da indissociabilidade entre a forma e o conteúdo, e como resisti a tais tentações (...)

(...) apenas destinadas a engrossar as fileiras de outras estéticas infernais, em nome do Ouro Nosso Senhor, Ámen

 

Estou eu a entrar no pequeno pátio que ladeia a Casa de Alfena, um belo edifício do século XVIII utilizado actualmente como unidade de Turismo de Habitação, antes de entrar na oficina de ourivesaria, quando um espírito de outro lugar me sussura que estilo e conteúdos são coisas diferentes. Não se trabalham nesta terra os diamantes. As minhotas, desde os tempos castrejos (eventualmente, antes, seriam muito provavelmente os minhotos, mas essa é outra história) usam ouro e não diamantes. Mas os diamantes dão-me o mote para o desenvolvimento daquilo em que penso, ainda antes de entrar no Museu do Ouro, arriscando-me a, tal como duas personagens do Tristram Shandy, levar uma eternidade a descer uma escada - eu demorarei o tempo que for preciso a pagar o ingresso no Museu, já que são os diamantes que agora me ocupam o pensamento. Um diamante e um pedaço de grafite, aquele mineral que está dentro dos vulgares lápis que os meninos levam para a escola, são duas formas do mesmo material. Ambos são constituídos por átomos de carbono. O conteúdo é o mesmo? Não. Um é um diamante, outro é um material de rápido desgaste. O conteúdo não é o mesmo, ainda que a matéria seja a mesma. Aquilo a que chamamos estilo não é mais que a disposição das coisas de modo a produzir um outro conteúdo com uma matéria que, disposta de outra forma, dá outro conteúdo. Posso descrever a minha entrada no Museu do Ouro apenas com as informações típicas de um roteiro turístico e acrescentar o preço dos bilhetes de várias formas. Posso ser sucinto e objectivo. Mas posso também transformar a tabela de preços num poema, se assim me apetecer; ou posso ainda reflectir, a partir do preçário, a respeito das políticas de turismo e de apoio à cultura. O conteúdo é o mesmo? Não. É certo que, ao fazer a crítica do preçário estou a acrescentar matéria à matéria inicial, o que, inevitavelmente dará outro conteúdo. Mas pensemos agora na oficina. O ouro é lá trabalhado e transformado de um corpo amorfo, em primeiro lugar, num fino fio de arame que será a matéria prima da filigrana. Continua a ser a mesma matéria. É o mesmo conteúdo? Não creio. Há uma forma associada que transformou aquele material noutra coisa - com ouro amorfo não se pode fazer filigrana, com o arame fininho, já se pode. A forma deu à mesma matéria uma outra função, uma outra finalidade. O objecto não é o mesmo, logo, o conteúdo também não é. Com o arame pode-se fazer um coração minhoto ou, sabe-se lá, uma flor. A matéria é a mesma - ouro. Pode-se dizer o mesmo do conteúdo? Não. A minha perspectiva é que a forma altera radicalmente o objecto, modificando-lhe o uso e a percepção que dele se tem. A forma, o estilo, é parte do conteúdo. Não é separável. É impossível lermos o mesmo conteúdo com estilos diferentes. Alguém que conte os Lusíadas em forma de narrativa jamais poderá, na minha opinião, dizer que o conteúdo é o mesmo. Note-se, aliás, que aquilo que foi escolhido para ser contado nos Lusíadas, isto é, a matéria prima do que é narrado, esteve sempre dependente da forma poética utilizada pelo autor. A fonte dessa matéria, a mina onde repousam os conceitos, é a história da humanidade, a história de Portugal, a mitologia grega, a ciência da época, e por aí fora. Mas até a escolha da matéria foi condicionada pela forma. Ao falar da Lua, o poeta diz "com três rostos, debaixo vai Diana". Se dissesse que o astro que se seguia era Lua, que apresenta quatro fases (uma das quais não é visível) - o conteúdo não era o mesmo, ainda que a matéria fosse, parcialmente, a mesma. É que para dar o verso pretendido, o poeta foi buscar uma pepita de outro metal a outra mina: à da mitologia romana, enquanto que, em linguagem escorreita e sem artifícios poéticos, cingindo-se à descrição astronómica, a Lua jamais seria identificada com a deusa da caça. A forma, o estilo, transformou a mesma mensagem de base num conteúdo diferente, num objecto diferente. É a diferença entre uma jóia e um pedaço de carvão, tenha sido a Natureza ou o homem a dispor as coisas num ou noutro sentido. Mesmo que consideremos que o conteúdo é o assunto, ficamos na dúvida com tal palavra. O que é o assunto: o metal usado ou a mina de onde vem? Na minha perspectiva, é a mina. E ao lermos algo que trata do mesmo assunto em estilos diferentes estaremos a ler conteúdos diferentes, ainda que os referentes sejam próximos. A mina de onde saiu o ouro para fazer o colar da Academia pode muito bem ter dado o ouro para fazer o coração em filigrana que está no piso superior do museu onde vou entrar ou a talha dourada de uma igreja que visitarei um dia destes, mas o conteúdo não é o mesmo. Aliás: nem a matéria, que apenas pertence à mesma classe de coisas. Mas quem fala de palavras tem sempre pano para mangas, mas com o qual se poderá também fazer colarinhos - o mesmo tipo de matéria, conteúdos diferentes. Mas, em pleno Vale do Ave, a indústria têxtil terá de ficar para outra altura. A literatura de viagens só não é literatura quando dispõe as pepitas sem as transformar em filigrana. O autor de um livro de viagens pode ser um simples garimpeiro, claro, mas há quem tenha o toque de arrancar jóias perfeitas dos caminhos que trilha. Aliás: todos os livros são livros de viagens, bem vistas as coisas.

