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Quinta-feira, 25 de Março de 2010
A violência nos filmes de John Ford era verde, como o vale...

Nesta cena de "O Vale era Verde", de John Ford (o maior realizador de cinema de sempre, e um dos melhores contadores de histórias de sempre), o bullying, que ainda não tinha esse nome nessa altura, é abordado de um ponto de vista algo condescendente, ainda que possa reter algumas ideias sábias. Condescendente é pensar que o acto de andar à porrada é potenciador da cumplicidade masculina. Isso já acontece em "O Homem tranquilo", outro grande filme de Ford, onde dois homens, depois de se escavacarem, estabelecem um pacto de tréguas selado na taberna. Há aqui uma moral absolutamente fora de moda que concerne aos estereótipos da masculinidade - e note-se que o fenómeno do bullying é também típico do sexo feminino (de uma forma mais subterrânea mas frequentemente causadora de maior sofrimento que a mera violência física, típica dos rapazes). Lembro-me de um agressor que tira partido (e prazer sádico) da fraqueza das vítimas num filme de Ford: Liberty Valence. Num mundo sem lei, Liberty é o legislador. As vítimas, desejando a instauração da lei, são obrigadas a responder contra Liberty Valence nos termos da sua própria lei, através da violência e do homicídio, para poderem instaurar, finalmente, o estado de direito. Numa escola onde não há lei (ou há, mas cuja aplicação prática se resume à inacção), nada mais resta às vítimas senão aceitar a lei do agressor. Com uma diferença, em relação ao filme: o estado de direito não será instaurado.

 

Mas, deste filme, e desta cena em particular, fica a atitude do pai que paga ao filho por cada nódoa negra e por cada ferida que trouxer da escola, enquanto que a mãe prega as virtudes da não-violência. Nisto, Ford (através do pai) tem razão. Fugir às feridas é semeá-las.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:30
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Grandes parvoíces I

“Os professores não sabem como lidar com o problema. Quando ocorre, muitas vezes não sabem detectar se é bullying ou uma agressão ocasional” diz uma professora de uma escola do concelho da Covilhã, a respeito do Bullying.

 

Gostava de saber quem é que sabe lidar com o problema. Os psicólogos e sociólogos é que não sabem, de certeza. Andam mais preocupados em definir claramente o que é que é bullying e o que é, "apenas" uma surra valente dada por um grunho a outro miúdo mais fraco que não lhe fez nada a não ser... não fazer nada. Não há nada que mais dê gozo aos valentões que encontrar uma vítima que age de forma passiva.

 

Jamais diria a um filho meu que desse a outra face. Eu fi-lo. Não me orgulho de o ter feito.

publicado por Manuel Anastácio às 23:12
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Grandes verdades I

A resistência passiva só funciona se houver câmaras de televisão por perto... ou um telemóvel. Afinal, há o Youtube.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:07
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Segunda-feira, 22 de Março de 2010
Para quê saber a verdade? É muito mais importante que as histórias sejam interessantes que verdadeiras. Concorda?

 "Across The Universe," por Fiona Apple (letra de John Lennon), banda sonora do filme Pleasantville.

 