Coração minhoto de filigrana. Museu do Ouro, Travassos, Póvoa de Lanhoso. Foto de Luís Santos.

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publicado por Manuel Anastácio às 22:18
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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Viagens ao fundo da escada - Travassos, Póvoa de Lanhoso (1)

Não há metal mais mal gasto nem menos gasto que o ouro. No Brasil, a expressão "lavar a égua" significa ter grande proveito em qualquer actividade que se empreenda. Na zona de Minas Gerais, conta Joaquim Magalhães de Castro num livrinho de viagens que ganhei de graça num passatempo promovido pela sua editora, os mineiros eram obrigados a rapar o cabelo e a sairem nus das minas de ouro, não fossem eles levar alguns gramas de pepitas de ouro nas pilosidades naturais ou artificiais anexas ao templo da sua alma. Acontece que as éguas, coitadinhas, não precisavam de ser rapadas, pelo que havia sempre a possibilidade de, entre a pilosidade da pileca, passarem algumas poeiras áureas. Aquele que ficasse incumbido de lavar a égua tinha, por consequência, a possibilidade de recolher a água que dela escorresse e, dessa água e parca lama, extrair as microscópicas migalhas de ouro, também chamadas de pepitas e que não são mais que pequenas escamas de caspa do nosso planeta, que já deve ter amaldiçoado a hora ou o século em que tal matéria nele surdiu a imitação da cor do sol. As pepitas do tamanho de nozes, que os livros do Patinhas, da Editora Morumbi, nos impingiam não existem na realidade. Para fazer a magrinha aliança que tenho na mão direita, muita poeira teve de ser dissolvida no venenoso mercúrio, prenúncio do venenoso caminho que o ouro seguirá, daí para a frente. Seja na talha dourada que nos conforta a fé ou o simples deleite visual, seja no colar da Imortalidade com que a minha querida amiga Gláucia Lemos foi recentemente e merecidamente honrada, há um todo caminho de dor, de cobiça e de inevitável desgraça. Da mesma forma, quando me extasio perante uma pedra ricamente lavrada ao modo flamejante da arquitectura gótica, ou perante a obra de arte, tosca, do granito escavado de uma igreja românica, sei que me extasio perante a dor de quem a lavrou com os dedos em sangue. Há nas coisas belas, sempre, um abismo de dor. Não me conformo com isso. Beleza haverá sempre nos gestos, nos sons e nas palavras com que gravaremos sempre a dor de existir. Pior é, e será, se nos conformarmos com a dor daqueles que dão à luz a beleza que os seus próprios olhos jamais conseguirão distinguir da narcótica beleza da bebedeira com que se disfarça a insuportável obrigação de manter a vida para o gáudio de outros. Sei que jamais poderei viajar fazendo disso a minha vida. Mas ao ler o livro do Joaquim Magalhães de Castro "No Mundo das Maravilhas", em que este se limita a cumprir um roteiro quase turístico (ainda que com alguns percalços de aventureiro pelo meio) pelas Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, senti-me tão desencantado como a Gerana, acérrima detractora deste género de não-literatura. É que, de facto, os livros de viagens não são literatura. São relatos para aqueles que não poderão fazer o mesmo, criando uma sensação que substitui a experiência de uma viagem de facto, ao permitir ao viajante de sofá a inserção de pormenores contextuais no seu imaginário. É um tipo de ersatz, tal como a verdadeira literatura, mas com uma função diversa. Ambas as formas de escrita são subjectivas, não é aí que reside a diferença. A literatura serve-nos a realidade condensada em algo que, ao visar o transcendente ou o sublime (inalcançáveis, a não ser a um nível íntimo e intransmissível) nos liga à vida ou a possíveis sentidos para a vida, seja por via do absurdo, da alegoria ou da apologia, seja na forma de poesia ou ficção, seja ao nível de um romance proustiano seja à superfície da turva qualidade de um romance de Danielle Steel, seja na clara e imediata mensagem de uma quadra de António Aleixo, seja nos enigmas órficos de Herberto Hélder. Isso é literatura, tal como as viagens de Alice no País das Maravilhas ou as viagens de Gulliver (maus exemplos, já que ambos tratam de viagens imaginárias). A Gerana chama-lhe estilo. Eu chamo-lhe conteúdo. A literatura de viajens não é literatura porque se limita a contar coisas e a tapar buracos naquilo que poderemos saber a partir das enciclopédias e livros de História e Geografia. Tapar buracos? Claro. É que se no Google e na estante podemos passar de Ouro Preto para a Bahia de Todos os Santos sem grandes percalços, na realidade temos os transportes ou a falta deles e as pessoas que se cruzam connosco pelo caminho. Muito do que melhor se lê na literatura de viagens reside nestas conversas com aqueles que nos preenchem os buracos vazios do percurso. Só aí reside um relance de literatura. Na parte que existe apenas por arrasto. Na parte do caminho. A literatura de viagens acaba, assim, por nos reconciliar com o caminho e desvalorizar as metas. Não sendo literatura é, paradoxalmente, capaz do mesmo efeito que a literatura que se lê. Que se escava. A literatura que nos permite viajar por nós mesmos em vez de lavarmos a égua daquele que viajou por nós, na esperança de ficarmos com um grão de poeira da cor do milho. Hoje pensei em começar uma viagem imaginária por caminhos que pisei e por caminhos que não pisei, juntando pessoas que conheci com pessoas que inventarei. E não me perguntem quem existe e quem não. A Natacha do Guerra e Paz sempre existiu, tal como a Blimunda, que Deus as tenha connosco. Estou frente ao Museu do  Ouro em Travassos, Póvoa de Lanhoso, Braga, Portugal. Pronto para lavar a égua a partir do Aleph, logo abaixo das escadas que dão para a cave. Tinha de começar pelo ouro. Aquele que nos torna invisíveis, poderosos, imortais, belos, soberbos, magnânimos, cultos, bondosos, sábios, perfeitos. Lendários. Como num conto infantil que a Gláucia poderá um dia escrever, como sugeriu no seu discurso de posse da cadeira número catorze da Academia de Letras da Bahia, seguindo as pegadas de Tolkien e de Wagner (não na Academia, claro, mas no caminho dourado e mágico do metal onde dorme em pesadelos de grandeza grande parte da desgraçada humanidade).

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publicado por Manuel Anastácio às 21:14
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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
Fábulas de Esopo: O Rato do Campo e o Rato da Cidade

Gravura de Václav Hollar (1607-1677), O Rato do Campo e o Rato da Cidade.