Tudo o que é interessante é, sempre, uma forma transfigurada de verdade. Uma história torna-se aborrecida quando lhe falta verdade. Não interessa, contudo, tanto saber a verdade, mas reconhecer a verdade. Um físico reconhece a verdade da equação pela sua beleza, pelo equilíbrio que comporta. Pode-se argumentar que quem conta uma história verídica de forma objectiva aborrece os seus ouvintes e que é preferível contá-la deturpando pormenores ou mesmo o seu conjunto, introduzindo a fantasia como elemento potenciador do interesse. Interesse esse que se confunde com a atenção dada à narrativa, ao envolvimento emocional do leitor perante aquilo que lê. Isso não é obrigatoriamente verdade. Há apenas formas diferentes de contar a mesma história, de acordo com a predisposição do ouvinte e de acordo com o seu substracto intelectual e emocional. Uma história contada objectivamente, extirpada de quaisquer intromissões da fantasia é tão interessante para o público capaz de a decodificar e capaz de avaliar a sua beleza intrínseca, quanto enfadonha para quem não está em posição de compreender o alcance da história e a luz que esta espalha sobre determinada região até então obscura desta imensa escuridão que é a realidade. Acontece que considero que tudo aquilo que é feito com verdade, seja verdade racional (lógica e matemática), seja verdade emocional (poética) lança sempre alguma luz sobre algum aspecto da realidade. Se não lança, a história torna-se desinteressante. Desinteressante porque não corresponde ao meu interesse. O capitalista que analisa as tendências do mercado move-se num conjunto de informações, ou histórias que nem sempre são verdadeiras; a contra-informação é interessante, neste sentido, apenas para quem a faz correr, de acordo com os seus interesses; quem está, contudo, dependente da correcta identificação do que é verdade, para bem do investimento do seu capital, atribuirá valor diferencial às histórias, de acordo com o interesse das mesmas para o sucesso do seu negócio. Há aqui também o valor da verdade – não o valor daquilo que é, independentemente da vontade ou interesse do indivíduo – mas o valor daquilo que é construído como sendo a verdade, de acordo com os interesses do investidor. Ora, com o poeta, com o esteta, com o filósofo ou com o contador de histórias, há também uma verdade que é construída e que depende sempre dos interesses que este comunga, ou finge comungar, com o seu leitor. O escritor místico deturpará algumas das mais lógicas conclusões ditadas pela sua lucidez de acordo com os interesses da sua consciência, comprometida numa determinada relação e num determinado investimento amoroso para com a ideia de Deus que, a dada altura da sua vida, adoptou. Contudo, qualquer deturpação, neste sentido, jamais deverá ser considerada como uma mentira, mas como a moldagem do pensamento desviante às formas do paradigma escolhido como imagem ideal da verdade. E para esse leitor, é interessante aquilo que, parecendo fazer perigar a integridade das suas convicções, a elas retorna. O interesse de qualquer história reside sempre no retorno ao ideal com que se descreve e representa a vida (enquanto parte translúcida da realidade que, também, engloba a opacidade da morte). É por isso que a parábola do filho pródigo será, sempre, a mais irredutível forma de uma história – o resto consistirá em florear a errância e o retorno com elementos digeríveis da verdade e realidade de cada um. O interesse que algo suscita depende da sua capacidade de assimilação às nossas estruturas mentais que, por sua vez, são sempre formas particulares de verdade. O que não significa que não exista uma verdade que transcenda todas as verdades particulares. Essa verdade é incognoscível na sua totalidade e até a Ciência, na sua demanda de objectividade, estará sempre condicionada pelas estruturas que dão uma forma a priori à realidade – por isso, até para os fazedores de Ciência, só será interessante aquilo que se adequa ao ideal de verdade que se procura. Mas também, quando nos deixamos envolver numa história desligada da realidade mensurável da verdade científica e cartesiana, seja na história do “Gato das Botas”, seja na “Alice no País das Maravilhas”, seja na “Metamorfose” de Kafka, é sempre à verdade da moral, do quotidiano e do sentido da vida que se volta no final. Nada nos interessará se não nos fizer voltar àquilo que estamos dispostos a admitir como verdade.

 

Para me deixar outras perguntas, a que tentarei responder com verdade, vá aqui.

 

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publicado por Manuel Anastácio às 00:09
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Sábado, 20 de Março de 2010
Faça lá um poema, ou, então, copie

O Dia Mundial da Poesia vai ser comemorado amanhã no Centro Cultural de Belém com a presença das ministras da Cultura, Gabriela Canavilhas, e da Educação, Isabel Alçada e, entre as actividades previstas, para além de uma maratona a ler Fernando Pessoa, serão entregues os prémios de um concurso escolar, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, de seu nome "Faça lá um poema". Até aqui, tudo bem.

 

No regulamento do concurso é dito, entre outras coisas, que:

9. Os trabalhos serão avaliados por um júri de cinco elementos, designados pelo CCB e pelo PNL. O júri terá em conta a correcção da escrita, a riqueza de conteúdo e a originalidade do tema e da linguagem
10. Não haverá recurso das decisões do júri.

 

Há uma certa tendência, nas pessoas íntegras, para acreditarem nos regulamentos dos concursos. Mas sabemos bem que, em geral, os critérios utilizados pelos júris em Portugal são inescrutáveis, se acreditarmos nas suas boas intenções.

 

Ora, o poema que foi indicado como vencedor (1.º Prémio) do 1.º Ciclo, reza assim:

Eu quero ser tudo:
Arquitecta e aviadora,
Actriz de cinema mudo,
Médica ou domadora.


Super-heroína e marinheira,
Alpinista e professora,
Empregada e enfermeira,
Pirata ou engenheira.


Também quero ser escritora,
Polícia, com ou sem multa,
Mas o que eu quero mesmo ser
É uma feliz adulta.

 

 

Vou ter a discrição de não dizer o nome da autora deste poema, porque é uma criança, e a situação que me incomoda não se prende com a honestidade desta criança, mas com a competência do júri e/ou, sabe-se lá, com a honestidade intelectual dos professores que decidiram submeter este poema ao concurso. Está na hora de vos apresentar um outro poema, de José Jorge Letria, que integra um manual escolar do 4.º ano de escolaridade :

 

Eu cá quero ser tudo
Futebolista e arquitecto
Actor de cinema mudo
É preciso é que dê certo.

No fundo o que eu quero
É ser grande e bem depressa
Porque isto de crescer
Não pode ser só conversa.

Quero ser grande em altura
Sem ter projecto nenhum
E quem sabe se hei-de ser
Piloto de Fórmula Um?

Também quero ser marinheiro,
Alpinista e domador
Herói de banda desenhada,
Pirata e aviador.

Quero ser de tudo um pouco
Pois tenho imaginação
Para acreditar que acordo
Com o mundo na palma da mão.

No fundo, quando eu for grande
Sem que isso seja um insulto
O que eu acho que vou ser
Afinal é mesmo adulto.

 

As semelhanças entre os dois poemas são confrangedoras. É particularmente credível imaginar uma criança dizer que quer ser "actriz de cinema mudo" - tão credível que aposto que se lhe perguntasse o que é que é isso de cinema mudo, a menina deveria, provavelmente, fazer um esgar de espanto por tal pergunta já que, provavelmente, nunca pensou nisso. A menina que amanhã irá receber o prémio da mão da Ministra da Educação receberá, também, a excelente lição de que estamos num país onde papaguear, seguir, imitar e plagiar é condecorável. Todos sabemos que vivemos numa cultura de mediocridade, mas há algo em mim, algo que eu devia extirpar pela raiz, caso contrário ficarei com o sangue envenenado à medida que for envelhecendo, que me faz acreditar que não devemos abdicar da luta pela honestidade. E penso que a escola deve ensinar os alunos a não fazerem plágios e a valorizar a originalidade dos seus trabalhos, mesmo que, assim, a qualidade dos textos caia a pique. Ninguém espere sonetos de Camões da mão de uma criança do 4.º ano de escolaridade. Mas seria dignificante esperar que o júri, das duas, uma: ou respeitasse o regulamento e tivesse tido em conta o critério da originalidade (o que implicaria o simples trabalho de casa de dar uma vista de olhos nos poemas a que as crianças têm acesso, ou seja, geralmente, aos que aparecem no manual) ou, então, que quem concebeu o regulamento previsse a hipótese de haver recurso das decisões do júri. Graças a Deus que podemos dizer que o poema não é, palavra por palavra, um plágio, mas, tendo em conta o mérito dos alunos que ficaram com o segundo e terceiro prémio, creio que se devia valorizar o esforço de alguém que tentou acrescentar algo ao mundo e não apenas fazer fotocópias borradas. O bonito da coisa é que o autor do poema quase plagiado (eu retiraria o "quase", mas vou dar o desconto), José Jorge Letria fará parte das comemorações no CCB. Não faço ideia se o mesmo fazia parte do júri que atribuiu os prémios, o que teria a sua graça (o mestre a premiar a discípula?), mas acreditando que está alheio à coisa, espero que não haja escândalo durante a cerimónia. O mal está feito, o júri que pague um almoço ao Letria e fiquemos todos de boca calada, que daqui a uns meses ninguém mais fala ou pensa no assunto. A não ser, claro, uma criança que verá premiada a sua preguiça mental.

 

Finalmente, vou homenagear as crianças que se esforçaram e que terão o sabor azedo dos lugares secundários do pódio, até porque não tenho dúvidas de que já se aperceberam da injustiça. E homenageio-os com a publicação dos seus poemas, com a devida identificação do AUTOR.


Fernando Pessoa
I
Era poeta e escritor
Por quem a gente se afeiçoa
Escreveu poemas para crianças
Chama-se Fernando Pessoa.
I I
Era uma figura engraçada
Pequeno e muito magrinho
Parecia um pequeno triângulo
O seu pequeno bigodinho.
I I I
Na cabeça tinha um chapéu
Os óculos eram redondos.
Usava um casaco comprido,
Que lhe cobria os seus ombros.