Está na hora de contar a história daquele rato que se viu a visitar outro da ninhada nato da sua tia da aldeia. Era humilde no trato, o primo da mesma veia, que só pôde oferecer algumas papas de aveia
que logrou enriquecer com pedaços de toucinho, mais o sal do bem-querer e alguns gestos de carinho.
Disse então o da cidade,
Estendendo o seu focinho
Cheio de urbana vaidade
Para o seu rústico primo:
"Vejo que a necessidade
Não permite qualquer mimo
Na hora de aqui jantar.
Mas enquanto a bucha ultimo -
Que bucha posso chamar
A tão pobrezinha ceia -
Posso-te adiantar
Que isto é coisa de aldeia.
A cidade é outra louça.
Assim que lá faças estreia,
Deixas por completo a bouça
E nem vais acreditar
Que esta sorte que balouça
Entre nada para jantar
E este pouco mais qu' isso
Um dia foi teu azar.
Saiu então do cortiço,
O aldeão esperançado
De abandonar tal enguiço.
E foi bem esfomeado
Que à metrópole chegou.
E foi, então, de bom grado,
Que o primo o presenteou,
Sem nada ter preparado,
Com um manjar que o espantou.
Levou-o a uma grande sala
Onde os restos eram pitéu:
Quase ficou sem fala
Com esta visão do céu.
E põe-se a comer à pala
E a fazer grande escarcéu
Em volta de sobremesas,
Entradas e aperitivos.
Tinham baixo as defesas,
Absortos nos atractivos
Doces restos sobre as mesas,
Quando, ante os agressivos
Sons que ouviram de outro lado,
Demoraram a fugir
Vendo o coiro ameaçado.
"O que é que estou a ouvir?"
Diz o rústico assustado.
"São só guardas a acudir
Ao que de nosso não era...
São cães, gatos ou o que é...
Mas são, decerto, uma fera.
O que interessa é dar ao pé
E não ficares à espera
Quando deles deres fé."
"É só isso, nada mais?
Estou muito mais descansado!
Eu cá, vou pr'ós abrunhais
Ou pra outro descampado.
Aqui não me apanhas mais.
Antes livre que amarrado."

(Versão de Manuel Anastácio)
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publicado por Manuel Anastácio às 20:47
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Domingo, 17 de Outubro de 2010
O Coelho das passas

No século XVII, Georg Franck von Frankenau (1643 - 1704), era autor, nas suas sátiras médicas, da primeira referência escrita ao Coelho da Páscoa.

Georg Franck von Frankenau (1643 - 1704)


 

As Sátiras Médicas de Frankenau têm este nome, não porque fossem sátiras no sentido mais vulgar dado ao termo, mas porque se incluem no contexto de produção bibliográfica da altura, muito empenhada em coligir fenómenos maravilhosos (mirabilia), muitos dos quais sem qualquer explicação e que, bem vistas as coisas, pouco vieram a acrescentar ao conhecimento humano, a não ser pelo lado anedótico, mais afim à cultura popular que à cultura científica. Desde supostos benefícios em comer vidro, até casos duvidosos de glossolalia, Frankenau vai juntando tudo no mesmo saco de uma literatura eclética saturada de curiosidades que, por vezes, se estendem a territórios de um vago erotismo. Daí o termo Sátira, segundo as palavras do próprio Frankenau: do latim satur, cheio, saturado ou,  também do latim Satura, que significa miscelânia ou, ainda, e alternativamente, em referência à obscenidade dos Sátiros ou ao substantivo grego sathê, que se referiria ao órgão sexual masculino. Não há intenção crítica, portanto, nestas Sátiras, rapsódias ou simples dissertações para gozo do espírito nas coisas raras ou exóticas do mundo. Infelizmente, não tenho acesso ao texto original, Satyrae Medicae, Continuatio XVIII: Disputatione ordinaria lisguinas de Ovis Paschalibus von Oster-Eyern , de 1682, onde o autor disserta sobre os efeitos nefastos do consumo exagerado de ovos da páscoa trazidos pela Osterhase, ou lebre da Páscoa, pelo que muitas dúvidas que tenho quanto ao teor do dito texto não poderão aqui ser cabalmente esclarecidas.