 

Beatriz Neves de Carvalho

EB1 de Lombo d’ Égua

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Se eu fosse um lápis…

 

Se eu fosse um lápis
Nas tuas mãos a rodar,
Desenhava o teu rosto
Com um belo olhar.
Se eu fosse um lápis
Desenhava a lua e o mar,
E no imenso céu
As estrelinhas a brilhar.
Se eu fosse um lápis
Pintava rosas, cravos e jasmim,
E com lindas cores
Faria um belo jardim.
Se eu fosse um lápis
Desenhava um balão,
Para andar sempre
No calor da tua mão.

 

Leonor Brito Barata

EB1 TÍLIAS – Agrupamento de Escolas Serra
da Gardunha

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publicado por Manuel Anastácio às 17:16
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Quarta-feira, 17 de Março de 2010
Da lei e das palavras

Ao contrário de muitos esquerdistas radicais (e eu sou um esquerdista radical - sou de esquerda porque defendo a dignidade de todos os seres humanos e não apenas daqueles que tiveram sorte na vida - e isso inclui aqueles que tiveram a sorte de nascer com talento para explorar os outros mais burrinhos e, assim, subir na vida - e sou radical nisso porque não poderia ser de outra maneira, ser morno é ser vómito, já dizia o Espírito Santo através do cálamo de São João Evangelista em Patmos), eu não considero que o casamento entre pessoas do mesmo sexo tenha de se chamar casamento. Eu gosto demasiado das palavras para as usar em discussões infrutíferas. Se para muitas pessoas a palavra "casamento" quer dizer "unir uma pessoa que tem um pénis com uma pessoa que tem uma vagina" (independentemente de terem ou não testículos ou ovários, para não entrarmos em pormenores anatómicos que nos poria a discutir vida fora o que é ser de um sexo ou de outro, e obrigaria a todos os candidatos ao casamento a passar por testes de ADN para verificar se tinham mesmo cromossomas XX ou XY, o que por sua vez seria óptimo para a Ciência, já que se descobriria que existem também cromossomas Z e, quiçá, pessoal YY por via da mutação de um X ovular, sabe-se lá...), a verdade é que casamento pode querer dizer muita coisa. Há quem esteja casado com o trabalho. Há quem esteja casado com a galdeirice. Enfim, casamentos no abstracto há muitos. Mas, depois de algumas (poucas) pessoas andarem já a cantar loas à modernidade portuguesa de permitir o casamento de pessoas do mesmo sexo (não falo de casamento gay porque atribuir uma orientação sexual a um contrato social como é o casamento parece-me algo ridículo), lá aparece o tipo do bolo rei a levar a lei para o Tribunal Constitucional. É então que aparece uma ave rara e de cérebro residual, chamada Jorge Miranda, constitucionalista que diz pérolas tão redondinhas como "Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar1 com pessoas do mesmo sexo"... O extraordinário é a notícia, onde li isto, não dizer que o senhor estava na galhofa. Claro que já conhecemos a história do Nelo e da Idália, mas agradecemos a ressalva. Provavelmente muitos de nós andam distraídos. Ora, esse senhor, constitucionalista, diz que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é anticonstitucional. Ora, eu não sou constitucionalista, mas sei ler o que diz a Constituição:

 

Artigo 36.º
Família, casamento e filiação

 1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.

2. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.

3. Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à manutenção e educação dos filhos.

4. Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo, ser objecto de qualquer discriminação e a lei ou as repartições oficiais não podem usar designações discriminatórias relativas à filiação.

5. Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos.

6. Os filhos não podem ser separados dos pais, salvo quando estes não cumpram os seus deveres fundamentais para com eles e sempre mediante decisão judicial.

7. A adopção é regulada e protegida nos termos da lei, a qual deve estabelecer formas céleres para a respectiva tramitação.

 

Repare-se que o artigo 7 relega as questões da adopção para a lei. Por isso, o retrocesso que esta lei representa é perfeitamente constitucional... Mas o primeiro parágrafo é claro:  Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade. Repare-se no negrito. "E" não é "ou". Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade. Ponto final. O senhor Jorge Miranda tem a lata de, ao arrepio de toda a lógica mais básica, dizer que das duas opções "casar" e "constituir família", só é possível aos homossexuais fazer a segunda hipótese se o quiserem fazer com alguém do mesmo sexo. Ora, não é preciso ser génio para se saber que não estamos frente a um problema de constitucionalidade, mas de léxico. O que é, afinal, casar? A minha resposta é simples: casar é aquilo que a lei define como tal. E acabou-se. A lei não tem de ser escrava de dicionários e, muito menos, de definições teológicas. Ora, não tenho dúvida de que qualquer dicionário dirá que casamento é a união legal de um homem com uma mulher, contudo, o meu Houaiss também diz que, por extensão, também significa qualquer relação comparável com a que é estabelecida nesses termos. Ora, isto quer dizer que enfrentamos um berbicacho onde os constitucionalistas dizem o que lhes der na telha porque cada um puxa a brasa à sua sardinha. E não vou ser eu a defender, em termos lexicais, uma coisa ou outra. A verdade é que não existe na Língua Portuguesa qualquer vocábulo que se aplique ao contrato que una legalmente duas pessoas do mesmo sexo. Mas sendo essa situação comparável a outra que já existe, como é, de facto (não está em questão se é muito ou pouco comparável, mas se existem, ou não, semelhanças suficientes para estabelecer essa comparação), não creio que seja necessário criar um neologismo para que a lei que foi a aprovar passe a ser constitucional. Os Gato Fedorento, no vídeo que acompanha este artigo, já o demonstraram ad ridiculum.

 

A minha sugestão é que o Estado Português crie imediatamente uma Comissão de dicionaristas legais - ou melhor, um Senado da Palavra. Mais importante que uma Constituição, é o significado que se dá às palavras. E não há coisa mais escorregadia que uma palavra. Por isso mesmo é que defendo que a poesia não foi inventada - nasceu ao mesmo tempo que a linguagem. Ora, a poesia é o campo onde as palavras geram significações (ou assignificações, já agora, que também acontece) dúbias e, por essa mesma razão, mais facilmente assimiláveis à verdade íntima de cada um, ao mesmo tempo que potencia um desequilíbrio, também íntimo, capaz de levar ao desenvolvimento pessoal do leitor (e vamos acreditar que esse desenvolvimento é no sentido da compaixão e da lucidez). Ora, quando existirem dúvidas em relação ao sentido de uma palavra na lei, ou quando a interpretação dessa lei depender do significado a dar a uma palavra, eu não considero que seja sensato nem desejável dar esse poder a constitucionalistas. Os constitucionalistas devem ler a Constituição, mas não à luz do seu próprio dicionário. Era aqui que entraria o Senado da Palavra, onde teriam assento escritores, poetas, filólogos e  etimologistas que, quando fosse necessário ao bem público, deveriam estabelecer a área de extensão do significado de uma palavra ou quando seria útil criar um neologismo (e, não, "Bobi" não é um bom nome para o casamento entre duas pessoas que se amam, sejam elas de que sexo forem).

 

Se consideram esta ideia ridícula, não se preocupem. Eu penso o mesmo. Quando o disparate é muito, a criatividade, cansada, dá nisto.

Nota 1 - Note-se que Jorge Miranda utiliza a palavra "casar", de novo. Todos têm direito a casar, mas não a casar... é o absoluto contrasenso. Ou têm direito a casar ou não têm. Segundo este senhor, têm e não têm. Porquê? Porque é com o mesmo sexo. Mas a Constituição não faz qualquer ressalva nesse sentido. Contudo, está implícito que até para o senhor Jorge Miranda, um contrato legal entre duas pessoas do mesmo sexo continuaria a ser um casamento. Caso contrário, não utilizaria essa palavra, com o sentido que lhe deu.

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publicado por Manuel Anastácio às 23:17
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Domingo, 14 de Março de 2010
Pacto entre Walt Whitman e Ezra Pound

Faço um pacto contigo, Walt Whitman -

Já te detestei tempo que chegue.
Cheguei a ti como menino crescido,

Filho de pai teimoso;

Tenho agora idade para já ter amigos.

Foste tu quem rachou a madeira verde,

É tempo, agora, de a esculpir.

Temos uma única seiva, uma só raiz -
Haja, então,
entre nós, intercurso.

 

É assim que traduziria o texto que a Gerana publicou no Leitora Crítica. Não conhecia o poema em causa, se é que pode ser chamado poema. A sua secura de bilhete rabiscado à pressa talvez se coadune com maior propriedade com a linguagem mais corrente utilizada pela Gerana - há, talvez, demasiada tentação interpretativa nas minhas opções.