 

Independentemente do que diz este autor seminal do mito popular, sempre me pareceu óbvio que a ideia de pôr um mamífero a pôr ovos se deve à forma das fezes do mesmo, de forma esférica a oval, e não a qualquer simbologia onde se cruzaria o coelho como atributo de fertilidade e o ovo como símbolo da ressurreição. Trata-se de imaginar um coelho a pôr ovos, e isso é suficientemente ridículo para se saber que existe, na ideia original, muito da proverbial malandrice do povo. Na cultura popular há, ainda, a tendência para associar as fezes de diversos animais aos frutos secos, nomeadamente as castanhas e as passas, em expressões como "castanhas: um burro as caga, tu as apanhas" ou "passa seca", para designar qualquer tipo de caganita.

 

Lembrei-me de falar disto apenas porque, em plena época outonal no hemisfério norte, deu-se o nascimento, em Portugal, da figura tutelar e salvífica do Coelho das Passas, capaz do prodígio da postura de ovos fecais que o povo colecciona com particular devoção e devora com especial apetite. Frankenau, defensor da ingestão de pedaços de vidro, mas sábio defensor da temperança no que diz respeito ao consumo de ovos leporinos, ficaria, com certeza, enojado com tão asqueroso hábito de um povo que parece saído de um qualquer álbum de curiosidades do século XVI, ao lado dos antropófagos bicéfalos da Nova Guiné. Fica aqui o registo de tão invulgar e absurdo costume, esperando que me seja dado o crédito futuro de ter sido o primeiro autor desta notícia que, dado o efeito narcótico e alucinogénico dos ditos ovos, não é notado pelos próprios adeptos de tal dieta.

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publicado por Manuel Anastácio às 17:56
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Sábado, 16 de Outubro de 2010
Modelos de Construcción del Objeto, Erick Beltrán, 2010

Carregar na imagem para ver em pormenor.

 

Quando estava a estudar para exercer a profissão que hoje vou aprendendo a exercer, eram os meus colegas frequentemente assaltados pelo medo das perguntas dos alunos para as quais não tivessem resposta. Eu, pelo contrário, nunca tive pejo (antes pelo contrário, tenho muito gosto) em dizer que não sei aquilo que não sei, seja sobre o animal, real ou imaginário, que o menino viu ontem numa macacada, seja sobre aquelas coisas que se interpõem entre a visão científica cumpridora dos paradigmas aceites pela comunidade dos que estudam os objectos, e a visão sonâmbula dos conceitos criados por um povo criativo mas limitado, nos ciclos e repetições poéticas de um mundo que não entendem. A Ciência é prosa e invenção. O sonho é poesia e repetição. Parafraseio, agora, uma frase em resposta à Maria Helena numa das resenhas dedicadas à Gláucia. Há coisas que não sei. E não invejo a Deus o saber tudo, se é que sabe. A ignorância é o campo onde a alma se estende, aquecendo-se em raios de sabedoria, mas não inflamando-se nela. Os estados místicos de êxtase teresianos, que não são mais que estados de consciência alterados, dão a sensação de que, num breve momento, tudo se compreende. E por alguma razão são tão passageiros e dão lugar a uma ressaca mística. Não somos lenha para tal fogueira.

 

Ora, a Gláucia pegou numa fotografia minha exposta no Facebook, onde apareço frente a um gráfico misterioso, e perguntou o que era. Um gráfico onde eu, com a cabecinha mesmo no centro dos círculos, aparecia aureolado de conceitos zumbindo como melgas. Zumbem de facto, estes conceitos, e outros. De forma confusa, em atropelo, e não organizadinhos segundo eixos de orientação bem definida como no caso desta obra de arte de Erick Beltrán, exposta no MUSAC, Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão, onde me tiraram a fotografia. Beltrán é um artista mexicano, nascido em 1974 e radicado em Barcelona, que transforma conceitos e as suas relações em obras gráficas, diagramas e infogramas que ascendem ao lugar de obra de arte tanto pelo seu conteúdo estético como pelo seu conteúdo informativo real, textual e, apesar de não especializado, tendente à objectividade. Por alguma razão é o objecto o conceito gerador do gráfico em questão.