 

Este pacto representa, no seu tom arrogante, um pedido de lava-pés. O discípulo não se submete à autoridade do mestre, mesmo que agora, passada a rebeldia ad hoc da juventude, se reconheça como discípulo que herda a substância, a madeira verde e a seiva bruta, propondo-se a aperfeiçoar a forma apenas afeiçoada pelo mestre a talhe de podoa. Mais que um pacto, é uma afirmação de independência e de suserania. É uma forma muito pouco simpática de dizer "arruma as botas" que já fizeste o que tinhas a fazer. É um pacto de paz imposto pela parte que se considera mais forte. Uma declaração de paz podre. O fantasma expressivo de um homem que tinha sangue ruim a correr nas veias. De má farinha não se faz bom pão. Ainda que possa ter bom aspecto, torna-se intragável. A não ser, claro, que falemos da forma pura. E a literatura não se compadece de formas puras. Isso é terreno da música e da escultura. Não conheço Pound. Mas não gosto do cartão de visita.

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publicado por Manuel Anastácio às 19:26
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Sexta-feira, 12 de Março de 2010
José Saramago ou o limbo

Seja por razões políticas, seja por razões religiosas,  seja pela falta de pontuação, seja pelo estilo, seja por razões de residência, seja por razões conjugais, seja pelo formato da cara, seja pelo tom da voz, seja pelo solipsismo, seja pela arrogância, seja pela Fundação sita na casa dos bicos-de-obra (para não fugir ao trocadilho fácil), há pouca gente em Portugal a gostar de José Saramago. Eu, por mim, não tenho (quase) nada contra o senhor. Gosta de cães. Preocupa-se com as pessoas. Preocupa-se com ele mesmo (que é uma pessoa, até prova em contrário). Escrevia bem (hoje, já nem por isso, mas, por vezes, ainda tem lampejos de génio) e foi, talvez, o escritor que mais me influenciou depois de John Steinbeck (pronto: e depois da Enid Blyton, honra lhe seja feita). Um dia escrevi-lhe um texto que, das duas, uma: ou nunca lhe chegou às mãos, já que antes de lhe chegar alguma coisa, há um crivo de pessoal da Fundação que decide o que é que José quer ou não quer ler, ou chegou-lhe, realmente às mãos e o senhor, solenemente, ignorou as minhas palavras. Era a respeito da Wikipédia e de uma referência que este autor fazia a certa altura, no seu Caderno, a este grande feito da contemporaneidade que, apesar de não ser, hoje, tão maltratado como nos tempos áureos em que eu muito lhe dei muito do meu tempo, ainda hoje é, na minha miserável opinião, maltratada de forma injusta e mal informada - ainda que seja, eventualmente, também defendida de forma inepta e mal formada. O texto foi este:

Chamo-te José e trato-te por tu porque convivo contigo desde o momento em que descobri "O Memorial do Convento" na biblioteca da escola e, perdido na filigrana de pedra e sangue das tuas palavras, descobri uma forma de tocar o sagrado, mesmo quando este nos aparece como uma nuvem fechada sobre si mesma. Sempre meu companheiro de oração ao Deus desconhecido que se entrevê através das réstias de bondade e vontade no ser humano, tive-te sempre por amigo, e como amigo chamo-te pelo nome, não que Deus te deu, mas que se não fosse Deus, não terias, porque se "Deus acrescenta" é o teu nome em hebraico, outro nome terias se ninguém acrescentasse Deus ao mundo. E, tendo, como é natural, as minhas diferenças de opinião a  respeito de pormenores na paisagem, creio que partilho contigo a mesma estrutura linguística íntima com que narras o mundo e eu o leio.
Tenho lido com regularidade o teu Caderno e, ao deparar-me com uma passagem sobre "O Corpo de Deus", leio, a certa altura uma passagem que me entristeceu, como é natural que nos entristeçamos quando um amigo troça de outro nosso amigo. Dizia "E nada de pôr-se com dúvidas sobre a divina presença na pastilha ázima como sucedeu a um sacerdote chamado Pedro de Praga, no século XIII, não seja que se repita o tremebundo milagre de ver a hóstia transformar-se em carne e sangue, não simbólicos, mas autênticos, e ter de levar outra vez a sanguinolenta prova em solene procissão para a catedral de Oviedo, como complacentemente no-lo explica Wikipedia, fonte a que neste difícil transe tive de recorrer." Não é sobre o milagre da hóstia que te queria falar, mas da complacência da Wikipédia a que, em difícil transe tiveste de recorrer. Leitor de Borges, pensei que te fosse fácil compreender a beleza literária própria deste poema-fonte que é a Wikipédia. Provavelmente, tens razão para estar descontente com uma enciclopédia em que o artigo que se centra na tua pessoa tem passagens de duvidosa intenção e não é, de todo, um artigo decente e ao nível do homem que és. Mas como homem que és, e com os defeitos que tens (que também os tens, creio eu que até aos teus próprios olhos), mais os defeitos que Deus te acrescenta pelos olhos de quem contigo não partilha a mesma linguagem íntima, é inevitável que a estrofe a ti dedicada, naquele poema por vezes monstruoso que se chama Wikipédia, seja, em determinados aspectos, de fraco calibre. A Wikipédia, como bem deves saber, pode ser escrita por qualquer pessoa. E isso é monstruoso aos olhos de qualquer pessoa que acredita no poder sagrado das palavras enquanto formadoras de vontades e guias de sensibilidades. Acontece que, tal como leio e continuo a ler Saramago com o respeito profundo que o mais sábio dos amigos nos merece, eu também aprendi a amar as palavras estropiadas da Wikipédia e sinto sempre que alguém está a perder algo de profundo quando passa pela Wikipédia com o desdém que um texto mal escrito inspira aos cultores da palavra. A Wikipédia não tem um autor, é certo. Tem muitos. Todos aqueles que aceitam o repto de carregar no botão "editar" e se decidem a modificar o texto, conformando-o à sua vontade. Neste processo, sucedem-se séries de camadas que, como num corte geológico ou no estudo aprofundado de um palimpsesto, revelam a força da vontade dos leitores sobre as palavras que se moldam como plasticina. Estou de acordo que deste processo jamais nascerá, definitivamente, um texto digno de se ler como se lê Saramago. Eventualmente, algum leitor de génio poderá deixar uma obra prima soterrada em novas edições de outros autores, porque ali não se procuram obras primas da literatura, mas, apenas, informação e imparcialidade. Fraco objectivo, meta aborrecida, dirá, provavelmente. E eu concordo. Meta aborrecida, mas o caminho... poderia ser espantoso se, cada vez mais, em vez de julgarmos ver "complacência"  num artigo bem ou mal escrito da Wikipédia, víssemos o convite à nossa própria participação daquele cadavre-exquis que vai muito além do sonho mais delirante de um surrealista. Aconselho-o a pegar num artigo da Wikipédia e que carregue na "história" do mesmo e explore as versões antigas desse artigo, se as tiver - isto é, se não for um artigo com presunção a uma perfeição que apenas gerará o desinteresse de alguém em reescrevê-lo. Aconselho-o a ler a discussão desse artigo (o que os escritores-editores disseram sobre o artigo, sobre a forma de o escrever, os defeitos que apontam à veracidade, verificabilidade e imparcialidade do que nele é exposto); aconselho-o a tentar melhorar um artigo, reescrevendo-o; aconselho-o a ficar irritado com os outros editores que talvez venham a censurar a sua contribuição e que tentarão (a si, José Saramago!) ensiná-lo a escrever lá segundo as normas definidas pela comunidade. Uma comunidade de pessoas que, não sendo poetas (ou talvez o sejam em outros lugares que não lá) trabalham como formigas para juntar palavras que ensinem. Uns com um propósito, outros com outro. Uns mais preocupados do que os outros com os erros, omissões e vandalismos a que as palavras por alguns carinhosamente lá depositadas, são submetidas. Aconselho-o a reavaliar as palavras que lá encontrar. Há, com certeza, imensa informação (pouca, ainda, na nossa versão lusófona, que muito boa é, sabendo eu o quão reduzido é o número dos seus autores) que por vezes nos dá jeito. Se é certo que há erros (propositados ou não) disseminados na Wikipédia, é quase certo que a nossa capacidade crítica (se a tivermos) saberá destrinçar o trigo do joio (a não ser, claro, que estejamos a escrever uma tese de doutoramento onde não se admitirão o descuido de pequenos erros, ou erros curiosamente engendrados por espíritos que, como o revisor de "História do Cerco de Lisboa", decidem apôr um não à História para que dela nasça uma discussão). Eu defendo a Wikipédia. Dei horas e horas da minha vida à escrita de artigos que, sem qualquer contribuição financeira, poderão ser usados por qualquer pessoa no mundo e que, creio eu, poderão ajudar a esclarecer mais pessoas e a melhorar a sua vida. É por isso que o teu comentário algo frio a um texto que não guarda em si qualquer complacência, mas a nuvem aberta de uma vontade aberta a outras vontades, me fez doer um pouco o íntimo. Como se aguém troçasse de um poema de Camões por não compreendê-lo.

 

Ora, hoje li uma crónica de Miguel Esteves Cardoso sobre o massacre (ministra Canavilhas dixit) de livros perpetuado por algumas editoras, onde é dito a certa altura:

 

José Saramago – mau escritor mas boa pessoa, na minha miserável opinião – foi enganado.

 

Ri-me a ler esta passagem. O MEC sempre teve jeito para descobrir aquilo em que ninguém tinha pensado. José Saramago mau escritor, mas boa pessoa. Creio que qualquer pessoa decente prefere ser boa pessoa a ser bom escritor. Eu valorizo, de longe, mais a bondade que o talento. Ora, Saramago tem a bondade de um ser humano vulgar e mediano. Não é santo nem herói nem a isso se candidatou alguma vez. Irrita-se como qualquer pessoa, é arrogante como qualquer pessoa, ignora os outros como qualquer pessoa. Há uma passagem qualquer de um dos seus cadernos em que este se censura a si mesmo por não se ter dirigido a qualquer um dos afro-americanos que viu à frente quando estava perdido em Nova Iorque, há uma passagem em que decide pintar o chão da sua casa com chá, há passagens de pura humanidade naquilo que escreve. Humanidade cheia de uma espiritualidade chamada bondade. E para se ser bom não é preciso muito. Basta ser uma pessoa vulgar, com momentos maus.

 

Saramago é uma pessoa vulgarmente boa e vulgarmente má. Ninguém retirará da minha vida as horas em que meditei sobre a sua obra - horas que me fizeram tal como sou (e, provavelmente, que fizeram grande parte daquilo que vale a pena naquilo que sou). Mas, hoje, não já o admiro como admirava. Até porque também sou uma pessoa vulgar. Vulgarmente boa e vulgarmente má (e escritor de duvidável qualidade, digam o que disserem os meus amigos que meus amigos são apenas e através daquilo que escrevi). E como pessoa vulgar que sou, sinto mágoa quando sou ignorado. E detesto pessoas que se isolam em pedestais. Hoje posso dizer que continuarei a ler Saramago... mas não já como antes. Saiu do meu Paraíso e não lhe dou entrada no meu Inferno.

Artigos da mesma série:
publicado por Manuel Anastácio às 22:29
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Sete pecados capitais: A Inveja

Os outros têm. Os outros são. Os outros mostram.

Eu, eu deixo de ser para desejar

Outro não ser que o que o que não sou. Não vendo.

Não crendo,

querendo, porém.

 

Do dia, não se intromete a luz nos meus olhos,

Nem em ninguém implodem primaveras recalcadas na informe geometria dos sonhos.

A brevidade das pétalas;

O germinar secreto das sementes que se furta à contemplação,

Não se inveja.

Só a espuma e o verdete inspiram veneração,

Como os planaltos.

 

                                     Temem-se abismos.

E no fundo de nós mesmos pousa areia

resignação turva por consolidar.

Nunca terei. Nunca serei.

Nunca o poderei demonstrar claramente.

 

Em ardente desejo de vidente evidência

Não ter é ser

 

pela metade

publicado por Manuel Anastácio às 00:56
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Domingo, 7 de Março de 2010
Soneto 1 de Shakespeare

 

Vénus. Jardins do Schloss Nordkirchen. Carregar na foto para os devidos créditos.


Da beleza desejamos semente,
Para que da rosa não morra o belo,
E, seguindo, a madura, o sol poente,
Seja relembrada em botão singelo.

No brilho dos teus olhos contraída,
Luz ardente a si mesmo se consome,
Por teu próprio e gentil imo ferida,
Mudas da abastança o leito em fome.

Tu, do mundo o mais viçoso ornamento,
E da Primavera exclusivo arauto,
Encerrado germen de órfão rebento,
Terno avaro, do desperdício incauto.

Ávido, do mundo tem piedade,
No devido, ou na morte, saciedade.

 

Tradução / versão de Manuel Anastácio

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publicado por Manuel Anastácio às 18:36
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