 

A Arte Contemporânea centrou a autoria da obra de arte no indivíduo, espoliando-a (algo hipocritamente) ao artista que parece imolar a sua individualidade e o seu talento à capacidade dos outros em pensar aquilo a que se nega a fazer. Tem-se arte quando há alguém disposto a atribuir esse significado (e valor) artístico ao objecto criado, escolhido ou eleito. Neste gráfico, ainda que seja o objecto o centro, o todo é o indivíduo. Em contraste com a utilização dos conceitos num contexto poético, Beltrán expõe-os de forma sistemática, de acordo com critérios lógicos e estabelecimento de dicotomias quase objectivas, não fossem elas relativas a um ser humano cuja perspectiva jamais poderá ser objectiva porque está toldada pela inevitável ignorância que, mais que aquilo que sabemos, nos guia os passos. Confrontado com uma situação para a qual não se tem uma resposta objectiva e mecanizada, o ser humano é obrigado a distorcer a realidade de forma a conformá-la aos seus eixos de entendimento. Caso não o faça, entra na angústia da incapacidade de decidir. Um processo de decisão é sempre uma escolha feita pela emoção ao confrontar o nosso quadro mental ao quadro objectivo que nos coloca o problema.

 

Beltrán é o enciclopedista das perspectivas individuais. Ao analisar e confrontar a posição específica de cada um dos conceitos expostos no quadro referido, serão muitas as vezes em que eu mesmo seria tentado a mudá-los de sítio. Aquele não é o meu modelo de pensamento. Ao contrário do modelo das coisas materiais físico-químicas, para as quais, dentro de um paradigma científico, se pode chegar a um consenso, as perspectivas individuais são mais distintas que as nossas impressões digitais. O Homem Duplicado de José Saramago, por exemplo, pegou na questão da identidade pelo lado errado - não é a forma exterior, mas a interior, que nos identifica. E o professor de História e actor, sendo iguaizinhos, em nada eram iguais, e em nada se sobrepunham, em nada havia a motivação para a exclusão obrigatória do outro a não ser a inveja e a oportunidade de ocupar o lugar do outro. É um mau exemplo, ainda que o exemplo do professor de História de Saramago possa ser repescado por outra razão. Saramago apresenta o professor como defensor de uma extravagância pedagógica original: a de que a história deveria ser contada ao contrário, do presente para o passado mais remoto. Ora, ao contrário do que Saramago pressupõe, esta tese é popular nos meios pedagógicos há muito tempo e é aplicada frequentemente. É a noção de que se deve avançar, na construção do conhecimento, a partir daquilo que é conhecido ou de acesso imediato, em direcção ao que  mais se afasta da experiência quotidiana. Foi assim, aliás, que, bem visto, se criou a própria história. Ora, da mesma forma, a partir dos anos sessenta, anos de origem da actual inominada Arte Contemporânea, há no círculo dos historiadores a tese de que, em vez de se partir das grandes estruturas políticas, económicas, sociais e culturais (o macro), há que fazer o caminho inverso, partindo do que, mísero e mesquinho, lançará alguma luz a um novo caminho. E, na verdade, pululam agora as histórias sobre as coisas pequenas e, a partir desta nova história muitas respostas se foram iluminando e muitas questões se foram reformulando. Beltrán é outro cronista do mundo individual. É um retratista de ideias no seu meio natural: a cabeça de cada um.

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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
Eternidade

Van Gogh, Noite estrelada

 

Se Amor te vier despertar,
Sem setas, sem asas, numa leve corrente de ar,
Continua a dormir.
Quando se apresentar,
Cobrindo-te os seios em flor
Em néctar
dorido, em nocturno odor,
Aspira-os como se fosses mar,
E continua a dormir.
Que o Amor, tal como o fogo, é assim,
Feito de luz aberta à escuridão.
Sussurra entre os lábios que és um não
E escreve com os dedos que és um sim.
E continua a dormir.
Se ele, o Amor, te vier raptar,
Imita o mar. E segue até afundar
No mais fundo infernal dos leitos.
E, havendo espaço entre dois peitos,
Acorda apenas para as carícias
De certas delícias de quem, como tu,
Descobrindo-se nu, se aconchegou ao pecado
Do clarão velado das lanternas a que chamam estrelas.
Essas, que, eternas, sem sê-las,
Assim se fixaram no firmamento,
Alheias à morte e ao pensamento.
Sossegadamente, assim, a dormir...
E há quem diga que a sorrir.
Como tu.

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